segunda-feira, outubro 21, 2013

Crónica de Segunda - De zero a zero.

Viagem mais ou menos literária entre Paulo Abrunhosa e Manuel Jorge Marmelo.  Ou de como a realidade vastas vezes ultrapassa a literatura.

Uma pessoa quando encorna que tem de escrever uma crónica, e à segunda-feira ainda por cima; uma pessoa quando empreende que melhor do que o som é o silêncio que se faz antes e depois dele, que melhor do que escrever untando uma folha de rabiscações é a mesma folha branquinha antes de estragar; uma pessoa quando cisma que um tema tão bom como outro qualquer para a crónica é encher uma folhinha de bisguentas dissertações proto-filosóficas sobre o valor da literatura face à realidade ou vice-versa que é como quem diz o valor de um zero amarelo, redondo e feliz, face aos múltiplos de mil com que nos atiram para a miséria e o desemprego e nos esfregam na cara a fome e degradação de tantos em nome da asséptica economia de mercados só para alguns… em suma, uma pessoa lixa-se. E escreve uma crónica assim.

No ano de 2001 morria Paulo Abrunhosa, deixando de si, a título póstumo, o livro “Diário de um dromedário”. Entre um vasto conjunto de poemas, muitos dos quais epigramáticos, surgia um, de seu nome “Manifesto”, que rezava assim:

“Até no meu mais pequeno gesto

se torna manifesto

que tudo o que quero

é ser um zero!”

O poema por si só, parece-me de resoluta força, porém se isso não bastasse, o autor resolveu fazer-lhe uma extensa nota de rodapé explicando, a quem não tivesse compreendido, a inexpugnável importância do zero.  Único número inteiro não natural, inventado pelos Hindus, é deveras excepcional congregando em si a capacidade de se elidir, se somado a outro numeral ou de extinguir e absorver nele o outro aquando das multiplicações. Enfatizava ainda que “Não é positivo, nem negativo. É zero.”, fazendo referência ao conceito milenar do nada Taoista. O zero como  “o início de tudo”.  Lembrei-me muito destas palavras quando deparei com o título do recém editado livro de contos de Manuel Jorge Marmelo, mais ainda quando li, no conto que dá nome ao livro, que o protagonista do mesmo resolvera desaparecer do mundo, fugindo da civilização para uma remota ilha cabo Verdiana, passando a viver sob um cobertor esburacado de onde observava o mundo em redor, lendo, escrevendo, tentando silenciar a sua voz interior e aspirando, com todas as suas forças a transformar-se “num redondo e encantador zero à esquerda”. Este redondo e, particularmente, “encantador” zero à esquerda fez-me mergulhar na tal nota de rodapé de Paulo Abrunhosa e no seu “Manifesto” que acima citei.

E vinha esta pobre alma, saindo de uma apresentação do “Zero à esquerda” de que vos falo, ainda meia arrelampada a matutar sobre a profundidade do zero literário – onde me revejo feliz e encantadoramente redonda, como o outro, sem sequer precisar de me esconder sob nenhum esburacado cobertor – sou detentora da mais fina capa de invisibilidade que me é, aliás, muito útil na maioria das situações , permitindo-me ler, escrever e atentar sobre o mundo sem fazer muito barulho de maneiras que ele, o mundo, dificilmente dá pela minha presença ou perde muito tempo a pensar sobre ela.

Mas dizia, vinha eu a atentar no zero literário quando, já na rua, ao avançarmos na direcção do carro – eu mais a minha comitiva – somos abordados por um personagem – eu aposto em Thomas Pynchon (ah não conhecem? Leiam e aprendam que eu não duro sempre!) – que celerado (e não, não é erro) suspendeu a marcha de um Audi, repito: um Audi, saltou do seu interior e, em manifesto desespero, rente às lágrimas, nos pediu “um euro”, tal e qual, para poder prosseguir viagem até ao seu destino: Gondomar, disse.

E, após a necessária contribuição  para a “viagem”, no seu mais lato sentido, do nosso “amigo”, fiquei-me feliz por perceber como a realidade ultrapassa tão largamente a literatura, sobretudo no que toca a zeros tão neutros quanto absorventes.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Crónica de Segunda - O obituário do Poema


Hoje a crónica viu-se atravessada pela morte ou a ideia da morte. Enquanto buscava assunto nas comezinhas coisas que nos rodeiam a notícia da morte o poeta António Ramos Rosa fez-se, subitamente assunto. Desde logo pela tristeza que o desaparecimento de um poeta com a sua estatura, a sua profundidade deixa entre os que gostam de poesia e apreciavam o seu jogo de luz e sombras, o seu rigor na palavra, a sua pungência. Depois porque o vazio que deixa lembra o vazio que outros da sua geração e até mais novos têm deixado nos últimos anos. Começam a desaparecer os velhos poetas e vamos ficando um pouco mais órfãos, deixados sós, sem referências, um pouco à deriva, parece-me.

Quando se morre aos 88 e se está frágil e doente é-se mais compreensivo com a morte, sabemos que nalguma altura temos de partir e aos 88 parece menos mal que aos 50 ou aos 60 ou noutras idades ainda mais jovens, mas a um poeta não devia ser dado morrer. Leio num jornal que, já hospitalizado e muito frágil, ainda no dia da sua morte, Ramos Rosa foi capaz de escrever o nome da sua mulher e da sua filha e esta sussurrou-lhe ao ouvido  um seu poema “Estou vivo e escrevo sol” e foi ainda capaz de o escrever também. Esta descrição pareceu-me das coisas mais doces, das mais belas formas de despedida do mundo de um poeta. Lembrei-me de ler uma descrição que Manuel Alegre fez de Sophia quando também já ela muito doente e frágil era visitada por este que lhe lia poemas que ela acompanhava e, já bem no fim da vida, apenas murmurava o ritmo, não as palavras mas a sua música. Coisas que me deixam a pensar sobre o que pensarão os poetas quando se preparam para partir. Em que pensaria Eugénio acamado, às portas da morte ou o Pina já abatido pela dor e a medicação? Que poema traria ainda Urbano dentro de si? Camões, que poema o alumiaria na escura solidão rente à morte? E Pessoa, na náusea final?

Que poema acompanhará por dentro os poetas no seu fim, que indizíveis palavas escreverão dentro da pele sem poderem terminar o livro último, o último poema?

segunda-feira, setembro 16, 2013

Crónica de Segunda - Uma crónica de regressos

Reabro esta crónica de segunda, como habitualmente, à mesa do café de sempre, onde tento  encontrar o meu lugar.

Quando nos afastamos dos sítios de sempre, seja por força da actividade profissional ou por outro acaso qualquer, porque mudamos de terra, de horários ou apenas de hábitos, mesmo quando é temporário e o tempo nem é assim tanto – como quando vamos de férias e depois regressamos –  ao tornamos ao lugar de antes, temos sempre de reencontrar o espaço que é nosso.

O mesmo com as relações entre as pessoas, as pessoas que passam na nossa vida e, de repente, se afastam ou nos afastamos nós, se nos voltamos a reencontrar, seja em condições idênticas às de antes ou noutras diversas e talvez menos  esperadas – uma chamada telefónica, um encontro inesperado ao virar da esquina – de novo temos de nos reposicionar e perceber que o lugar que antes tínhamos pode já não ser o que agora nos compete.

Mutatis mutandi a vida não espera cristalizada as nossas mudanças de humor, se adormecemos, ao acordar, o mundo já não é bem o mesmo.

Vem tudo isto a propósito dos lugares, da importância do espaço, o real e o ilusório, o orgânico e o virtual, para o nosso equilíbrio interior.

Quando tornamos ao de sempre, a chamada rentrée, à francesa, voltamos com a boa disposição dos augúrios para o futuro, esperamos sempre que a rentrée seja um ponto de partida para algo melhor, mais vasto, mais além.

Assim sou eu, no meu café, escrevendo, auspiciando leitores novos, melhores poemas, melhores ideias e crónicas. Antevendo, porém, o Outono e com ele as folhas desalojadas das árvores, como às vezes nos regressos nos achamos desalojados do lugar que  tínhamos como nosso.

Que lugar nos restará agora? Que braços ainda nos abraçarão quando tornarmos? Onde foi que nos perdemos?

segunda-feira, agosto 19, 2013

Crónica de Segunda - Pequena crónica de férias e viagens.


Quando se torna de viagem trazemos estórias , pequenas anedotas dos dias, provavelmente mais serenos, memórias de cheiros, aromas invulgares, idiomas inalcançáveis, nomes de ruas que nos hão-de perseguir na memória, praças solarengas, momentos fotografados, pedaços de histórias que passarão a fazer parte do nosso ideário. Crescemos, somo diferentes, talvez sejamos mais.

Quando tornamos de viagem trazemos também a saudade do retorno ao lugar comum, o nosso, o eixo das nossas contradições, tudo quanto amamos e desamamos, trazemos agora a lente nova com que apreciamos o que já conhecíamos, à luz das novas experiências, dos locais onde nos perdemos anteriormente, tudo o que antes já era é-nos agora um pouco diferente. É, enfim, esse o interesse real da viagem, que só o é se servir para que nos afastemos de facto por forma que ao tornarmos não sejamos já os mesmos, sejamos mais, sejamos acrescentados de mundo e vivência e com isso estejamos um passo além dos que ainda não viajaram.

O propósito da viagem é o encontro com o novo para emparelhá-lo com o velho até equilibrarmos a nossa paz com a paz do mundo e acharmos nele o nosso lugar.

segunda-feira, julho 22, 2013

Crónica de Segunda - Rejubilações


Sentada no café olho através da montra e o Verão continua esta frouxa coisa, apagada, que se tem mostrado pelo Porto, à excepçãode duas ou três semanas de sol refulgente, mimetizando os trópicos, que nos apanharam de supetão logo no estrear da estação. Agora, apagadinhoe cinzentão, com a temperatura indecisa de uma Primavera mal nascida, deixa-nos mordendo os dias à espera de férias na ilusão que rumando a sul as coisas se recomponham. Num assomo rápido aos títulos dos jornais percebo que o mundo não parece em consonância com a tez gris com que a meteorologia nos brinda, nem com a minha própria tendência depressiva face à folha sem palavras onde me aprazaria ver a crónica já escrita – e sobre o quê, meu Deus, sobre o quê? O mundo lá fora, dizia eu, rejubila!
 


Como se uma esplendorosa Primavera se esmagasse contra o vidro o mundo que leio nos jornais é uma só rejubilação. Os partidos do governo e seus apaniguados rejubilam por não caírem do poder, felizes de empurrarem com a barriga um programa de governo genial que felizes nos há-delevar ao segundo resgate, e ao terceiro e aos que mais vierem, tão certeiros eram os cálculos gasparinos que este se pôs a mexer apenas dois anos tarde de mais. Mas graças aos Senhor (aos senhores?) tudo muda para que tudo fique na mesma, as taxas de juros sobem e a dívida soberana também. Uma maioria, um presidente, um programa de sucesso, assim sim andamos em frente, o precipício aguarda-nos! Rejubilemos!
 

Em Inglaterra um casal de príncipes vai parir uma benfazeja criança, que a acreditar nos bruxos que por lá moram, há-de ser carismática e sensata – valha-nos ao menos isso já que a sensatez parece cada vez mais um bem escasso e em vias de extinção. Um povo inteiro, mais uns quantos mirones por todo o mundo aguardam que a coroável cabecita saia, rejubilante também, das entranhas da real mamã. Ainda mal gerada estava a criatura já o mundo se acotovelava para a fantasiar e noticiar, uma imigrante indiana – a quem interessa isso? – mal compreendendo que o mundo é um ninho de víboras mediáticas matou-se por falta de cautela, outros chamar-lhe-iam incompetência, ou dito de outro modo foi troçada até à morte por uns engraçados entertainers televisivos australianos – benditos sejam pelas audiências, rejubilemos!
Ainda nos jornais uma jovem norueguesa de 24 anos rejubila com o seu passaporte na mão por ter sido perdoada, no Dubai, do terrível crime de se deixar violar. Toda a ideia de uma pessoa ser violada, procurar a polícia para se queixar e acabar presa e acusada por esse mesmo facto me deixa rejubilante, mal posso com tanta alegria e jubilo!
Portanto talvez apenas eu, e o tempo lá fora, não rejubilemos com tanta alegria que vai pelo mundo mas ao olhar agora a página já cheia a cheirar a crónica completa quase me apetece também rejubilar!

segunda-feira, julho 01, 2013

Crónica de Segunda - Amar-te-ei em Julho


É Julho, dêmos-lhe as boas-vindas. Eu gosto de Julho. Julho é Verão, Julho é quente, em Julho acontecem coisas fantásticas – como ministros que se demitem deixando uma onda de risos e comédia em quase um país inteiro e um clima de pesada consternação em três ou quatro especialistas do partido. Em Julho também sobem a ministras senhoras conhecidas por lidarem com produtos económicos arriscados na sua toxicidade com nomes estrangeiros que querem dizer “trocas” e vai daí trocaram-nos, a ele por ela e a nós as voltas, mudando para tudo poder, da melhor maneira, ficar na mesma.

Mas Julho não é só isto, em Julho há calor, há férias, há praia, há cheiro a maresia entrecortado pelo cheiro de Eucalipto a arder e, de todas as coisas extraordinárias que acontecem em Julho, a mais pífia – também eu nasci em Julho, embora o acto do nascimento seja sempre uma coisa extraordinária.

Julho é, aliás, o meu mês favorito e, porque estas são escolhas que se fazem na infância, certamente que para isso contribuiu o facto de estar em férias escolares, coincidindo com os fins de ciclo, com o avançar de patamares académicos, no tempo em que o futuro era ainda uma porta aberta para quase qualquer infinito que me aprouvesse e, a ajudar à festa, ainda levava umas prendas catitas logo no dealbar do mês.

Agora os patamares são estreitos e nem sempre coincidentes com Julho ou as férias grandes, o futuro é um túnel onde já estou de viagem ainda que aqui e ali com bifurcações com cada vez menos a escolher; as prendas são poucas e em geral menos proveitosas, sendo já uma boa vitória quando não tenho de as empilhar no lote dos imprestáveis; envelhecer não tem graça, dizem que aos anos somámos experiência e sabedoria, até que é verdade, mas se olharmos bem, não é isso mesmo que nos faz mais infelizes? Pois se nos morrem as ilusões, próprias da juvenil inexperiência, que nos resta para nos fazer continuar?

Melhor ou pior, na conta dos dias, este Julho entrou bem, vem com calor, já lhe tinha saudades que anos últimos nisso do calor foram parcos, espécie de Verões arrependidos, a espreitar aos soluços, e a mim já me faltava um Verão como os antigos, de quando ainda tinha ilusões e menor número de Verões a festejar, um Julho acima dos trinta graus, um Julho de abrir janelas e sair pela fresca da noite à espreita de estrelas, e do zunir das cigarras, da janela aberta no carro, das esplanadas, das conversas ao relento pela leda madrugada, a espreitar a lua, das noites longas e do amor.

Sê bem-vindo Julho de calor, contigo até me vai custar menos continuar a envelhecer.

segunda-feira, junho 24, 2013

Crónica de Segunda - Uma crónica de fim

Eu sei que já passaram muitos anos mas há memórias que nunca mais nos largam da mão, coisas que ficam, a lembrança de um cheiro, alguma coisa que nos faz sentir mais fundo. Era madrugada, não consigo precisar a hora, mas era madrugada bem alta. Dali o S. João apenas um eco de martelos ao fundo da minha tristeza, era tudo escuro, as estradas desertas. Percebi que nunca mais, nunca mais o pim, pim, pim, infernalmente adorável de gente em rodopio, feliz, louca, pelas ruas, nunca mais o cheiro da sardinha, a alho-porro, o riso e gritaria, nunca mais. Tudo porque, no fundo da escura madrugada que se abria, o meu caminho era o do fim. Os dias do fim são quentes, a noite era quente como quentes eram ainda as noites naquele tempo e porém o frio, dentro era o frio. Acordaram-me e eu tremia, tremia sempre sem conseguir parar e eu queria, eu queria parar de tremer, eu queria ver-te, já que era a ultima vez, ainda que já não me visses mas eu queria estar e estive, quase até ao fim, até a um estertor que me assustou, uma regurgitação final, um passo atrás que não perdoo até hoje e antes disso qualquer coisa que me tentaste dizer e eu não percebi.
Depois foi encontrar o caminho do regresso a casa, o táxi, os martelos ao fundo, uma noite de lágrimas quase secas, ainda incertas. Finalmente acabou, a angústia, o sofrimento, os dias quentes insuportáveis, as dores, a falta de ar, as promessas, as mentiras, acabou tudo, já podemos ser normais outra vez e chorar se apetecer chorar, já não temos de te enganar que vais melhorar, nem acreditar em todas essas mentiras que deliberadamente te dissemos.
A manhã de S. João era a surreal ressaca da casa mortuária onde não quis ver-te por ter a certeza que já não eras tu, da certidão de óbito, da empresa funerária, uma fila de caixões perfilados e o dono mostrando-me à direita e à esquerda as qualidades e preços de cada um enquanto eu percorria como um general observando as tropas, prestes a escolher o soldado a desmobilizar. Depois a escolha do texto, os preços do jornal – a família tem o doloroso dever de informar que – e a inenarrável história da fotografia. Se tinha fotografia? Sim, tinha. O homem a colocá-la sob o cinzeiro atestado que servia de pisa-papeis – mas esta gente não entende? Aquele gente não entendia que o que ali deixava de penhor era a tua fotografia, a mais resistente memória do teu olhar, do teu sorriso, aquilo não era um bilhete de autocarro para ficar defunto debaixo do cinzeiro! Devolvi-me a fotografia – fique antes com o BI – disse.
E a mulher gorda da funerária, com o seu vestido azul escuro de pintinhas brancas, que insistia em cumprimentar-me com dois beijos e eu que insistia em fugir, afastar-me.
Não a conheço, senhora, largue-me, tomara eu nunca a ter conhecido, percebe?
Lá fora a cidade entorpecida dormia a noite festiva. Abençoada, ao menos estava em silêncio.

segunda-feira, maio 27, 2013

Crónica de Segunda - Reputação.

Aquilo que primeiro me prendeu a atenção foi a pequena tatuagem em forma de flor, acho que era uma flor, que tinha na região infra-clavicular à esquerda – avisem-me se estiver a ser demasiado técnica nestas coisas da descrição de desenhos em regiões corporais. Fruto do ofício ora sou demasiado hermética na linguagem ora sou demasiado popular no sentido de ter a certeza que me faço entender. Adiante, dizia eu que a tatuagem impressa no peito, a um bom palmo sobre a mama esquerda foi o que me fez olhar para ela com mais atenção. Nem sei bem se é esse o termo, digo eu nem sei se olhei para ela com alguma atenção, olhei foi para a tatuagem. Não porque fosse grande, ou sequer muito vistosa, mas uma tatuagem, sobretudo em local à vista, como o decote que trazia permitia, ainda que vagamente tapada na sua vertente mais superior, funciona tão bem (ou tão mal, tudo vai da perspectiva com que se encaram estas coisas) como uma cicatriz ou como um furúnculo ou uma coisa ainda mais endemoninhada, como uma ranheta pendurada num nariz mal acabado de assoar. O que quero dizer é que, qualquer uma dessas coisas, uma tatuagem – seja esta entendida como uma obra de arte, um incontornável adorno ou uma marca tribal ou de outro simbolismo – um sinal no corpo, uma ferida ou cicatriz ou uma coisa que não devia estar lá como uma ranheta que fazemos de conta não ver, são coisas que nos prendem a vista. A partir do momento que nos perdemos a olhar o item em causa ficamos para sempre fascinados pelo mesmo e jamais conseguimos conter o olhar furtivo, atento, o olhar que não consegue, depois disto, concentrar-se em mais coisa alguma, vertido todo que está em tentar compreender o símbolo ou esquecer a presença, em tentar parecer natural.
Foi isso, enfim, que me aconteceu, e ali fiquei a tentar discernir se aquilo era uma flor ou um pássaro exótico, se na parte inferior vislumbrava pernas ou apenas um rabiosque e mais adiante a tentar perceber porque diabo uma pessoa que não tinha colada uma inusitada ranheta ao peito, que não tinha ali mesmo uma cicatriz de um acidente, nem um sinal esquisito ou uma verruga a pedir tratamento, alguém que tinha antes, muito provavelmente uma pelezita pálida e macia, se lembrou de a fazer tatuar com aquele desenho indeciso entre flor e pássaro, tintado a preto. Ocorreu-me que talvez fosse para que papalvos como eu ficassem plantados a olhar infinitamente um ponto neutro enquanto o mundo passava ao largo.
“É tudo por uma questão de reputação” – disse ela. Claramente não percebi o sentido, não ouvi toda a conversa, atenta que estava ao raio da tatuagem, mas fosse lá o que fosse tudo se resumia à tal da reputação.

segunda-feira, maio 06, 2013

Crónica de Segunda - Vamos todos dançar nus na rua!

 
Dedicada ao J.M.
 

Faz-me falta o mar para respirar, tenho dificuldade, na sua ausência, em compreender o limite que o céu deve traçar no horizonte. Devo ser eu que sou doida (doida, doida) e não entendo o mundo sem aquele pedaço de água indecisa, ora azul, ora verde, ora azul, ora verde, a marulhar no fundo de um ou outro, também indeciso e doido (doido, doido) pensamento.

Faz-me falta o mar ao fundo do meu por-de-sol quando no café as mesas se arrastam já e se arrastam os meus olhos pelos papeis – tanta tinta gasta, senhores, e a propósito de nada – somo agora melhores ou mais felizes? – se não fosse o mar ao fundo talvez eu ficasse assim mesmo parada e doida (doida, doida), à espera da onda de espuma e insensatez.

Faz-me falta o mar para lavar-me a solidão e o medo e o desejo. Tudo isto assim lavado a sal me parece menos mal. E, entretanto, se não acharmos o mar pelo caminho, ergamos então um copo loucura e – porque não? – vamos todos dançar nus na rua!

segunda-feira, março 18, 2013

Crónica de Segunda - O mistério dos velhos.


De que falarão os velhos senão de coisas velhas? Histórias puídas, coisas rotas, farrapos de memórias que se aguentam no vendaval do esquecimento. Que hão-de pensar os velhos, a sós com o seu pensamento? Sobre as coisas que já não há ou antes as que eles recordam sem saber se as recordam ou se as inventam se é certo que já ninguém do presente – ah o futuro, antes tão imaginado! – se lembra, excepto outros velhos como eles, talvez também já mais invenção que memória, como saber? Como saber se o que pensam realidade esquecida ou apenas imaginação delirante, senil?
Três velhos numa mesa de uma confeitaria, lancham e conversam lentamente, à velocidade dos velhos, devagar. Observo-os. São, aliás, duas velhas e um velho, um casal suponho eu, e talvez a irmã dela, são parecidas. Devagar, partem em pedaços os bolos de arroz, debicam as meias-de-leite e conversam também lentamente. De que falarão os velhos quando estão sós? De coisas velhas, memórias antigas? Confundirão os nomes, as pessoas, o antigo e o moderno? Lembrar-se-ão de um tempo de que mais ninguém lembra? Contarão as histórias dos mortos que arrastam presos ao olhar, o olhar que fica parado nas paredes a ver coisas que mais ninguém vê – um filho morto, a mãe, o pai, os irmãos, amigos tantos, enfileirados no silêncio da eternidade. Que pensarão os velhos, sós, entre eles, que como Dante “nunca imaginaram que a morte tivesse levado tantos”? Contarão os dias em que também o seu lugar à mesa da confeitaria ficará vazio, substituídos agora pelo infinito e definitivo silêncio?
Na estação de metro, sobre o obliterador, alguém deixou perdida uma luva de pele. Tem um aspecto gasto, bastante usado, meio rompida, não sei se a perderam assim, desirmanada, talvez algum velhote a tentar agarrar o passe perdido no fundo do bolso do sobretudo, atrapalhando-se com tantos dedos luvados. Ou talvez alguém a tivesse abandonado por velhice e desnecessidade. Nunca o saberei, como não sei de que falam os velhos entre si, talvez de luvas perdidas ou abandonadas, logo uma luva, algo que tão intimamente apertamos contra os dedos.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Crónica de Segunda - A saudade é uma doença crónica


A saudade é uma doença crónica. Vou aprendendo, com o tempo e a vida, que assim é. Só existe em português, a palavra dizem-me, e eu, que não conheço do mundo todas as línguas, senão duas ou três, acredito-me, ficando-me nesta muito portuguesa firmeza de propósitos de ser fiel à nossa própria melancolia,
Ter saudades nem sequer é mau, significa que tivemos algo que nos foi tão agradável que gostaríamos de repetir ou de nunca deixar de ter. Ter saudades de um registo parado, de uma situação já ida, é um estado depressivo de português resignado e triste esperando a miséria do seu fado, que fica a olhar para trás carpindo as mágoas do que já não há. Porém, ter saudade de alguém ainda que sendo um sentimento de incompletude, às vezes marejado a lágrimas, não deixa de ser um bom sinal, reportando-se a alguém que de tal forma nos terá iluminado, que estando ausente a esperamos, a desejamos, a recordamos, lembrando as coisas boas que sentimos na sua companhia. Por isso não se cura a saudade, é doença crónica que temos de transportar, só se trata com a presença mas quando esta termina, ou se de todo não for possível, fica este buraco, este vazio, esta insuportável melancolia, ao ponto de se transformar em dor e ser doença por isso mesmo, por doer e, como de amor, se pode morrer de saudade.

Quando alguém me diz “tive saudades tuas” fico feliz, percebo que nalguma altura fui para alguém motivo de amor, ao ponto dessa pessoa sofrer por mim esse mistério ambíguo da saudade e tenho esperança que ao virar as costas o fenómeno se possa repetir para que eu possa talvez querer voltar.  

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Crónica de Segunda - A verdadeira!

“É sexta feira, yeah!” A música, ainda recente, de Boss A.C. fica-se nos ouvidos e trás-nos, como habitual, um ímpeto de fim-de-semana. São centenas as musiquetas, umas melhores outras apenas cantilenas infantis, a glosar os dias da semana e, pasme-se, a glorificação é sempre relativa à sexta-feira, pela proximidade dos dias de descanso ou mesmo ao próximo fim-de-semana. Já a segunda-feira é miseravelmente desprezada, como uma espécie de pior dia da semana, algo a evitar, um patamar a passar rápido, coisa a não deixar memória. A única música que recordo versando a segunda-feira, de seu nome “Monday, Monday” dos The mammas and the pappas, esperançosa no início acaba por não ter um final feliz para o dia da semana, descrevendo-o como uma memória de choro.
Toda a ideia, não só na semana mas em tudo o resto, de ser segundo, secundário, de segunda é uma ideia a evitar. Na sociedade competitiva em que vivemos não ser o primeiro é ser o último ou, na melhor das hipóteses o primeiro dos últimos o que, certamente, não chega para nos avolumar o ego. Ser segundo, secundário, é depender e ninguém deseja ser dependente. O mesmo com o pobre dia da semana que é nada mais nada menos que o segundo, logo após o Domingo, e só é primeiro se o considerarmos o iniciador de um chorrilho de lamentos e misérias concernentes com o facto de ter terminado o escasso tempo de remanso entre semanas de trabalho. Na verdade, a páginas tantas, percebemos que vivemos a vida procurando que passe  depressa, de semana em semana para atingirmos dois, às vezes apenas um, dia de descanso.
E estas crónicas tão singelas, pobretanas de literatura, são de segunda, como uma carruagem de comboio, mais fria e desconfortável, sem luxos. Dir-me-ão que não é importante, que qualquer que seja a carruagem, desde que o comboio não descarrile, nos leva ao mesmo destino. Porém, como em tanto na vida, interessa em geral mais a viagem do que o destino onde chegamos.