segunda-feira, dezembro 19, 2011

Crónica de Segunda - "Crónica a uma folha em branco"

Tenho esta coisa com as páginas em branco. Olho-as e elas começam a bulir comigo e eu a bulir com elas. Depois é um desatar de palavras a escorregar pelo papel fora e a folha a ficar escrita, riscada a preto, feia, com a minha letra feia, e assim de ar sujo. Se ao menos eu tivesse uma caligrafia bonita, redondinha e pura, com pontinhos nos is iguaizinhos a bolinhas bonitinhas, engraçadinhas, a imitar corações. Mas nada disso, é feia, meia oblíqua e incerta, toda escrita às pressas, como quem foge ou não quer ser percebida.
Depois é todo um avolumar de signos e sentidos, de estórias e histórias, ideias e objectos, planos e pensamentos, coisas que eu não saberia arrumar sem as palavras. Fico então pasmada a perceber para que servem. Servem sobretudo para encher páginas – como esta – e servem para nos iludir que o abstracto que há em nós pode ser objectivado com estes conjuntos de letras. E eu às vezes a querer ver-me livre delas, e das coisas objectivas e ser só coisas vagas, indefinidas, às vezes mesmo sem sentido (para o que serve o sentido mesmo?). Eu a querer fugir e pensar, sei lá, música em vez de palavras, sentir perfumes em vez das palavras que tantas vezes picam, como cactos, agulhas, coisas irritantes que não nos deixam descansar o raio das palavras. E eu a vê-las a crescer na folha antes em branco, tão purinha, tão capaz de ser ainda qualquer coisa, antes de eu a pisar com as minhas palavras e a minha letra feia, escrita a preto, ainda por cima – era a caneta que tinha – se ao menos fosse a azul, sempre ficava mais bonitinha. Menos feia, quero eu dizer, quase se afiguraria a uma pintura abstracta, um desenho mais propriamente. Gosto das bic cristal azuis e parkers, deslizam bem, ajudam-me a sujar a folha com estilo, sem me emperrar as ideias.
Santo Deus, olha tantas! Tantas palavras já aqui plasmadas. Tanto papel sujo, podia ter sido uma folha tão bonita, com desenhos, por exemplo, se eu soubesse desenhar, ou notas de música, uma pauta, se eu percebesse alguma coisa de música, até podia ter sido um belo objecto literário, ter-lhe nascido no seu interior um romance, um conto, um poema, um previsível prémio nobel da Literatura. Ou, pelo menos, uma carta de amor, mesmo que desastrada, uma que dissesse “amo-te” a tremer na linha, de letras embargadas, mesmo que fosse ridícula, como as que Ofélia recebia do Fernando. Ridícula como toda a carta de amor deve ser, como todo o Amor o é, também.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Crónica de Segunda - "Um clássico da literatura"

Nada melhor no regresso das crónicas do que dissertar sobre os clássicos da literatura. Vem isto a propósito de não ter tema sobre o qual falar e pretender servir-me de uma conversa que ouvi por acidente num daqueles cafés em que as mesas são tão próximas que é difícil não ficarmos por dentro da conversa dos vizinhos do lado. Calhou que na mesa junto à minha duas jovens conversavam sobre as suas vidinhas e embora em tom discreto veio parar ao meio da minha leitura de jornal a seguinte pérola “só gostava de ter um dom que me fizesse perceber o que ele sente, ou o que fez de tudo o que antes sentia”. É claro que depressa me desliguei da conversa entre as duas que pouco ou nada me interessava para pôr o neurónio a viajar nas ondas da parvoíce. Pus-me a imaginar o mais velho e batido clássico da literatura, do indivíduo que sai para comprar tabaco e nunca mais regressa deixando a angústia do regresso em quem fica. Tudo isso seguido de imagens fílmicas de alguém que desce uma rua, mesmo diante dos nossos olhos e no primeiro cruzamento desvia o percurso numa esquina e assim desaparece, do nosso olhar e da nossa mente, depressa substituída a sua imagem por outra qualquer que melhor nos distraia. Assim vamos fazendo o nosso percurso tornando-nos, face aos outros, quantas vezes o mesmo clássico da literatura, desaparecendo quando íamos comprar tabaco ainda que, ou sobretudo se, não formos fumadores. São inúmeros os poderes da invisibilidade, cómodos, simpáticos, muito uteis para a sobrevivência longe dos tão difíceis afectos. Então não é melhor sermos nuvens, coisas etéreas que desaparecem nas esquinas, um não-sei-quê de poético e ao mesmo tempo trágico, do que ficar a matutar tristemente no que o outro há-de ter ficado a pensar ou a sentir? Foi antes ou depois do maço de tabaco? O amor eterno (enquanto dura) é maior ou menor, tem mais ou menos eternidade quando nos afastamos? É ou não verdade que para sempre só é real quando tudo acaba? Pensem nisso, entretanto vou ali comprar tabaco. Volto já.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Crónica de Segunda - Grandes títulos

Como leitora sei bem da importância do título de um livro para despertar a atenção do leitor. Isso e as primeiras frases dos capítulos, sobretudo a primeira de todas, para leitores que, como eu, gostam de foçar nos livros que vão percorrendo nos escaparates, abrindo-os à toa quando o título desperta alguma luz.
Vem isto a propósito de as minhas penúltima e última crónicas terem deturpado títulos conhecidos de outros autores, sendo a última “Que farei quando tudo seca” obviamente derivada do belo título de Lobo Antunes “Que farei quando tudo arde”. Lobo Antunes é, aliás, exímio para espantosos títulos capazes de me porem a flutuar, sendo que na sua maioria a relação directa entre estes o assunto do livro é ténue ou inexistente. Foi precisamente ao tentar achar assunto para a crónica que me fiquei a pensar sobre estes assuntos e a relembrar quão belo é este título e um outro do mesmo autor “Não entres tão depressa nessa noite escura”. Qualquer um dos dois, títulos de romances, daria o de um belo poema, aliás, mais concretamente qualquer um dos dois títulos é em si mesmo um poema, atravessados que são de sentidos múltiplos a apelar ao sensitivo, a libertar a imaginação, a fazer-nos desagarrar do chão como convém a um poema. E dei por mim a emperrar de novo no primeiro “Que farei quando tudo arde?” A questionar-me interiormente sobre isso mesmo, o que fazer quando em nós uma estopa nos queima por dentro e nos ensandece, quando à volta tudo parece apagar os caminhos de regresso a nós, quando as labaredas nos impedem de partir e de chegar e subitamente nos achamos sós e sem rumo num labirinto de chamas e quando a cinza fica, depois, no lugar de tudo o que antes houvera. Latifúndios de antracite, um universo de vazio, de destroços, que farei quando nada sobra no rescaldo? E foi ainda a matutar nos títulos de Lobo Antunes que me lembrei de como termina o outro romance de cujo título aqui falei “Não entres tão depressa nessa noite escura”, prometendo que já chega e não me alongo sobre tudo quanto esta frase me faz laborar mentalmente, cito, embora de memória e com isso mais sujeita ao erro, a frase de encerramento desse romance, ela própria outro poema, Maria Clara, a personagem diz/pensa – “Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor, toco-me com o dedo no vidro.”

segunda-feira, outubro 31, 2011

Crónica de Segunda - "Que farei quando tudo seca?"

É dia de crónica, as horas passam, está chuva lá fora e já não posso usar as nuvens em Paris como metáfora para o cinzento que vai cá dentro ou noutro sítio qualquer. É que agora há nuvens mesmo aqui ao pé, não preciso imaginar outro país, outro lugar, corta-me esse prazer. O sol cedeu vez ao Outono carregadinho de nuvens e elas carregadinhas de chuva. Acontece que a chuva me deprime e embrutece, com a chuva não há crónica que se aguente face à minha sisudez de humores. Sobre o que escrever então?
Começa logo por me faltar imaginação para a crónica e para a literatura, aqui mais perto já ao ouvido lhe confesso, estimado leitor (eu às vezes acho que alguém me lê), para a vida também já vai faltando a paciência e a imaginação, creio que a isso chamam envelhecimento – os mais sagazes chamam-lhe amadurecimento para não se verem ao espelho com rugas e cãs.
Vai daí que tenha apenas uma frase que inventei por inventar e nem sequer é totalmente original – há alguém original, afinal? – já que é uma deturpação de um genial título de Lobo Antunes – “Que farei quando tudo seca?” Viria a questão a propósito do que fazer em nós quando nos deixamos secar? Secar ao ponto de as lágrimas não correrem e em vez delas um esgar, ou pior, em vez delas nada, um olhar vazio, seco por dentro, uma expressão inexpressiva, a expressão de não expressar nada, de não sentir nada. Secar por dentro é deixar de sentir ou sentir mas não notar, ou é um não notar de sentir pouco, quase nada, já passou, já não dói! Já não – enfim.
“Que farei quando tudo seca?” – que mais coisas podemos deixar secar dentro de nós além das lágrimas? A ternura? O beijo lançado no vento que nunca chegou a pousar? A memória antes tão viva e agora uma sombra apenas, um nevoeiro sobre os olhos – “Lembras-te? – Acho que não me recordo bem.” Tudo tão vago como se apenas sonhado. E nem uma ideia para esta crónica, tudo seco.
Chuva nos telhados, vento a empurrar as nuvens para mais perto. Dantes gostava de nuvens, quando achava que também eu nuvem, não cinzenta, branquinha, assim de ar virginal, não a ameaçar chuva mas antes a proteger do mal. Mas era tudo invenção, tolice, metáfora bem tosca, tudo tão irreal.
Tudo seco. Que farei quando tudo seca e nem lágrimas? Molhada a face de chuva apenas. Só esta chuva para inundar o chão tão seco, tão inóspito, desértico, a abrir fendas de secura, um cacto também ele em risco de perecer. Só a chuva a fingir lágrimas do céu para nos molhar.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Crónica de Segunda - A Crónica dos Bons Malucos

O título da crónica foi ostensivamente deturpado do famoso livro de Mário Zambujal. Talvez me tenha vindo à ideia por agora o mesmo livro, que ainda não li e do qual não vi a versão cinematográfica, ter sido transformado 30 anos depois em musical. Certo é que me lembrei deste título como um bom corolário a uma sucessão de acontecimentos fortuitos numa tarde avulsa de um dia qualquer – como o de hoje.
Num elevador sou puxada para cima apesar de pretender descer. Atingindo o último andar do prédio o elevador abre as portas e um rapaz, que o esperava, antes de entrar questiona: “vai descer?”. Respondo-lhe que sim, acrescento “não tem mais por onde subir!”. Trocamos sorrisos, nada mais. Ele continua a responder a mensagens no telemóvel e eu continuo a pensar numa conversa de ontem – sobre a impossibilidade de termos um GPS interior, que nos mostrasse os mapas dentro de nós por onde temos de nos orientar.
Adiante numa montra de relógios caros um sem-abrigo, provavelmente drogado, certamente maluco, comenta para ele próprio mas em voz audível, os preços dos relógios, entremeando as frases com vernáculo “Este ainda é mais caro que aquele, F****-se!” sem se perceber se é presumível comprador, eventual assaltante ou apenas um apreciador de mecanismos e engrenagens nos intervalos permitidos pelo consumo de ácidos. Onde o levaria o GPS interior? Tic-tac, tic-tac, tic-tac, onde iria parar?
Num centro comercial, sentada a uma mesa com um copo de cerveja uma velha fala sozinha, como se ao seu lado se encontrasse uma amiga imaginária a quem contar os desmandos da vida, peripécias dos filhos ou dos netos, coisas de mulher viúva, mas só, gesticulando para a amiga, esperando a sua anuência “estás a ver?”. Não sei se amiga viu. Levantou-se pouco depois, sacudindo a saia roçada e um pouco amarfanhada, caminhando titubeante com o copo de cerveja na mão. O GPS levá-la-ia a que lugar?
Num café da cidade uns olhos que não são bem os teus mas são tão parecidos que eu quase que acreditei seres tu. Um perfume que não sendo o teu ficaria igual preso nas pontas dos meus dedos, eu sei. Deixa-me tocar-te os olhos como dantes, não agora não, não agora que o meu GPS interior deu a volta, enganou-se, ficou tonto, enlouqueceu “faça inversão de marcha assim que possível” – não sei se vai ser – “faça inversão de marcha assim que possível” – não sei se consigo – “faça inversão de marcha assim que possível”.
Ainda queria ter tempo de perguntar-te porque estão tristes os teus olhos mas… “faça inversão de marcha assim que possível” – nunca se deve desobedecer ao GPS, sob pena de nos perdermos e nunca mais nos conseguirmos encontrar!

segunda-feira, outubro 17, 2011

Crónica de Segunda - Os amigos dos médicos

Esta Crónica de Segunda de hoje não é bem uma crónica mas antes um preito à solidão. Não me entendam mal – gosto de estar só. Costumo dizer, e acredito no que digo, que me agrada tanto a solidão como uma boa companhia. Não que conseguisse prevalecer em solidão mas também não sobreviveria sem longos momentos dela, gratos momentos de silêncio e interioridade onde me sento e escrevo coisas como esta.
Vem esta crónica a propósito de uma classe que conheço bem por inerência à minha vida particular – os médicos. Não falarei sobre eles mas sobre os seus amigos.
Dividem-se em duas distintas classes os amigos dos médicos – outros médicos e os outros, os não médicos. Os primeiros surgem pelas contingências próprias do exercício da profissão – uns apanhados nos bancos da faculdade e outros tantos pela via do trabalho, colegas de serviço, de hospital, de centro de saúde, etc. São uma seita de difícil digestão, se em volta de uma mesa é certinha a conversa sobre doenças e doentes, seus mandos e desmandos, antibióticos e clisteres, quando não são conversas ainda mais avessas por versarem escalas de urgência, noites perdidas, todo um rosário de maleitas concernentes a uma vida sem rumo ou rotinas de volta da dor, das feridas, da miséria e do nojo dos outros. Amámo-los mas fugimos deles, ninguém tem paciência para se ouvir em eco e se ver ao espelho todo o dia.
Há, depois, os não médicos. Desde colegas da escola perdidos no tempo ao vizinho do andar de cima com quem se fez amizade, as suas proveniências são as mais diversas. Com todos eles partilhamos segredos e ternuras, gargalhadas e lágrimas, como é natural. Têm estes amigos um traço comum, os amigos dos médicos não ligam para dizer “tenho saudades tuas” nem para dizer “sinto-te a falta” ou uma coisa mais comezinha tal como “Como estás? Tenho pensado em ti.” Os amigos dos médicos ligam para dizer “dói-me a cabeça” ou “dói-me a barriga”. Há que perceber isto como uma vantagem anti-pieguice, os amigos dos médicos quando os encontram na rua não lhes pedem abraços, pedem receitas e se vêm com saúde atestados de robustez. Claro que entre uma dor e outra nos desabam contra o peito e, amigos que somos, serenámo-los no afago do colo – e é tão bom isso! – quando a dor se acalma levantam voo como um pássaro ferido a quem tivéssemos remendado a asa e é bonito o seu voo que ficamos a vigiar de longe, sabendo sempre que hão-de voltar. Reconhecerão o lugar e a ele voltarão quando a próxima gripe lhes pegar. Abençoado seja o micróbio que os ataca.
E se estou aqui sozinha neste café não é porque os amigos que tenho não me sintam a falta – que tolice! É apenas porque os tratei bem, vacinados e vitaminados nada lhes dói. Graças a Deus!

segunda-feira, outubro 10, 2011

Crónica de Segunda - As nuvens no céu de Paris

Aviso prévio: A Crónica de Segunda de hoje sai fortemente prejudicada pelas nuvens no céu – estão aqui a sussurrar-me que o céu do Porto não está nublado e as temperaturas de Verão não permitem sequer pensar que o Outono já tomou conta do calendário – pois que seja, que me interessa lá isso – a Crónica de Segunda de hoje sai fortemente prejudicada pelas nuvens no céu de Paris (como espero não ter leitores em Paris e como o Inverno costuma chegar lá primeiro do que cá espero que não me venha bater no ombro, despertando-me para a dolorosa realidade de não estar Paris coberta de nuvens, como convém à minha crónica de hoje).
São certamente essas nuvens, não pode ser outra coisa, que me trazem à memória, como aos velhinhos, imagens fugazes, como frames de um filme a sépia (que liga muito bem com as nuvens e nestas coisas da literatura, mesmo a mais croniqueira, devemos ter atenção à estética, ao estilo), coisas antigas de antigos abraços, piadas tontas de amigos entretanto perdidos, intimidades, contradições, sorrisos que se estendiam nos lábios e ameaçavam prolongar-se nos olhares, sorrateiras cumplicidades que ganhavam vida como um segredo, duas mãos que se apertassem fingindo um abraço inteiro que ninguém mais vê.
De repente, sob o efeito dos céus cinzentos… de Paris, os cafés do Porto, velhos, antigos, que eu percorro por vício, são subitamente lugares vazios, bafientos, incómodos, povoados de memórias boas mas distantes, como sombras que tentamos em vão agarrar com as pontas dos dedos, fantasmas evanescentes, coisas que parecem existir apenas na nossa imaginação ou por trás, muito por trás das nuvens que cobrem os céus… de Paris. Um perfume que fica muito para lá do corpo, já na sua ausência, serve de memória e enquanto o olfacto nos deixar não nos sentimos sós, somos a mesma realidade ficcionada, um ralenti da cena passada, o actor sai de cena mas deixa o seu lastro sob a forma de perfume e é como se ainda ali estivesse, um holograma, uma imagem apenas imaginada, mas ali, enquanto o perfume permanecer. Tudo isso a ser levado e lavado pelo vento, o mesmo que há-de empurrar as nuvens dos céus de Paris, de Londres, Nova Iorque, Xangai, que sei eu! Sei que olho o céu que me cobre, límpido, sem nuvens, tiro o casaco, aqui é Verão, e penso que a brisa que acabou de me percorrer talvez chegue tão longe como Paris, Londres, Xangai… e leve as nuvens que tanto prejudicaram esta crónica que podia muito bem acabar com um sorriso!

domingo, outubro 09, 2011

Os escombros (uma reposição)

Há uns anos, escrevi este poema ao descer as escadas da Casa da Música. Ontem estive lá outra vez e lembrei-me (como poderia não me lembrar...) deste já velho poema. Partilho-o (em reposição do meu meu defunto blog o "era de noite chovia" para quem ainda se lembrar dele)


Foto de Luís Lobo Henriques








O que resta nos escombros do silêncio

Serás, amanhã, notícia no jornal
e isso que importa,
não estarei lá para ler
de ti a folha morta,
já não te acompanho no silêncio
das portadas,
já de nós não há memória
ao descermos estas escadas

fomos rio impetuoso
que esbarrou sem liberdade,
na barragem construída
entre rugas de saudade,
fomos vento que passou
tão leve e ledo,
que o amanhã tornou-se um ontem
feito medo.
Fomos alma, fomos cor,
ou coisa breve,
e fomos morrendo os dois
cheios de neve
nos meandros da memória
que nos serve

esta liquefeita
angústia que se bebe

segunda-feira, outubro 03, 2011

Crónica de Segunda - Midnight in Real Life

Já passei algumas meias-noites em Paris, ora na cama do hotel, ora nas ruas parisienses mas nunca nada de tão extraordinário me aconteceu como a Gil, personagem principal de “Midnight in Paris” o mais recente filme de Woody Allen, o autor de Rosa Púrpura do Cairo que, mais uma vez, faz os seus personagens atravessar a realidade e penetrar numa meta-realidade de outro tempo. O filme leva alguns dos seus personagens numa espécie de viagem encantada a um tempo anterior ao seu, tornando-os mais felizes do que no tempo em que vivem. Trata-se, é-nos revelado ao longo do filme, de uma metáfora, um síndroma de rejeição do presente a favor de um passado que imaginamos mais glamoroso e por isso mais capaz de nos dar felicidade. No rescaldo do filme muitos dos espectadores reencontram-se nestes personagens, identificando-se com eles.
Pessoalmente, não pertenço a esse grupo. Sempre tive uma forte relação com o passado e uma certa nostalgia em relação a algumas coisas dele, nomeadamente dificuldade em me desfazer de certos objectos que simbolicamente representam algo do meu passado afectivo, mas o passado ao qual me sinto ligada é o meu e não o dos meus antecessores, ou seja ligo-me ao tempo em que vivi e não àquele que não conheci. Quando jovem adolescente se questionada sobre uma época em que gostaria de ter vivido diria que não queria regredir séculos mas apenas umas décadas. Gostaria de ter vivenciado os loucos anos 60, a eclosão das grandes liberdades ao som de Beatles e Dylan. Ouvia horas de música dos 60 (e ainda ouço) e achava tudo aquilo delicioso (à excepção das calças boca de sino). Mas durou pouco essa fantasia, depressa percebi que o meu tempo era aquele (mais concretamente à volta dos 80’s) pois ali despertava eu para as minhas próprias liberdades, os primeiros amores, as paixões, as descobertas e a música do meu tempo e não de outro anterior. A hipótese de entrar numa cápsula de tempo nunca me entusiasmou, nem para o futuro e menos ainda para o passado.
Olho com bonomia os trintões pingados, da minha idade, a perseguirem nostálgicos e infantis as modas dos 80, a dançar furiosamente disco-sound, tornando os anos oitenta numa espécie de moda colectiva, esperando transmiti-la aos filhos como uma maldição. É certo que até houve boa música nos 80, mas também uma série de muito maus sub-produtos. Também gostei de ver o Live Aid em directo, ouvir a estreia de Russians ainda no tempo da cortina de ferro, ter presenciado o fim do muro de Berlim e sentir todas essa emoções. Mas como é normal o tempo não ficou parado aí. Os anos noventa trouxeram também extraordinários rasgos de genialidade, ouvíamos a esse tempo Nirvana e Abrunhosa, lutávamos contra as propinas, o império Cavaquista, buzinávamos nas pontes e protestávamos contra Chirac e os ensaios nucleares na polinésia francesa. Não foi, pois, um tempo vazio de românticas lutas e criação artística. Valer-nos-ia a pena refugiarmo-nos no passado dos outros quanto temos um tão rico passado atrás de nós? O futuro é sempre igual, as coisas desgastam-se, desmoronam-se, as fúrias acalmam-se, os guerreiros de antes casam-se, têm filhos e engordam. Kurt Cobain teve a decência de se matar aos 27, mantendo incólume o mito – cumprem-se agora 20 anos da edição de Nevermind, o bébé mergulhador deve ser hoje um jovem adulto que ainda não teve tempo de engordar e envelhecer. Tudo o resto é como sempre, já o magnífico poema “A esplanada” do Manuel António Pina o explicou, os nossos cafés de encantamento transformam-se em balcões de bancos ou supermercados, “Bob Dylan encheu-se de dinheiro” e o Bono também, Abrunhosa foi apanhado pelo Millenium e todos eles têm hoje ar de pais de família abastados, eu própria a meu tempo me converti às bocas-de-sino, entretanto novamente ultrapassadas. Mas ainda assim o passado é o passado, quem quiser voltar aos anos 50 para conhecer o Elvis não vai querer ficar por lá a envelhecer até à sua fase obesa.
Por mim prefiro o presente, a criar futuro todos os dias que há-de ser o passado com que algum tonto mais novo há-de ficar a fantasiar. Nós por cá continuamos a ouvir U2 e Abrunhosa, pois claro. Não por serem passado mas por continuarem a criar.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Crónica de Segunda - As flores do caminho

Conheci as prímulas há muitos anos. Vieram parar cá a casa pela mão de minha Mãe que as comprou por lhes achar graça e lhe ter apetecido enfeitar uma pequena mesa com um vasinho com flores. Eram umas flores amarelas, singelas e engraçadinhas, em número de quatro ou cinco a despontando entre folharecas verdes e que pela noite exalavam um forte cheiro polínico. Plantazinha simplória, a trezentos paus (no tempo dos escudos sim, já foi mesmo há muitos anos) o vaso pequeno. O meu namorado dessa época cruzou-se com elas e riu-se, dizia ele que aquilo eram “flores do caminho”, coisitas banais que havia aos pontapés pela terra dele. Rimo-nos disso, tornou-se por algum tempo uma espécie de pequena piada com a qual nos picávamos, ele a desdenhar da plantinha e eu a elogiar-lhe a beleza como se nenhuma outra flor fosse mais meritória. Nenhum dos dois o fazia com particular convicção, era apenas uma brincadeira com que nos entretínhamos e que esquecemos mal as flores morreram, alguns meses depois.
Agora, tantos anos passados, lembrei-me delas, das prímulas, sabe-se lá porquê. Fui eu quem, empenhadamente, descobriu o nome das pobres, de outra forma seriam apenas as flores amarelas, mas ao encontrar-lhes o nome próprio – prímulas – ofereci-lhes uma comunidades de pertença e uma personalidade, uma excelência que de outra maneira nunca teriam tido. Foi assim que me deitei a pensar na importância que o nosso nome de família nos traz, não tanto pela sua proveniência – se se trata de uma família aristocrática ou um nome comezinho e banal de zé ninguém – mas apenas pela sua existência. A partir do momento em que temos um nome passamos a ser gente, a ter personalidade, como que ganhamos espessura, volume de gente. Acontece isso sobretudo com os nomes próprios e pelos quais habitualmente respondemos, senão sempre, pelo menos na intimidade. Se nos trocam o nome é como se nos trocassem também, deixamos de ser nós, passamos a ser uma existência inventada ou contrariada, somos e não somos. E isso sempre acontece quando nos chamam pelo nome errado ou quando não são capazes de nos nomear, nesse último formato passamos a ser uma coisa, somos amorfos – “ó coisinha!” como alguns chamam aos outros que não sabem ou não querem nomear. Já o nome de família reporta-nos mais a um clã, passamos a ser não apenas um mas uma parte de um todo, ainda que o nosso todo possa ser um todo fragmentado, disfuncional, às vezes até incomodo, se somos Silva podemos nada querer com o Pai ou com a Mãe, podemos ter-nos perdido dos restantes irmãos por pouco ou nada nos ligar, mas liga-nos o nome, se somos Silva é porque não somos sós e há outros Silvas como nós – isto aqui rimou ou foi de mim? Qualquer dia escrevo um poema – daqueles com rima, métrica e tudo! (e pontos de exclamação, amén.)
Tudo, enfim, por causa das prímulas, as discretas flores-do-caminho das quais agora tive saudades. Por um momento pareceu-me até sentir o seu nardo, penetrando pela noite, a entrar-me nas narinas. Ilusão olfactiva, apenas. As prímulas e sua metáfora das flores-do-caminho. Enquanto vivas sobre a minha mesa eram, para mim, as prímulas, que eram as minhas flores. Outros fossem os olhos e seriam apenas rasteiras flores-do-caminho, sem uso, prontas a ser pontapeadas pelos transeuntes. Gosto de pensar que me cruzei pelos caminhos com algumas flores que guardei em canteiro, regando-as e tornando-as tão prímulas como quaisquer outras, até que se murchassem – destino final de flores tão frágeis. Outras despontarão, noutros caminhos que não o meu.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Mais Tarde

Quando voltares
já não estarei,
terei partido em busca de mim
pelas marés,
levando comigo o restolho
a arrastá-lo com os pés.

Quando voltares
o meu lugar será vazio,
musgo e vento em meu lugar,
ainda que te lembres como era
antes de partir
nada encontrarás
de mim o que recordar.

Quando voltares
ainda o sino, sinalizando o tempo,
hora após hora,
o lento piano a acordar memórias de antanho,
perdidas tão de nós
como antes fôramos perto.

Quando voltares
talvez encontres ainda o vaso e as flores,
um canteiro seco, por regar,
planta que deixaste morrer por te partires.

Quando voltares
acharás lugar para ficar
de novo também as mesmas ruas,
os mesmos pequenos lugares
de onde nunca sentiste que chegaste a partir,
nada em ti sentirá diferente
e não estará, apenas eu
não estarei lá.

Numa nuvem de tempo,
limparás o cotão e a fuligem
depositadas no lugar de onde partiste.

Quando voltares hás-de,
enfim, permanecer, apenas eu
já não estarei,
terei partido bem antes,

sem esperar para te ver.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Crónica de Segunda - Coisas irritantes, ou a reabilitação das sms de Natal

A braços com a crónica e sem tema para ela, resolvi mergulhar naquelas coisas que nos irritam, mesmo naqueles, ou sobretudo nesses, de quem gostamos, como os amigos.
Acontece-me a mim e a quase todos, pelo Natal e Ano Novo uma inundação telefónica de mensagens de gente que mal conhecemos e outros que nos são próximos com os votos do costume em mensagem mais ou menos produzida mas que, em geral, soa a tudo menos pessoal. Há quem se irrite profundamente com esta prática. Pessoalmente não a considero assim tão má. Tem o inconveniente do telemóvel que apita a toda a hora mas se o pusermos em silêncio torna-se muito mais suportável. É verdade que me é algo indiferente se a tia da prima da porteira que ficou com o meu número por em tempos me ter cravado uma receita de aspirina me envia votos de um ano cheio das melhores coisas, mas sempre seria pior que essa mesma pessoa me desejasse uma caganeira ou coisa quejanda. Mais frustrante é percebermos que a nossa prima preferida, o cunhado ou o nosso irmão nos enviam a mesma exacta mensagem, suspeitando nós que foi reencaminhada da mesma tia da prima do porteiro. Mas verdade, verdadinha, por menos original e impessoal que seja a mensagem que nos enviam há-de querer dizer que a criatura em causa, seja lá ela quem for, ao passar a lista de ilustres do telemóvel, se lembrou de nós e, seja por verdadeira amizade ainda que às vezes pouco alimentada ou apenas por respeito, achou que merecíamos ser carimbados com a natalícia sms. Portanto não acho mal, e acho pior quando a mensagem pré-formatada vem dos íntimos e dos amigos, não porque não goste do contacto, ainda que apenas virtual, mas por achar que aos amigos fica mais bonito dar algo de pessoal, algo que os faça perceber que mais do que correr a lista, pensamos sobre eles e não apenas neles.
Vem esta reabilitação, quase apologética, das pobres sms decembrinas a propósito de algo que me irrita muito mais, mas muito mais, tanto assim que vem sempre de gente a quem chamo amigos e a quem estou afectivamente ligada. Ao contrário dos vagos conhecidos e gente de quem já nem nos lembramos, ocorre-me às vezes ligar a amigos com quem não estou há algum tempo para ouvir a suas vozes, trocar cromos e apontamentos de actualidade, sobretudo aquela que não interessa a ninguém, ou mesmo discutir a meteorologia. O que me irrita perguntará o leitor já intrigado? Aquele amigo – digo amigo porque me parece que isto é um hábito masculino, não me recordo amigas que me façam este desplante – que no início, no meio ou no fim das conversas, sejam das longas ou das de “olá e adeus”, prometem/ameaçam: “temos de nos encontrar” ou “temos de ir lanchar” ou outra similar afirmação, por vezes encimada de ponto exclamativo e sempre ameaçando acontecer na semana seguinte – nunca na semana em causa – promessa, naturalmente, a esquecer ainda durante aquela semana. Além de ser uma coisa irritante, em qualquer circunstância, sempre que tal me acontece tem o dom de me magoar, de me espetar uma faca no peito e fazer pensar “onde é que eu tinha a cabeça para ligar a este animal?”, fazendo-me depois, nos dias em que tenho tempo para dar largas ao pensamento, ir mais longe e chegar a questões do tipo “mas eu sou amiga desta pessoa? Ou melhor, esta pessoa é minha amiga?” – nítidos erros de casting os “amigos” que acham que quando lhes ligamos, ao invés do colo e ternura que se encontra na voz dos que amamos a contar as fresquíssimas novidades dos 3 meses em que não falamos, preferimos uma promessa tonta de um encontro que nunca existirá para pôr em dia a tal conversa decerto agora com 3 anos de atraso. A brincar, a brincar, ficam reduzidos a dois telefonemas por ano, nos aniversários e no Natal… talvez no Natal uma sms, daquelas assim originais – votos de um Natal feliz para si e para os que mais ama.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Crónica de Segunda -11 de Setembro... de 2002










Sei exactamente onde estava no 11 de Setembro de 2002, um ano depois do fatídico atentado às torres gémeas. Veio-me esta memória, não devido à comemoração dos 10 anos do mesmo atentado mas após visionar o DVD de um concerto ao vivo de Sting em Berlim e de ter sentido uma irreprimível vontade de lá voltar e de lá ter estado, no concerto.
Era em Berlim que estava no 11 de Setembro de 2002, sentada no lindíssimo Café Einstein em plena Unter den Linden, de volta de um appfelestrudel, mesmo ao ladinho da Embaixada dos Estado Unidos, pormenor que só havia de descobrir quando saí da confeitaria. Provavelmente o sítio menos aconselhável para se estar em Berlim um ano depois do atentado. Porém o que me fez tornar a Berlim e o conduziu para dentro da crónica é a memória que me ficou do lugar. Lembro-me de ter partido para Berlim com vontade de fugir de mim e talvez assim me reencontrar. Tal veio a acontecer. Antes de partir liguei a um amigo que sabia ter lá estado antes do muro ser abatido e pedi-lhe “diz-me o que devo ver em Berlim”, tempo perdido, embrulhado nos difíceis nomes alemães língua que nenhum dos dois dominava fiquei-me apenas com um nome na memória por me ser fácil recordar – Alexander Platz, e estive lá, junto à enorme torre da TV e em Potsdamer Platz e numa quantidade de outros lugares impronunciáveis.
Recordo chegar a Berlim e comer salsichas numa esplanada, e passear de barco do Spree, recordo o metro de Berlim S-Banh de superfície e U-Banh enterrado, como o do Porto. Chegando a Berlim impressionou-me o traço no chão marcando o lugar onde antes estivera o muro e mais do que o Checkpoint Charlie quis visitar a Eastside galery onde permanece uma parte do muro. Há uma memória longa de guerra, uma cor pardacenta espalhada por parte da cidade. Lembro ainda aquilo que mais me marcou em Berlim, o monumento aos mortos de todas as guerras – uma mãe, Pietá ao centro de uma abóbada aberta ao exterior, onde chove, neva e entra o sol, conforme os humores meteorológicos, em volta a escuridão, e flores que pais e mães deixam em memória dos seus que partiram, um lugar lúgubre e húmido, por mim não irei esquecer.
Há depois um senhor alemão (2011) comissário para a Energia, um tal Oettinger, que acha que os países europeus com excesso de défice deveriam ver as suas bandeiras colocadas a meia haste nos edifícios comunitários! Berlim é uma cidade a meia haste, a Igreja da Memória semi-destruida pelos bombardeamentos, nunca recuperada, para nos recordar a nossa fragilidade e aquilo que não se deve repetir nunca mais. Espero que o Sr Oettinger passe por Berlim um destes dias.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Crónica de Segunda - Uma crónica de primeira!

A crónica de segunda de hoje é de primeira. Primeira qualidade, não da crónica, enfermando da autora do costume e por isso acomodada à segunda-feira e com ela apelidada de segunda, mas pelo tema que hoje a preenche que é gente de primeira.
Ainda ontem me desgastava tentando vislumbrar uma luz que me levasse a escrever sobre outro tema que não fosse a crise que nos é imposta – isto era um trocadilho – as inconsistências do primeiro ministro do antes e depois das eleições, os desmandos, disparates e dislates do “buraco negro” da Madeira ou pior ainda sobre as minhas próprias inconsistências proto-filosóficas sobre o mundo em geral e o meu pequeno reduto em particular.
Devo então ao Google a ideia para esta crónica já que ao abri-lo deparei com uma bonita homenagem a Freddie Mercury que faria hoje, nesta segunda, 65 anos. Veio a calhar o Google e Farookh Bulsara (nome real do zanzibariano Freddie) por me trazer inteiro um dos belos exemplares de um homem feito de música.
No mundo da música há entre os músicos os executantes, os iniciados, os talentosos, os que não têm talento nenhum, os encostados, os esforçados e há também uma “raça” à parte de gente de primeira, gente única, rara e genial, são os homens feitos de música – Freddie Mercury era um deles. Os homens feitos de música respiram música, transpiram música, são música eles próprios, como algo de intangível mas que se sente, como uma luz que transportem, algo mais alto. A música não é para eles profissão senão de fé, não é uma obrigação mas uma imperiosidade, são eles próprios uma espécie de poema itinerante.
Os homens feitos de música conhecem-se no palco, pela aura que emitem, pelos gestos que enfeitiçam o público e o fazem render em moles imensas vergadas à sua magia, transportando-o ao sonho.
Freddie tinha tudo isto de sobra, viveu a vida das rock stars sem conhecer, dizia-o ele, a constância afectiva, talvez compensasse essa ausência em música. Morreu-nos com apenas 45 anos, com a dignidade possível a uma rock star vítima de SIDA, serenamente na sua casa, 24 horas depois de tornar pública a doença, imediatamente antes dos abutres mediáticos terem oportunidade de lhe abocanharem o corpo. E ele tinha tanta, morreu com tanta… música no corpo.
God bless you Freddie, wherever you may be.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Crónica de Segunda - Silêncio. Ou o princípio de todas as coisas.

Há uns bons pares de anos, encontrava-me num café-galeria na companhia de um amigo e do seu filho de sete anos. Enquanto nos perdíamos numa conversa de adultos o miúdo, no colo do pai, olhava atentamente os quadros expostos em redor. No final questionou “Pai, porque é que todos os quadros têm branco?”. O Pai explicou-lhe que era no branco, na ausência de cor, que todas as cores e ideias nasciam, criando o resto do quadro, daí que o branco fosse o elemento comum a todos os quadros – cuja autoria não me recordo mas lembro bem que eram bastante vivos e coloridos.
Pouco mais velha do que o filho do meu amigo àquela época, aprendi em aulas básicas de música que, não só havia lugar a silêncio como, para melhor o marcar, existia mesmo um símbolo para o representar na pauta – a pausa, tal qual como os símbolos das diferentes notas musicais. Fiquei com o conhecimento mas creio que, à época, não cheguei a compreender o porquê de assim denunciar na pauta que era tempo de não-som, de silêncio, sabendo que naquele tempo eu confundia ausência de som com ausência de música. Faltou-me, certamente, o meu amigo a explicar-me paciente e paternalmente que, tal como o branco e a ausência de cor, o silêncio era a base onde nascia o restante som, tanto a música como o ruído.
Agora, já muito adulta, o que não daria para que, no colo do meu Pai, ele me explicasse o tanto por saber sobre o silêncio. Quiçá mesmo esse meu amigo, se aqui estivesse comigo, me fosse capaz de explicar de onde partimos quando vamos pelo silêncio.
Do silêncio, como de um vazio, nascem todas as coisas, todas as músicas, todas as palavras mas, por ser silêncio, é também ausência e, ainda que belo, diria mesmo belíssimo, é, ao mesmo tempo, um mistério, pronto a tornar-se angústia. A angústia de desconhecer se o silêncio do outro quer dizer “Amo-te” ou apenas “não quero falar contigo”, se quer dizer “sei que me entendes” ou “não tenho nada para te dizer”. A pueril pergunta (a evitar, Santo Deus!) de amantes em início de carreira depois de se entregarem “Foi tão bom para ti como foi para mim?”, deveria ser obrigatoriamente substituída por o “O teu silêncio é igual ao meu?”.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Crónica de Segunda - O Amor intermitente

“Não posso adiar o amor para outro século/Não posso […] Não posso adiar o coração” Ramos Rosa

Devo desde já adiantar, em jeito de nota prévia, que me irritam sobremaneira as pieguices, as estórias de amor para sempre enquanto dura, as paixões e trovas de amor eterno ao primeiro olhar e o conceito abstracto da felicidade. Esta última é de todas as pieguices do foro sentimental a que mais me incomoda. A forma como as pessoas se lançam na sua busca e pior, muito pior, a forma como dizem de boca cheia que a encontraram parece-me um mistério filosófico mais complexo de acreditar do que no mistério de Roswell, no abominável homem das neves ou mesmo no Pai Natal. Vai daí, registe-se, não acredito na felicidade, nem na sua existência e menos ainda na sua persistência.
Acredito porém no Amor, assim mesmo com maiúscula, como motor de todas as coisas e única razão para nos fazer persistir. Que não haja lugar a confusões, o Amor a que me refiro não é nem desejo, nem sexo, nem estórias cor-de-rosa com luas cheias e nenúfares a vogar em amenos lagos, o Amor de que falo é apenas isso mesmo – Amor. Amor só, Amor nu, Amor cru, Amor despido de enfeites, de eufemismos, Amor como aquele de que fala Ramos Rosa, o que não se pode adiar, Amor que dói, que fere por dentro, que rasga a pele, que inquieta e pacifica, Amor que não se atrasa e não se deixa para uma hora melhor porque Amar é igual a Estar. O Amor é o contrário da ausência, porque Amar é Estar sempre.
Não consigo conceber o amor intermitente que alguns dizem cultivar, o amor com hora marcada, amor em contenção, o amor nos intervalos das outras coisas mais importantes que esse “amor”, o amor quando dá jeito ou de quando nos lembramos ou de quando nos falta outro divertimento, amor dos dias pares, o amor se não chover, enfim, amor gizado à imagem de quem assim o fabrica, embiocado no umbigo do amador, amor sem aquilo que caracteriza o Amor – o despojamento. Esse tal de amor é da mesma família da felicidade em que não acredito, conceito bonito de evocar, muito apreciado nos filmes e na literatura, com tanto de realidade como o King Kong ou um elefante azul.
Amar é dar, dar, dar. O que se recebe, quando se recebe, vem por acréscimo.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Crónica de Segunda - Efemérides



A crónica de segunda de hoje é uma crónica de feriado, de dia santo, dia repetente de calendário em calendário, até que algum governante possuído pela febre produtiva do povo, a quem suga intempestivamente os impostos, resolver determinar outro dia para a sua comemoração ou o eliminar de todo.

Assim me pus a pensar sobre a ideia de efeméride, nome apelativo e elucidativo sobre as coisas que comemoramos na vida, tudo tão efémero como a palavra efeméride nos faz lembrar; talvez por isso alguns se iludam e digam não as comemorar certamente para fugirem a ter de pensar quão curta é esta nossa (e a dos outros ) passagem. As efemérides, as datas que se repetem e comemoram, as que não esquecemos nas brumas da memória são, na verdade, um frete da existência, tornando a percepção que temos da vida mais cinzenta e cheia de finitude.

Dá-se o caso de recentemente ter ocorrido comigo uma daquelas de número redondo , comemorável, que num repente me trouxe de enxurro peça a peça os elementos de uma velha história (tão velha quanto a efeméride em causa e a ela fortemente ligada) com que fui compondo de memória um puzzle. Como quem limpa o pó e teias de aranha a uma velha fotografia esquecida no sótão da casa e percebe que perdeu a nitidez e a cor mas não perdeu nada em capacidade de nos fazer vibrar a corda da ausência e da saudade.

terça-feira, agosto 09, 2011

Crónica de Segunda - Melancrónica

Não sei se é de ser Agosto, suposta silly-season, se é deste Verão envergonhado em que dias há que parece quase Outono ou se é de mim, mas esta crónica é melancólica, é uma melancrónica portanto.
Há alturas em que uma sucessão de pequenas coisas se juntam numa grande lembrança, memórias de um tempo passado que nos arrastam pesados para a melancolia. Um reencontro com uma colega de trabalho que não víamos há uma eternidade a refazer, num repente, uma época e um local que já não existem, pequenas estórias com personagens comuns de quem nos fomos afastando; o tornar a um lugar que já só existe como uma sombra de passado mas que traz imagens e odores que nos são tão familiares; o tornar a um livro lido há tantos anos que nos faz lembrar das suas primeiras leituras e um conjunto de afectos tão velhos como ele próprio a desfazer-se em lembranças, poema a poema, frase a frase, de um tempo que já não é. E de repente começamos a refazer uma velha história de gente e lugares que parecem agora fora do sítio, um chorrilho de recordações, algumas dispersas e ténues, outras mais firmes e precisas como se não tivesse passado tempo algum, tudo junto completando um puzzle em tons desmaiados, peça a peça nas pontas dos dedos a refazer a fotografia a sépia.
Podemos nós fazer caminho e libertarmo-nos daqueles que antes foram tão próximos, tão íntimos, tão dentro do coração? Ou ficarão as memórias perenemente n um nicho escondido à espera da melhor oportunidade para nos importunarem e trazer-nos de volta a um Verão passado, tão passado que é já Outono e começamos, de olhar triste a ver as folhas caírem da nossa árvore privada, uma a uma, lentamente, devagar, como um Outono deve ser.

terça-feira, agosto 02, 2011

A metáfora (uma reposição)



Gosto de abrir a janela pelo fim da tarde dos dias de Maio. Abro-a e fico a ver entrar o calor no seu primitivo vigor primaveril junto com alguns farrapos de nuvens. Da janela vejo os pássaros e às vezes apetecia-me que me entrasse um deles pela casa. Raramente acontece e quando acontece é um aborrecimento, ter de andar a enxotá-lo e ele a esvoaçar assustado por toda a casa, depois limpar os excrementos que ele desastradamente espalhou sobre a mobília – o bicho não tem culpa, é um pássaro, não é uma metáfora de pássaro. Olho de novo a janela e reformulo: “Às vezes queria que me entrasse uma metáfora pela janela”

segunda-feira, julho 25, 2011

Crónica de Segunda - O saxofone da minha memória

Ofereceram-me um marcador de páginas em forma de saxofone. Agora entremeado no livro que leio pausei a pensar sobre ele. Não bem ele mas sobre saxofones e a minha relação idílica com eles, com o seu som, com a poética do jazz em geral. Sempre hei-de associar a minha ideia de jazz a uma imagem que julgo roubada a um filme qualquer, que não saberia identificar, mas que me há-de ter ficado gravada bem fundo a ponto de não me esquecer dela. Há a imagem da silhueta de um saxofonista numa janela em Nova Iorque quando a câmara se afasta lentamente filmando os neons de Times Square fechando o plano.
Na minha pré-adolescência, por alturas do Verão, no tempo em que o Verão eram noites quentes de se abafar à noite em casa, a televisão passava o festival de jazz do Hot Club, coisa que eu vagamente desprezava, achava valentíssima seca e trocava de muito bom grado por uma passeata pela cidade, de carro ou pé, assim a família me levasse. Pelos meus quinze anos tive o primeiro grande impacto de encontro ao jazz, embeiçada por um rapaz uns três anos mais velho (adultíssimo do alto dos seus 18) ouvi-o dizer que gostava de jazz – “Ah, jazz não gosto” – disse eu – “Tu não gostas de jazz?” – perguntou ele incrédulo, perdi portanto a minha grande oportunidade de estar calada – “Não gosto de jazz mas gosto de Rui Veloso, serve?” – pensei, e não pensei muito mais sobre isso. É claro que a nossa história não foi a lado nenhum (nem tenho pena) mas o jazz lá foi entrando em mim de mansinho, junto com a maturidade, achava eu nalguma altura, que hoje sobre maturidade não acho nada e sobre jazz apenas sei o que sinto quando o ouço, não me peçam teorias, nem nomes sonantes, nem coisa nenhuma mais para além de sentir.
Entra aí em cheio e em força o saxofone, instrumento pelo qual sempre nutri afeição, é sensual, é doce e agressivo ao mesmo tempo, é especial. Vai daí olhava eu o meu saxofone dourado na palma da mão e pensava num episódio passado há uns bons dez anos. Conheci de forma algo fortuita, um saxofonista que muito apreciava, e ainda aprecio, foi uma coisa casual e da qual eu não estava à espera e o que melhor me lembro foi de me ter levantado da cadeira onde estava sentada quando ele entrou na sala e sentir-me quase impelida a fazer-lhe uma vénia, que não fiz. Chegamos a conversar sobre alguma banalidade por alguns minutos, percebi, como é normal, que ele, como todos os artistas com quem temos a infelicidade de quebrar a barreira que separa o público dos que estão no palco, é uma pessoa banal, com pele, carne, sangue a pulsar nas veias e que certamente, embora a nossa curta conversa não chegasse a nada disso, ama, deseja, chora e ri como qualquer mortal, como o nosso vizinho da frente.
Na verdade aquilo em que eu pensava era um solo longo, longo, longo, interminável deixando-me quase em apneia como se o solo fosse meu, eu já de pé, eu sem respirar para não ferir a música e ele continuava, agora deitado em decúbito dorsal sobre o palco, continuava, continuava, como se não fosse terminar nunca, agora era arrastado pelos pés e continuava, continuava, era em tudo isto que eu pensava quando o conheci. Há algum tempo “amiguei-o” no facebook, juntei-o à longa galeria de desconhecidos bonitos de colar na lapela. De qualquer forma a única coisa que me interessa é aquele solo longo, longo, até me ferir por dentro, interminável e ao olhar o meu saxofone metálico de marcar páginas marco aquele longuíssimo solo, a arrastar-se pelo chão, até culminar num também interminável aplauso, a apoteose de um público embriagado em música.

segunda-feira, julho 11, 2011

Crónica de Segunda - "Fugas"

As crónicas de segunda, decerto repararam, têm estado adormecidas, não de férias como se poderia pensar atendendo à época estival, mas adormecidas, e a razão está bem à vista. É que também eu tenho estado adormecida, os olhos baços não observam o redor como soíam, diriam os antigos.
Precisava, talvez, de outros olhos, outros para achar o assunto das crónicas, outros para ver o mundo e perceber nele mais do que apenas um cinzento fosco de angustias alheias.
Regresso ao Zé Gomes Ferreira que queria chorar com lágrimas verdadeiras e não as lágrimas intrujonas dos poetas e sentir com dor de verdade e não com a dor fingida do fingidor Pessoano. Mas não, tal como o Zé Gomes, todos os dias visto o fato que me deram (que eu procurei) e mancho-me da dor dos outros para não me sentir. Confortável a miséria humana que nos permite sempre vir ao de cima acenando a felicidade de aquela dor não ser a nossa, tal como a nossa não é a dor daqueles a quem choramos no ombro.
Circular cadeia de afectos e fugas, porque como diz o povo “prá frente é que é o caminho”.

quinta-feira, julho 07, 2011

Quarto Crescente

Poema que eu fiz com "dedicatória" mas que tive de emendar por ter um erro. E há coisas que temos mesmo de emendar nos poemas quando estão erradas desde o ínicio. Como uma fase de lua, por exemplo!



Conhecer-te assim em quarto,
crescente,
sem luz de lua a iluminar certezas
mas de alma limpa e nua
a alargar estreitezas

Conhecer-te assim em dívida,
da dúvida,
sem tratados morais de límpidas certezas
mas com os olhos líquidos
a lavar impurezas

Conhecer-te assim em quarto,
crescente.


Quando novamente vier
redonda a lua,
e nos beijar com o seu clarão de luz,
que importará se ela nos vê do céu,

já serei tua,
já serás meu.



quarta-feira, julho 06, 2011

Dias e noites



Nos dias, como nas noites,
nada agora nos embriaga
nem adormece,
nada nos deixa na noite
acordados,
como morcegos atentos
à madrugada.

Nos dias, como nas noites,
somos já perdidos
de todo o interesse,
nada nos é próximo ou
distante,
nada nos conduz
nem nos faz perder.

Somos só vento e poeira
à espera do momento de desaparecer.

domingo, julho 03, 2011

Mini-Entrevista - PnetLiteratura

Link para a mini-entrevista publicada no PnetLiteratura: Clicke Aqui

segunda-feira, maio 30, 2011

Feira do Livro do Porto

Percorrer a Feira do Livro do Porto, que está na Avenida dos Aliados até dia 12 de Junho, permite percorrer toda a minha Obra Literária.




Querem ver? Comecemos lá por cima, quem desce da Câmara Municipal, tem logo ali uma tenda, o Espaço dos Pequenos Editores. Se lá entrarem, caminhem até ao fundo e lá está o "A urgência das palavras" (Edições Ecopy, 2008) que, com a vossa ajuda e de alguns possíveis cumplices irei revisitar na 2ª feira, dia 6 de Junho, pelas 21H00 no Auditório da mesma feira (lá no fundinho da Avenida, já a chegar ao futuro hotel de muita estrela que está a ser ultimado nas Cardosas.

Mais lá para o centro da feira, quem vai descendo a Avenida, está o Stand A24 - Corpos Editora, lá se encontra o "Circulação Transversa" (2005) - Esgotado nas restantes livrarias de 2010.




Já bem pertinho do fim da feira, junto ao Auditório, está o Stand A02 do Clube Literário do Porto onde mora o mais recente "Luz Vertical" (Edita-me Editora), capa e ilustrações pelo artista Miguel Ministro e prefácio do músico Pedro Abrunhosa.
Já agora o aviso: eu e outros autores da Edita-Me estaremos logo ali abaixo, no Auditório, pelas 20H de dia 10 de Junho a discutir com que rima a poesia- será com Economia? Ajudem à discussão, se faz favor, aproveitem agora que é crise.



E pronto, por se terem portado tão bem, terem feito esta visita virtual comigo, terem clickado nos links todos (e prometido interiormente que irão passar por lá nas noites de 6 de 10 de Junho) também vos ofereço - grátis - o meu primeríssimo livro --> Aqui--> "Sombras de Noite" (Elefante Editores, 2004)

































Crónica de Segunda - "Amor e uma parelha de cornos!"

As crónicas de segunda têm estado arredias, não porque não haja assunto para elas – uma crónica faz-se de qualquer coisa nem que seja dela própria e, mais não houvesse a comentar, haveria sempre a animada campanha eleitoral onde cinco partidos e mais alguns se digladiam num concurso aparentemente para achar aquele que entre eles melhor se desdiz, preferencialmente no mesmo dia a horas diferentes. Mas esse assunto, devo dizê-lo, já me cansa de tão repetitivo e, o que me andava a faltar para avançar nas crónicas era, sim, um título chamativo, um que valesse a pena, um assim como o desta crónica.
O título provém de uma estória passada há já alguns anos. Certa tarde preparava-me eu para assistir a uma conferência com um conhecido autor quando encontrei um amigo de longa data. O meu amigo, homem inteligentíssimo, mas que por razões económicas cedo foi trabalhar, tendo fraca instrução escolar, não era grande literato e era a mais improvável das companhias que eu esperava para a tal conferência, porém, já que se encontrava de férias e sendo naturalmente curioso perguntou-me se me importaria que me acompanhasse e eu, obviamente, não me importei. Acho até que interiormente me divertia a ideia de irmos os dois, com visões decerto diferentes, ouvir a mesma conferência, que versaria sobre livros que o meu amigo nunca lera.
O autor em causa deu uma soberba “aula” sobre a sua escrita e sobre os temas que o inquietavam e sobre os quais escrevia como espelho dessa inquietação. Na base estava o amor com A maiúsculo, sobre ele falou longamente e sobre tudo o que dele sobejava, o enamoramento, a ausência, o estremecimento, a dor, o desejo, a perda, a angústia e a morte. Tudo, explicava ele, gradações do amor, sua génese e consequência.
Saímos de lá encantados eu e o meu amigo que, via-se bem e ele o dizia, estava feliz, era para ele uma experiencia inovadora e que aprendera imenso, dizia ele. O meu amigo comportava-se sempre como uma alma ávida de novas aprendizagens, absorvia facilmente novos conhecimentos e a sua inteligência um pouco rural mas vivíssima rapidamente traduzia os conceitos mais complicados, as sintaxes mais esdrúxulas, em frases cuja clareza ficava à vista de qualquer um, tanto fosse pela crueza com que expunha algumas ideias. Na saída da conferência encontramos um amigo comum que, sabendo de onde vínhamos, nos questionou “Então de que falou o homem?” ao que o meu amigo prontamente respondeu, com um sorriso aberto “Falou do amor e de uma parelha de cornos!”
Fiquei extática, a genialidade vem assim nas mais simples frases, duas horas a ouvir metonímias que se resumiam assim mesmo a “uma parelha de cornos!” Gosto de ideias sucintas e objectivas.

segunda-feira, abril 18, 2011

Crónica de Segunda - "Gostar de ti – uma questão de orgulho"

Gostar de ti não é coisa de que me orgulhe particularmente. Não que não me orgulhe de ti, o que é uma coisa totalmente diferente, mas esse orgulho que sinto vem de ti, daquilo que és, do que representas, da forma como te afirmas é, ao fim e ao cabo, o orgulho de tudo aquilo que me faz gostar de ti, porém não é o acto de gostar de ti que me orgulha. De resto de ti orgulho-me muito, chego a orgulhar-me até da proximidade de ti, da tua amizade, das coisas que juntos chegamos a partilhar, mas não me orgulho do amor tamanho que te tenho. O amor, o gostar-se de alguma coisa ou de alguém, apesar de ser o grande motor de tudo e o mais belo de todos os sentimentos, não é razão de orgulho. Nasce espontâneo, não é planeado, não dá trabalho ao nascer, não exige esforço, não é sequer pensado e apenas resulta num imenso sofrimento, a imensa dor dos que amam. O amor vive condenado a ser expiado em angústia, a angústia da perda, a angústia de não ter, a angústia de não ser, a angústia da ausência e do esquecimento e finalmente a angústia da morte. São tantas as dores que acompanham o amor que ninguém pode orgulhar-se de o sentir, ainda que lhe dê gozo, ainda que nos intervalos da dor seja prazer.

É, enfim, por tudo isto que não me orgulho particularmente de gostar assim de ti. Mas gosto.

segunda-feira, abril 11, 2011

Crónica de Segunda - Os contorcionistas

A política portuguesa parece estar num histórico momento de absurdo e contorcionismo, ganha quem mais se torce e retorce, quem melhor diz uma coisa e o seu contrário e preferencialmente num tão curto espaço de tempo que chegue a confundir os portugueses, seus presumíveis eleitores, que ou andam de olho no Facebook e nos media de hora a hora ou nem chegam a conhecer metade das asserções dos putativos candidatos. O contorcionismo, as incongruências e o constante desdizer estende-se por todo o espectro político desde a direita à esquerda. Dir-me-ão que nada disso é novo e que a mentira e a flexibilidade a tender para o excesso sempre fez parte da política e que sem elas todo o político vive mal. Até poderei concordar mas nunca em tão pouco tempo e a cruzar todos os quadrantes políticos vi tanta mentira ser atirada aos olhos do povo sem ser seguida, pelo menos, de um período refractário para deixar assimilar e esquecer cada uma dessas não-verdades ou promessas a não cumprir.


Depois dos sucessivos PECs que seriam sempre os derradeiros, ao “não governo com o FMI”, “vamos chamar o FMI” até ao “este PEC foi longe demais”, “este PEC não foi suficientemente longe”, ao vamos subir o IVA, se calhar não vamos subir o IVA, enfim, os exemplos são tantos que são inenarráveis. Eis-nos então premiados com último grito na febre louca dos opostos: Fernando Nobre que nas presidenciais vimos vestido de espécie de cavaleiro andante dos pobres e desvalidos, asseverando ser o candidato vindo do além, que é como quem diz, de fora dos partidos, chamando-se “da cidadania” como se todas as restantes candidaturas o não fossem, apelando ao voto dos descontentes com os partido, professando ideias aparentemente de esquerda moderada e que, mais difícil ainda, há cerca de um mês dizia redondamente, de viva voz que não obstante o namoro aparente de vários partidos nunca se uniria a um deles, após pirueta e salto mortal, é agora cabeça de lista pelo neoliberal PSD de Passos Coelho, a troco de um cargo digno da sua vaidade – a presidência da Assembleia da República. Este cargo, habitualmente atribuído a alguém mais velho e com larga experiência na mesma Assembleia, está agora prometido a este virginal candidato que não podendo ser supra partidário se contentará com ser supra-deputados. Imaginação e muita lata parecem ser os predicados para se fazer política neste país, visto desta forma tenhamos esperança, inventivos como somos temos futuro garantido!

segunda-feira, abril 04, 2011

quarta-feira, março 23, 2011

Crónicas, croniquetas e cronicões

Crónica de Segunda: "Amigos Pessoais"

ou "...às vezes lembro-me de ti."

segunda-feira, março 07, 2011

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

domingo, fevereiro 27, 2011

A crise do crude

Fairwell my sweet lamborghini. It was cool to have you in my life...


terça-feira, fevereiro 22, 2011

Se me perguntas



Se me perguntas sobre o mundo
dir-te-ei das ruas,
de todos os lugares onde passei,
da cor das árvores,
de todos os cheiros da cidade,
dos lugares perdidos onde amei,
do odor dos frutos que provei.

Mas pergunta-me antes
das dores no peito,
do aperto desusado e imperfeito,
do lugar vazio que deixaste no meu corpo,
do abraço incumprido,

do meu coração desfeito.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Recensão - JN (10/01/2011)


terça-feira, janeiro 04, 2011

Recuperações - Jardim de São Lázaro

Ainda em matéria de recuperações de blogs anteriores, encontrei este espécime, proveniente de um conjunto de poemasfeitos na cidade. Movimentos respiratórios de um outro tempo.




Não é um grande poema mas é um poema grande. O Jardim de Marques Oliveira, conhecido pelos portuenses como "Jardim de São Lazaro" é uma memória grata das tardes da minha infância feliz, onde a felicidade era uma cestinha de lanche, sol e o coreto... Tudo é tão mais fácil quando somos menos ambiciosos e quando o amor é só tudo o que temos...

Agora o "Jardim de São Lázaro" é assim...
Jardim de São Lázaro

O pólen,
as flores,
as estátuas,
os bancos,
os velhos,
o coreto,
as putas!

As mais doces e
indeléveis memórias
de infância,
coroas de folhas
como mantos de memórias inauditas.
Voam-me os pássaros
por sobre a caveira,
como se eu morresse ali
como a água primeira
das fontes que não há.

São estas memórias
que me lambem as feridas
e me fazem sentir ontem
no dia que hoje foi.

E se eu bramir ao vento
alguém me virá ouvir?
Decerto não, melhor é nem tentar,
mais vale desistir.