segunda-feira, agosto 22, 2011

Crónica de Segunda - O Amor intermitente

“Não posso adiar o amor para outro século/Não posso […] Não posso adiar o coração” Ramos Rosa

Devo desde já adiantar, em jeito de nota prévia, que me irritam sobremaneira as pieguices, as estórias de amor para sempre enquanto dura, as paixões e trovas de amor eterno ao primeiro olhar e o conceito abstracto da felicidade. Esta última é de todas as pieguices do foro sentimental a que mais me incomoda. A forma como as pessoas se lançam na sua busca e pior, muito pior, a forma como dizem de boca cheia que a encontraram parece-me um mistério filosófico mais complexo de acreditar do que no mistério de Roswell, no abominável homem das neves ou mesmo no Pai Natal. Vai daí, registe-se, não acredito na felicidade, nem na sua existência e menos ainda na sua persistência.
Acredito porém no Amor, assim mesmo com maiúscula, como motor de todas as coisas e única razão para nos fazer persistir. Que não haja lugar a confusões, o Amor a que me refiro não é nem desejo, nem sexo, nem estórias cor-de-rosa com luas cheias e nenúfares a vogar em amenos lagos, o Amor de que falo é apenas isso mesmo – Amor. Amor só, Amor nu, Amor cru, Amor despido de enfeites, de eufemismos, Amor como aquele de que fala Ramos Rosa, o que não se pode adiar, Amor que dói, que fere por dentro, que rasga a pele, que inquieta e pacifica, Amor que não se atrasa e não se deixa para uma hora melhor porque Amar é igual a Estar. O Amor é o contrário da ausência, porque Amar é Estar sempre.
Não consigo conceber o amor intermitente que alguns dizem cultivar, o amor com hora marcada, amor em contenção, o amor nos intervalos das outras coisas mais importantes que esse “amor”, o amor quando dá jeito ou de quando nos lembramos ou de quando nos falta outro divertimento, amor dos dias pares, o amor se não chover, enfim, amor gizado à imagem de quem assim o fabrica, embiocado no umbigo do amador, amor sem aquilo que caracteriza o Amor – o despojamento. Esse tal de amor é da mesma família da felicidade em que não acredito, conceito bonito de evocar, muito apreciado nos filmes e na literatura, com tanto de realidade como o King Kong ou um elefante azul.
Amar é dar, dar, dar. O que se recebe, quando se recebe, vem por acréscimo.

5 comentários:

NuNosferatu disse...

Gostei... com G grande.

Folha|em|Branco disse...

E será que esse Amor, querida Amiga, em que acreditas e eu também - existe?

AM disse...

Obrigada Nuno, um beijo :)

Folha|em|Branco - se essa dúvida te assalta porque usaste maiúscula na palavra Amiga? ;)

Folha|em|Branco disse...

Apanhaste-me. Já fui. Tens razão. A minha relação contigo é a prova de que esse Amor de que falas existe, de facto. :)

Beijo imenso.

Ella disse...

O Amor é um lugar estranho ! Gosto :)