segunda-feira, maio 05, 2014

Crónica de Segunda - A devida homenagem



O homem não gosta de efemérides e diz lembrar-se com dificuldade de datas aniversárias. Mas, que diabo, vinte anos são vinte anos, conta redonda que só se faz uma vez e há homenagens que devem ser prestadas e uma data assim redonda é pretexto tão bom como qualquer outro para celebrar o que merece a pena ser celebrado.

Falo-vos de Pedro Abrunhosa enquanto figura pública que é o mesmo que dizer enquanto músico na ribalta. Antes de 94 já este tinha comido muito pó de estrada, pisado muito palco improvisado, carregado abnegadamente com um instrumento de dimensões que não lembram ao diabo, estudado, escrito, experimentado muita coisa na música mas tudo isso ainda longe dos focos. Foi no ano de 94, apresentando o seu longamente suado “Viagens”, que se torna, rapidamente e com todo o mérito, figura de proa, não mais abandonando um lugar na história da música nacional, pelo contrário, tendo conseguido crescer cada vez mais, ultrapassando com garbo os anticorpos que sempre se criam logo após um artista se alçar ao estrelato e sedimentando por completo o lugar que é seu.

Muitos o criticaram como sendo um epifenómeno de curta duração, outros o apodaram de golpe de marketing – Qual golpe? Qual marketing? – mas, como quem ouvisse com atenção, logo em 94 a obra e o artista, percebia, Abrunhosa é uma construção sólida e genuína, nada devendo ao marketing senão o bom uso que dele soube fazer com sageza e inteligência a que não estávamos habituados em músicos, gerindo com mão de aço a carreira, nada deixando ao acaso.

Um músico intelectual ainda hoje, embora um pouco menos, nos assombra como uma improbabilidade. Abrunhosa provou ser isso e muito mais, ultrapassando o plano de discussão da música e arte para a política externa e interna, a história e a filosofia, era comum ouvi-lo corrigir a sintaxe de imberbes “entrevistadores” à nora com o convidado. Ultrapassou o plano mediático da imprensa especializada em música – sabe-se lá o que é isso – e o domínio das revistas cor-de-rosa ou dos posteres de embevecer adolescentes para as parangonas dos semanários de referência. E nada mais foi como dantes!

O genial músico sabe rodear-se dos melhores que escolhe e vai fazendo substituir conforme as suas necessidades de evolução criativa. Inicialmente acompanhado pelos Bandemónio - que conheceram 4 formações – quase tantas como discos de originais à época, marcos geodésicos do seu percurso e, no seu seguimento, agora acompanhado pelos Comité Caviar, evoluindo sempre, avançando, avançando. Ouvidos atentos à música que se faz e que se fez, antenas alerta ao que se passa no mundo. Amante de História e de Arqueologia sabe, melhor do que ninguém, encontrar o seu/nosso lugar na linha espácio-temporal e, talvez por isso, a sua inegável e constante actualidade.

Diz que foi no 1º de Maio que apresentou “Viagens” ao mundo, acredito, não estive lá, mas pouco mais tardei a dar com ele e sei que são já vinte anos de Abrunhosa sempre comigo, no mais íntimo de mim que é onde se tocam as cordas da emoção, do silêncio, da comunhão com o sagrado que, no meu caso, vem com música e poesia por dentro.

Daí ser devida esta homenagem. Obrigada Pedro, obrigada Bandemónio, obrigada Comité Caviar.

Há vinte anos, em data incerta, desde a primeira vez, não voltei igual, como não voltei igual tantas outras vezes depois, e depois, e depois e ainda agora continuo a não voltar igual, volto diferente e volto melhor e confio que assim havemos de continuar. Bem hajam por isso, tudo tão natural e simples “como quem gosta do Sábado”, portanto… “enquanto não há amanhã, ilumina-me, ilumina-me.”

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