segunda-feira, junho 24, 2013

Crónica de Segunda - Uma crónica de fim

Eu sei que já passaram muitos anos mas há memórias que nunca mais nos largam da mão, coisas que ficam, a lembrança de um cheiro, alguma coisa que nos faz sentir mais fundo. Era madrugada, não consigo precisar a hora, mas era madrugada bem alta. Dali o S. João apenas um eco de martelos ao fundo da minha tristeza, era tudo escuro, as estradas desertas. Percebi que nunca mais, nunca mais o pim, pim, pim, infernalmente adorável de gente em rodopio, feliz, louca, pelas ruas, nunca mais o cheiro da sardinha, a alho-porro, o riso e gritaria, nunca mais. Tudo porque, no fundo da escura madrugada que se abria, o meu caminho era o do fim. Os dias do fim são quentes, a noite era quente como quentes eram ainda as noites naquele tempo e porém o frio, dentro era o frio. Acordaram-me e eu tremia, tremia sempre sem conseguir parar e eu queria, eu queria parar de tremer, eu queria ver-te, já que era a ultima vez, ainda que já não me visses mas eu queria estar e estive, quase até ao fim, até a um estertor que me assustou, uma regurgitação final, um passo atrás que não perdoo até hoje e antes disso qualquer coisa que me tentaste dizer e eu não percebi.
Depois foi encontrar o caminho do regresso a casa, o táxi, os martelos ao fundo, uma noite de lágrimas quase secas, ainda incertas. Finalmente acabou, a angústia, o sofrimento, os dias quentes insuportáveis, as dores, a falta de ar, as promessas, as mentiras, acabou tudo, já podemos ser normais outra vez e chorar se apetecer chorar, já não temos de te enganar que vais melhorar, nem acreditar em todas essas mentiras que deliberadamente te dissemos.
A manhã de S. João era a surreal ressaca da casa mortuária onde não quis ver-te por ter a certeza que já não eras tu, da certidão de óbito, da empresa funerária, uma fila de caixões perfilados e o dono mostrando-me à direita e à esquerda as qualidades e preços de cada um enquanto eu percorria como um general observando as tropas, prestes a escolher o soldado a desmobilizar. Depois a escolha do texto, os preços do jornal – a família tem o doloroso dever de informar que – e a inenarrável história da fotografia. Se tinha fotografia? Sim, tinha. O homem a colocá-la sob o cinzeiro atestado que servia de pisa-papeis – mas esta gente não entende? Aquele gente não entendia que o que ali deixava de penhor era a tua fotografia, a mais resistente memória do teu olhar, do teu sorriso, aquilo não era um bilhete de autocarro para ficar defunto debaixo do cinzeiro! Devolvi-me a fotografia – fique antes com o BI – disse.
E a mulher gorda da funerária, com o seu vestido azul escuro de pintinhas brancas, que insistia em cumprimentar-me com dois beijos e eu que insistia em fugir, afastar-me.
Não a conheço, senhora, largue-me, tomara eu nunca a ter conhecido, percebe?
Lá fora a cidade entorpecida dormia a noite festiva. Abençoada, ao menos estava em silêncio.

segunda-feira, maio 27, 2013

Crónica de Segunda - Reputação.

Aquilo que primeiro me prendeu a atenção foi a pequena tatuagem em forma de flor, acho que era uma flor, que tinha na região infra-clavicular à esquerda – avisem-me se estiver a ser demasiado técnica nestas coisas da descrição de desenhos em regiões corporais. Fruto do ofício ora sou demasiado hermética na linguagem ora sou demasiado popular no sentido de ter a certeza que me faço entender. Adiante, dizia eu que a tatuagem impressa no peito, a um bom palmo sobre a mama esquerda foi o que me fez olhar para ela com mais atenção. Nem sei bem se é esse o termo, digo eu nem sei se olhei para ela com alguma atenção, olhei foi para a tatuagem. Não porque fosse grande, ou sequer muito vistosa, mas uma tatuagem, sobretudo em local à vista, como o decote que trazia permitia, ainda que vagamente tapada na sua vertente mais superior, funciona tão bem (ou tão mal, tudo vai da perspectiva com que se encaram estas coisas) como uma cicatriz ou como um furúnculo ou uma coisa ainda mais endemoninhada, como uma ranheta pendurada num nariz mal acabado de assoar. O que quero dizer é que, qualquer uma dessas coisas, uma tatuagem – seja esta entendida como uma obra de arte, um incontornável adorno ou uma marca tribal ou de outro simbolismo – um sinal no corpo, uma ferida ou cicatriz ou uma coisa que não devia estar lá como uma ranheta que fazemos de conta não ver, são coisas que nos prendem a vista. A partir do momento que nos perdemos a olhar o item em causa ficamos para sempre fascinados pelo mesmo e jamais conseguimos conter o olhar furtivo, atento, o olhar que não consegue, depois disto, concentrar-se em mais coisa alguma, vertido todo que está em tentar compreender o símbolo ou esquecer a presença, em tentar parecer natural.
Foi isso, enfim, que me aconteceu, e ali fiquei a tentar discernir se aquilo era uma flor ou um pássaro exótico, se na parte inferior vislumbrava pernas ou apenas um rabiosque e mais adiante a tentar perceber porque diabo uma pessoa que não tinha colada uma inusitada ranheta ao peito, que não tinha ali mesmo uma cicatriz de um acidente, nem um sinal esquisito ou uma verruga a pedir tratamento, alguém que tinha antes, muito provavelmente uma pelezita pálida e macia, se lembrou de a fazer tatuar com aquele desenho indeciso entre flor e pássaro, tintado a preto. Ocorreu-me que talvez fosse para que papalvos como eu ficassem plantados a olhar infinitamente um ponto neutro enquanto o mundo passava ao largo.
“É tudo por uma questão de reputação” – disse ela. Claramente não percebi o sentido, não ouvi toda a conversa, atenta que estava ao raio da tatuagem, mas fosse lá o que fosse tudo se resumia à tal da reputação.

segunda-feira, maio 06, 2013

Crónica de Segunda - Vamos todos dançar nus na rua!

 
Dedicada ao J.M.
 

Faz-me falta o mar para respirar, tenho dificuldade, na sua ausência, em compreender o limite que o céu deve traçar no horizonte. Devo ser eu que sou doida (doida, doida) e não entendo o mundo sem aquele pedaço de água indecisa, ora azul, ora verde, ora azul, ora verde, a marulhar no fundo de um ou outro, também indeciso e doido (doido, doido) pensamento.

Faz-me falta o mar ao fundo do meu por-de-sol quando no café as mesas se arrastam já e se arrastam os meus olhos pelos papeis – tanta tinta gasta, senhores, e a propósito de nada – somo agora melhores ou mais felizes? – se não fosse o mar ao fundo talvez eu ficasse assim mesmo parada e doida (doida, doida), à espera da onda de espuma e insensatez.

Faz-me falta o mar para lavar-me a solidão e o medo e o desejo. Tudo isto assim lavado a sal me parece menos mal. E, entretanto, se não acharmos o mar pelo caminho, ergamos então um copo loucura e – porque não? – vamos todos dançar nus na rua!

segunda-feira, março 18, 2013

Crónica de Segunda - O mistério dos velhos.


De que falarão os velhos senão de coisas velhas? Histórias puídas, coisas rotas, farrapos de memórias que se aguentam no vendaval do esquecimento. Que hão-de pensar os velhos, a sós com o seu pensamento? Sobre as coisas que já não há ou antes as que eles recordam sem saber se as recordam ou se as inventam se é certo que já ninguém do presente – ah o futuro, antes tão imaginado! – se lembra, excepto outros velhos como eles, talvez também já mais invenção que memória, como saber? Como saber se o que pensam realidade esquecida ou apenas imaginação delirante, senil?
Três velhos numa mesa de uma confeitaria, lancham e conversam lentamente, à velocidade dos velhos, devagar. Observo-os. São, aliás, duas velhas e um velho, um casal suponho eu, e talvez a irmã dela, são parecidas. Devagar, partem em pedaços os bolos de arroz, debicam as meias-de-leite e conversam também lentamente. De que falarão os velhos quando estão sós? De coisas velhas, memórias antigas? Confundirão os nomes, as pessoas, o antigo e o moderno? Lembrar-se-ão de um tempo de que mais ninguém lembra? Contarão as histórias dos mortos que arrastam presos ao olhar, o olhar que fica parado nas paredes a ver coisas que mais ninguém vê – um filho morto, a mãe, o pai, os irmãos, amigos tantos, enfileirados no silêncio da eternidade. Que pensarão os velhos, sós, entre eles, que como Dante “nunca imaginaram que a morte tivesse levado tantos”? Contarão os dias em que também o seu lugar à mesa da confeitaria ficará vazio, substituídos agora pelo infinito e definitivo silêncio?
Na estação de metro, sobre o obliterador, alguém deixou perdida uma luva de pele. Tem um aspecto gasto, bastante usado, meio rompida, não sei se a perderam assim, desirmanada, talvez algum velhote a tentar agarrar o passe perdido no fundo do bolso do sobretudo, atrapalhando-se com tantos dedos luvados. Ou talvez alguém a tivesse abandonado por velhice e desnecessidade. Nunca o saberei, como não sei de que falam os velhos entre si, talvez de luvas perdidas ou abandonadas, logo uma luva, algo que tão intimamente apertamos contra os dedos.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Crónica de Segunda - A saudade é uma doença crónica


A saudade é uma doença crónica. Vou aprendendo, com o tempo e a vida, que assim é. Só existe em português, a palavra dizem-me, e eu, que não conheço do mundo todas as línguas, senão duas ou três, acredito-me, ficando-me nesta muito portuguesa firmeza de propósitos de ser fiel à nossa própria melancolia,
Ter saudades nem sequer é mau, significa que tivemos algo que nos foi tão agradável que gostaríamos de repetir ou de nunca deixar de ter. Ter saudades de um registo parado, de uma situação já ida, é um estado depressivo de português resignado e triste esperando a miséria do seu fado, que fica a olhar para trás carpindo as mágoas do que já não há. Porém, ter saudade de alguém ainda que sendo um sentimento de incompletude, às vezes marejado a lágrimas, não deixa de ser um bom sinal, reportando-se a alguém que de tal forma nos terá iluminado, que estando ausente a esperamos, a desejamos, a recordamos, lembrando as coisas boas que sentimos na sua companhia. Por isso não se cura a saudade, é doença crónica que temos de transportar, só se trata com a presença mas quando esta termina, ou se de todo não for possível, fica este buraco, este vazio, esta insuportável melancolia, ao ponto de se transformar em dor e ser doença por isso mesmo, por doer e, como de amor, se pode morrer de saudade.

Quando alguém me diz “tive saudades tuas” fico feliz, percebo que nalguma altura fui para alguém motivo de amor, ao ponto dessa pessoa sofrer por mim esse mistério ambíguo da saudade e tenho esperança que ao virar as costas o fenómeno se possa repetir para que eu possa talvez querer voltar.  

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Crónica de Segunda - A verdadeira!

“É sexta feira, yeah!” A música, ainda recente, de Boss A.C. fica-se nos ouvidos e trás-nos, como habitual, um ímpeto de fim-de-semana. São centenas as musiquetas, umas melhores outras apenas cantilenas infantis, a glosar os dias da semana e, pasme-se, a glorificação é sempre relativa à sexta-feira, pela proximidade dos dias de descanso ou mesmo ao próximo fim-de-semana. Já a segunda-feira é miseravelmente desprezada, como uma espécie de pior dia da semana, algo a evitar, um patamar a passar rápido, coisa a não deixar memória. A única música que recordo versando a segunda-feira, de seu nome “Monday, Monday” dos The mammas and the pappas, esperançosa no início acaba por não ter um final feliz para o dia da semana, descrevendo-o como uma memória de choro.
Toda a ideia, não só na semana mas em tudo o resto, de ser segundo, secundário, de segunda é uma ideia a evitar. Na sociedade competitiva em que vivemos não ser o primeiro é ser o último ou, na melhor das hipóteses o primeiro dos últimos o que, certamente, não chega para nos avolumar o ego. Ser segundo, secundário, é depender e ninguém deseja ser dependente. O mesmo com o pobre dia da semana que é nada mais nada menos que o segundo, logo após o Domingo, e só é primeiro se o considerarmos o iniciador de um chorrilho de lamentos e misérias concernentes com o facto de ter terminado o escasso tempo de remanso entre semanas de trabalho. Na verdade, a páginas tantas, percebemos que vivemos a vida procurando que passe  depressa, de semana em semana para atingirmos dois, às vezes apenas um, dia de descanso.
E estas crónicas tão singelas, pobretanas de literatura, são de segunda, como uma carruagem de comboio, mais fria e desconfortável, sem luxos. Dir-me-ão que não é importante, que qualquer que seja a carruagem, desde que o comboio não descarrile, nos leva ao mesmo destino. Porém, como em tanto na vida, interessa em geral mais a viagem do que o destino onde chegamos. 

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Antes que o fim do mundo nos aconteça.


Antes que o mundo desate por aí a acabar há que escrever, deixá-lo por escrito, ao mundo, antes que este se esfume, se auto-degrade, desapareça sem deixar memória. E nós temos esta ideia que a memória é que é importante, a posteridade, o que fica de nós. Que ficará de nós depois do fim-do-mundo? O que fica do que somos, ou do que fomos? As coisas que amamos, o que será delas, sobreviverão elas ao apocalipse anunciado? Que será do amor que fizemos ou do que esquecemos de fazer?

Palavras, palavras, palavras, deixa as palavras no papel, escreve-o, deixa-o pintado, tingido, o branco papel a ficar escrito, já que não sabes fazer mais nada com utilidade verdadeira escreve. E isto que escreves tem alguma utilidade? É bem certo que não. E eu de novo a lembrar-me do Pina e do poema do homem da repartição, aquele que anunciava que a poesia ia acabar e que os poetas seriam colocados em lugares mais uteis. Não me liguem, divago, deve ser já o efeito do fim do mundo em mim.

Que será do meu amor quando o mundo se for e eu não estiver aqui para to dar e tu não estiveres cá para o receber? E que importância tem o mundo mesmo se é do Amor que temos que falamos, não é o Amor mais longo e mais forte que o mundo, qualquer mundo? Não é, só por si, o Amor um mundo em si mesmo, um mundo dentro do mundo, a única coisa de verdeiro interesse no mundo?

E de novo eu a permitir que as vagas memórias de frases soltas me assaltem “que farei quando tudo arde?” – Sá de Miranda, “Só me faltavas tu para me faltar tudo” – o Pina outra vez, estes que já foram deste mundo e o mundo os perdeu sem os perder verdadeiramente terão sentido tudo quanto todos nós vamos sentindo, exactamente antes de perderem o mundo ainda que a eles o mundo nunca os tivesse perdido por permanecerem em obra e a obra que deixaram que foi senão Amor? Estas frases que me perseguem, e decerto os perseguiram, o que foram senão Amor, do Amor, pelo Amor?

Quero-te dizer, meu Amor, que te Amo, antes que o fim do mundo nos aconteça.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Crónica de Segunda - A insustentável leveza da identidade*


Esta coisa da folha em branco e da crónica por escrever é sempre um dilema que não deve andar longe à da angústia do guarda-redes no momento do penálti. Vou-me, interiormente, comprometendo com uma crónica por semana mas sempre a isso vou fugindo com a desculpa, que nem é mentira, da falta de tempo, mas sonegando sempre que as várias ideias que vou tendo para expressar em crónica são muitas vezes obnubiladas pela força maior da realidade, daquelas coisas comezinhas que não se escrevem.

Ponderei explorar nesta crónica um assunto que me surgiu “por acidente” há dias, sobre a importância, ou a sua ausência, do nome que transportamos. "O que há num nome?" perguntou Shakespeare. Importa tanto e afinal tão pouco. É por ele que respondemos porém não nos é dado escolhê-lo, cola-se-nos à pele como uma outra pele, faz parte de nós e no entanto é-nos estranho. Seríamos outros, diferentes, se nos chamássemos outro nome? Provavelmente não. Foi isto que pensei um destes dias, porém, parece-me mais interessante explorar nesta crónica a importância da identidade de uma forma mais lata. O nome como forma de identidade sim, mas que importância tem? O corpo, como forma identitária parece assunto mais sério, é ele que nos representa melhor e mais forte do que um simples nome. O nosso aspecto físico torna-nos isso mesmo, físicos e presentes, passámos a ser reais e não abstractos, que é aquilo que somos quando apenas o nome nos representa, uma assinatura, uma coisa distante. Passamos a ter sorrisos e esgares, rugas, pele com textura, cabelos ou a sua ausência, cor de pele e o seu odor. Tudo isto é identidade.

Quem, como eu, tem um ar banalíssimo, um aspecto igual a toda a gente, não me distinguindo sequer por uma vestimenta exótica ou um piercing no nariz, associada ao facto de não gostar de me pôr em bicos de pés, sofro com alguma frequência do que anedoticamente chamo “creme da invisibilidade” que passa por ser apresentada a alguém, por vezes mesmo partilhar uma mesa de conversa e no dia seguinte ou poucos dias depois ser completamente ignorada por essa pessoa se nos cruzamos uma outra vez. Tem essa “desidentificação”, se me permitem o neologismo, algumas vantagens como seja poder observar quem tão bem me ignora, sem dar nas vistas, é como existir sem existir, como estar num lugar público sob uma cortina que nos protege da observação alheia enquanto nós podemos continuar a observar. Porém, bem vistas as coisas, se os outros nos perdem, se perdem de nós o nosso aspecto, o nosso olhar, o nosso sorriso, as nossas mãos, enfim aquilo que nos caracteriza, certamente já perderam o que fazemos e dizemos que verdadeiramente nos marca e poderia deixar nos outros marca, portanto também não são dignos de nos manterem numa qualquer lista imaginária de nomes conhecidos. O que valerá o nosso nome se o que fazemos ou aquilo que somos nada vale?
 
* Título composto de dois títulos de Milan Kundera - "A insustentável leveza do ser" e "A identidade"

sexta-feira, novembro 02, 2012

Dia de Finados

Hoje é o dia dos mortos. De todos os mortos, os que transportamos ao longo do tempo dentro de nós.


Já enxaguamos as lágrimas do rosto,
do mundo,
apenas discretamente a salsugem
se nos pega ainda,
importunando-nos de saudade,
amarrando-nos a dor às pernas
e ao peito.
Lugares sem importância.
Tolhem-nos apenas o passo
e a respiração,
nada sem o que não possamos continuar. 

 
Continuemos então.

Pela frincha da janela
o vento é ainda igual,
um suspiro,
ou a tua respiração velando
cada dia por um outro dia igual.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Crónica de Segunda - Um Poeta pelos pulmões.

In memoriam Manuel António Pina


Dedicada ao Carlos Magno
e à Clara Henriques

Agora os dias são mais curtos, não sei se pela força do calendário, a aproximação da Invernia, se por nos teres deixado assim, tão desavisadamente, a olhar o vazio, o buraco negro por onde partiram as palavras. Levaste-as contigo, decerto.

Agora que aqui não estás, o que dizer (ou pensar, que sei eu?) sobre a vaga de frio que vem com o Outono, da gramática que nos falta porque nos faltas, dos poemas todos que ainda estão por escrever?

Agora que a cidade sussurra a tua ausência, as bibliotecas choram-te em silêncio, “porque o resto é silêncio (que resto?)”, elas sabem que não voltarás a dar nome às palavras, nem voltarás a abrir-lhes os livros, que nem Milne, nem Borges nem Céline  te trarão de volta dos mortos agora que talvez tenhas achado  “um lugar onde pousar a cabeça”.

Depois de tu partires têm acontecido coisas estranhas, o sol, que andava arredio, veio espreitar por entre as nuvens, a certificar-se que seguirias o caminho da luz, há amigos que discutem pensos da alma por sms e sonham com garças reais em paisagens de rio, outros que se encontram em estações de serviço de auto-estrada para discutir filosofia e literatura. Talvez estas coisas já acontecessem mesmo antes da tua morte, eu sei, mas não lhes dávamos o devido valor, talvez esperássemos que viesses tu fazer delas uma crónica ou um poema, talvez um poema onde coubesse uma pétala, ou talvez não, talvez um que um de nós despetalasse ou um que nos explicasse como se “entra no amor como em casa”.

“Aos Domingos não se enterram os pobres” disseram, talvez por isso não te enterraram. Esperava que houvesse honras de estado na tua partida, todos os que não te leram, um  presidente da républica compungido, um primeiro-ministro lacrimejante, dois ou três ministros de gravata preta e discurso preparado, a bandeira nacional a meia-haste e uma salva de tiros pum, pum, pum, a marcar o evento. Não houve. Não te ofereceram essa ironia final com que glosar. Fiquei com pena pelos tiros que haviam de assustar gaivotas em múltiplas direcções, ficaria mais estranho ainda o céu, com um bando de pássaros perdidos e agitados a esbracejar (têm braços as gaivotas?).

“Aos Domingos não se enterram os pobres”. Dois poemas, teus é claro, antecederam a entrada na pira onde todos os poemas e todas as palavras ardem, como antes ardiam em ti. É apenas isto, nada mais do que isto, pó e cinzas, nada mais.

“É cada vez mais pesada a paz dos cemitérios”, dirias. Afasto-me devagar, a chaminé liberta os seus primeiros vapores, o fumo incomoda-me, faz-me tossir e pela primeira vez dou-me conta que acabara de me entrar um Poeta pelos pulmões.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Crónica de Segunda - A crónica de Natal


Dedicada ao meu editor e amigo Carlos Lopes,

 por inconfessáveis motivos que só nós sabemos!


Cá está ela, a Crónica de Natal. Perguntar-se-á o estimado leitor, que sei atento, que diabo me terá passado pela moleirinha para em meados de Outubro os presentear com uma insonsa e despropositada crónica natalícia. Insonsa porque as de Natal o são sempre, temazinho batido, até porque acontece todos os anos, conta a mesma História e, mais previsível ainda, ocorre sempre no mesmo dia do mesmo mês, portanto nada no Natal estimula a imaginação. Despropositada porque, atendendo ao atrás exposto, estas crónicas embora comuns, quase diria clássicas, não aparecem em Outubro, quando ainda nos estamos a recompor do fim do Verão mas sim em pleno Inverno e são aliás muito boas, quando impressas em papel, para servir de acendalhas às lareiras de quem as tem.

Estou certa que a esta hora, se ainda não desistiram de me ler, atribuirão a minha estranheza e loucura ao discurso Gasparino ouvido há horas, até porque pelo Natal os reis magos, entre eles o Gaspar, aparecem sempre com as prendinhas; atribuíla-ão à crise e à monumental – sim por favor, deixem-me acrescentar uma inovação à crónica, colossal e enorme estão, como o tema do Natal, no limite da paciência dos santos – miséria a que o País real está lançado. Tenderão a pensar que me afoito a escrever a crónica de Natal a dois meses de distância pela dúvida de entre subidas de impostos e mitigações de ordenados e subsídios, arrasamento de dias de férias e feriados, pela dúvida, dizia, de saber se este ano haverá Natal.

Na verdade as minhas razões são bem mais prosaicas, prendem-se sobretudo com provar que, como temática, o Natal já deu o que tinha a dar. Quem, depois de dois mil e tal anos de vastas tentativas, vai agora inventar a nova maneira de contar a História do Menino Jesus? Inventar-lhe uma nova manjedoura? Chamar os burros e as vacas pelos nomes, atendendo ao facto de nunca os ter visto descritos na literatura que consultei? Descortinar entre os reis magos qual trouxe o quê de oferta ao Menino? – Aposto que o Gaspar foi o que trouxe a mirra, especialista em tudo mirrar: os ordenados, os subsídios, os empregos, enfim a economia! O ouro sabemos que não foi o António Sala, mas aposto que todos desconfiamos que ele por lá andasse disfarçado de Belchior. Enfim, não há maneira, pois se nem no Pai Natal conseguimos inventar – a coca-cola não mudou de cor e um Pai Natal vestido de azul semelharia um strunf. Creio apenas que este Natal a coisa poderá melhorar no sentido das SMS, previsivelmente serão menos, não há guita!

segunda-feira, setembro 24, 2012

Crónica de Segunda - Heroísmo


Permiti-me hoje percorrer a pé, desde lá de trás, a rua do Heroísmo. Há muito tempo que não o fazia, faz-me sempre pena. Pena ou melancolia, nunca sei bem, creio que padeço disso desde o tempo em que deixei o liceu e com isso aquela mesma zona como âncora. Mas o tempo fez enriquecer a sensação. A mistura de tudo o que desapareceu e de tudo o que sobrou. O que desapareceu e deixa saudade e o que sobrou quase tudo decrépito, cinzento e bafiento, uma rua que tem laivos de cidade fantasma dentro da cidade, casas ao abandono, lugares cheios de vazio.

O palacete onde em tempos estudei tinha sempre o portão fechado, acho que havia uma tabela de basquete pendurada nele e, se bem me lembro, ninguém lá jogava nada, no meu tempo, pelo menos. Agora os portões estão abertos, as marcações do chão desapareceram e lá dentro um carro de polícia. É da polícia aquilo agora. Questiono-me, será que as escadas que levam ao último piso ainda rangem ameaçando ruir? Será que quando as portas se fecham um ou dois agentes tentam a sorte na tabela de basquete? Será que os corredores ainda se lembram dos beijos, das estórias, da história, da geografia, da biologia e do inglês? Avanço mais e desvio o olhar para Nova Sintra, de novo me parece ouvir o comboio ao longe e sentir o vento embiocado nas folhas das árvores nas Águas. Os furos das aulas – feriados, chamávamos-lhes – serviam também para o, já à época melancólico, tour ao espreita comboios – pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra lá vinham eles de não sei de onde, lembrando-me o Verão, que a mim era o que me lembravam. “Está a dar entrada na linha número dois o comboio regional com destino a Coimbra. Este comboio tem paragem em todas as estações e apeadeiros”.  

Estugo o passo, os cafés onde parei, talvez comprasse ali o jornal mas é domingo, está fechado. Tudo é agora diferente e igualmente parado. Uma sensação de abandono, de orfandade, um vidro partido dá de esguelha para uma cave e engrandece o cheiro a vazio, ups - bafio. O fotógrafo, o barbeiro, o horto, adiante o STOP já morto e enterrado várias vezes, onde eu comprava discos – havia discos no meu tempo, sou tão antiga! – e ia ao cinema e outras tantas coisas de que mal me lembra já.

Na esquina o museu que antes foi sede da PIDE, embora sabendo que o nome deriva das lutas liberais do D. Pedro contra o D. Miguel, penso que Heroísmo assenta bem ao nome da rua por ali terem estado prisioneiros os heróis que lutavam pela liberdade. Era ali que o Gomes Ferreira vinha visitar o filho preso e dali partiu para alguns poemas. A Virgínia de Moura em estátua para que não esqueçamos o cravo de pedra. Conheço um PIDE, quer dizer, um ex-PIDE. Dizem que o foi por pouco tempo, que não se via a torturar e que quis saír, ainda assim não nutro por ele qualquer simpatia. Há dias diz-me minha Mãe – repara que ele agora anda sempre de máquina fotográfica, achas que andará a espiar o povo? – disparate, anda agora! Um reformado a entreter-se com fotografias, eu mesma que trago quase sempre uma digital. Pelo sim, pelo não, passo por largo, bem largo.

Frente ao cemitério um homem conduz pela trela, melhor seria dizer que era ele o conduzido, dois cães de grande porte – um lavrador e um outro ainda maior, de raça incerta, provável cruzamento com serra da estrela. Apesar do tamanho tinham um ar pacífico. Um gato cinzento, listado, esgueira-se sob uma barraca de flores, não vá o diabo tecê-las… heroísmo.

Heroísmo, heroísmo o tanas! Enquanto me lembrar da dor que me dá não voltarei a passar aqui tão cedo! Esgueiro-me sob uma barraca de flores ou outra coisa qualquer onde lograr caber para me esconder.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Crónica de Segunda - Uma derradeira crónica de Verão


Que ainda agora era Agosto e está calor e há quem esteja de férias e não lhe apeteça pensar. Sobretudo há quem não queira, frente a uma paisagem idílica de mar ao fundo, ser lembrado dos impostos, dos subsídios que não há, dos cortes nos ordenados, dos malefícios da troika, do desemprego que aumenta e do país que se afunda, condenado que está ao fracasso económico e social, sucumbindo em silêncio qual doente terminal, respirando ruidosamente, com dificuldade acrescida até ao suspiro final. Há que respeitar, pois, estes momentos finais de sossego e paz, amanhã será outro dia e a vida real há-de inundar-nos até, também nós, não conseguirmos mais respirar.

Há que dar balanço à cronica e oferecer alguma paz de fim-de-verão aos leitores que esperam ainda pelas esplanadas os raios últimos da ilusão estival.  Avanço então pela crónica como pelo mar, dando a cada braçada de palavras uma rajada de azul, como se as gaivotas que esbracejam aqui , junto de onde estou, fossem de facto gaivotas de maresia e não estas aves infectas, rapinares, que cobrem de dejectos os monumentos e as ruas e se alimentam do lixo que, displicentes, espalhamos pela cidade.

Tento então amordaçar a crónica, não bem a crónica, mas a realidade que esperneia dentro dela. Há que anestesia-la, metê-la a correntes, não a deixar passar, até que o estio se desencontre e deixe que o frio nos envolva e nos devolva o Outono e a vida real.

Pouso a caneta, olhos no mar, pausa, retomo a escrita, sinto o vazio, torno a olhar o mar… ou a memória dos teus olhos a olhar o mar dentro de mim.  

segunda-feira, agosto 20, 2012

Crónica de Segunda - Uma crónica parva. Parva, parva, parva!


Meio de Agosto, o melhor tempo da silly season, a estação parva. Se lhe chamam assim alguma razão hão-de ter, tudo porque está calor e meio mundo vai de férias esquecendo os assuntos sérios e mantendo o neurónio adormecido.

Eu, que não estou de férias, e, pelo contrário, regresso das minhas com a gana de me agarrar à crónica mas sem saber o que pôr nela em tal época de alta estival e baixa intelectual, dou por mim a perceber que coisas parvas, a dizer com a estação, para descrever na crónica é o que mais há por aí. Assola-me até, de repente, a vontade de transformar as minhas Crónicas de Segunda em Crónicas Parvas.

É preciso muito pouco para encontrar a temática, um simples passeio na baixa da minha cidade chega para ocupar toda a crónica. Começo numa livraria – “As setes chaves da cura” – nem abri o livro, apenas lhe apreciei o título e a autora – Cristina Candeias – e penso “ah, a silly season no seu melhor!”, a cura tem chaves e são sete, felizmente há uma bruxa que as conhece e, generosamente, partilha em livro. Pobre de mim a arrastar-me seis anos, seis, de cadeiras infindáveis e sem equivalências automáticas, arrancadas uma a uma com o queimor neuronal, mais dois anos de estágio, mais cinco de especialidade e mais uns poucos de prática depois de tudo isso e ainda não dei com o estupor das chaves – faltou-me este manual! Vou por na lista das compras.

Saio da livraria e caminho pela rua, um mendigo cego, com a sua bengala agachava-se no chão, aflito, tacteando o chão com a mão à procura de uma moeda pequena que lhe havia caído. Solícito, um velhote, coloca-lhe a mão no ombro apontando com o indicador na direcção da moeda caída “está ali, está ali!”, estou certa que foi muito útil. O cego, pelo menos, ia agradecendo enquanto continuava às apalpadelas.

Último episódio – sento-me no cabeleireiro esperando vez e não resisto a folhear um exemplar da dita imprensa cor-de-rosa mas logo me assalta uma forte impressão de cinzento. Um título “irresistível” salta-me à vista “Como se livrar dele depois das férias. Termine uma relação sem remorsos.” Não resisti a ler as tão preciosas instruções para nos livrarmos de alguém que goste de nós como se de um empecilho mal cheiroso se tratasse, um pechisbeque comprado em saldo que queremos ofececer a alguém de quem não gostemos. Que melhor literatura estival senão aquela que nos ensina coisas tão uteis?! Os truques infalíveis passavam por marcar jantares românticos aos quais se falta, não responder às mensagens e depois dar como desculpa o esquecimento; enxovalhos públicos com confissões de falsas intimidades menos abonatórias e humilhações frente aos amigos. Tudo muito fácil e, afinal, demasiado óbvio, digo eu. Dá-me ideia que manuais para instruir a humilhar o próximo são desnecessários, qualquer um de nós, vasculhando no pior de si, certamente conseguiria encontrar sem mestre, mesmo na mais parva das estações, a melhor maneira de ser rude e imbecil no final de uma relação, afinal gente rude e imbecil, e não só no final de relações, é o que mais há para servir de modelo. Começo a pensar que se calhar são os habituais leitores destes pasquins. O que eu ando a perder por não o ser! Um destes dias ainda vou querer acabar uma relação e acabo aos abraços ou assim! Que parva eu sou, ainda pior que a estação!

segunda-feira, julho 02, 2012

Crónica de Segunda - Do desapego e do desamparo


Ando há séculos para escrever esta crónica. Não esta exactamente porque é sempre outra a crónica que vou pensando e a que consigo depois verter no papel (sim, é no papel que escrevo e só depois “computo”).

O que me leva à crónica é o seu título, parto dele muitas vezes e desta feita assim foi. A  aliteração, candente, adocicada, do título levar-me-á ao território dos afectos onde pretendo chegar. “Do desapego e do desamparo”, não posso deixar de lembrar Jane Austeen cujas traduções dos títulos de algumas das suas obras mais sonantes lhes fazem tão pouca justiça. Se “orgulho e preconceito" ou "sensibilidade e bom senso” são boas traduções literais, nada dizem sobre a fonética aliterante,  a poesia, que há em “pride and prejudice” ou “sense and sensibility”, títulos não escolhidos por acaso pela sua autora.

O mesmo faço eu, quer dizer, tento fazer, para atingir o leitor no centro do peito com este “do desapego e do desamparo”. Dengosamente, delicadamente, desalinhando o destino, dilacerando a crónica.

Todos nos desamparamos e às vezes nos desapegamos, não necessariamente por esta ordem. A imagem morta do antigo amante que antes nos queimava o peito hoje a desfazer-se – o desapego, o abraço que antes nos tolhia de tão forte, hoje desmembrado, deixa-nos à solta, pernas bambas face ao mundo – o desamparo.

Sozinhos no mundo desde a nascença, somo todos um pouco assim, frutos do desapego, filhos do desamparo.

Se ainda me amas, não quero saber, de ti me desapego. Que farás de mim e da memória do teu desamparo?

segunda-feira, junho 25, 2012

Crónica de Segunda - Crónica de São João (mais uma)

Pim, pim, pim – os martelinhos, martelando-me – gosto desta toada gerúndica, quase brasileira na velocidade da escrita, sinto que me perfuma a crónica, adocica-ma (e ela precisa).

Pim, pim, pim – vai ser assim toda a noite (ou terá sido, quando lerem esta crónica).

Pim, pim, pim – ano após ano, nada de diferente, pouco se modifica. É normal, é São João, há sardinhas, manjericos, alhos porros, erva cidreira, balões que sobem livres atiçados pela alegria simples do povo. Irreprimível nesta noite, mesmo agora, mesmo abafado, contraído, contrariado, o povo há-de saber soltar-se no São João.

Pim, pim, pim – sempre adorei esta festa da comunhão de pobres e ricos, uma noite tão invulgar. E que infeliz ficava se tinha de lhe faltar, como quando tive o acidente e não me permitiram a martelada no crânio ainda mal recomposto, ou quando um ano ficaste doente Pai, lembras-te? Uma outra vez tinha um exame qualquer mesmo em cima da data. Mas foram poucas as vezes que não fui saudar o santo nas ruas.

Pim, pim, pim – o cheiro a sardinhas vai entranhar-se em casa se não fechar já a janela, agora o foguetório,  pum, patapum, patum, pum, pum, o fogo de artifício, barulho, mais barulho, tanto barulho.

Pim, pim, pim – alguém me apaga a luz? O som? Por favor devolvam-me o silêncio. Tenho direito ao meu silêncio, preciso de silêncio já! Que horas são? Que horas eram quando morreste Pai? Que horas eram quando abracei a Mãe e lhe disse “agora somos só nós”. Que horas eram da madrugada, Pai? Ah mas umas sardinhas é que era, disseste e com uma pinguinha para empurrar, que bom seria. Não te dei sardinhas mas dei-te a comida à boca, o leite creme, como a um bébé, e reprimendas, “não te portes mal, não tires a máscara do oxigénio, vá!”, como a um bébé.

A mulher da cintigrafia “dê os óculos, a carteira e tudo o que tiver nos bolsos à mãe”  - eu a rir-me, tu a piscares-me o olho. “Ah! Desculpe, à filha!” e pouco depois lá tornava “Agora a Mãe vai blá, blá, blá” eu a encolher os ombros e tu a sorrires sob o bigode.

Iguais, tu e eu, o mesmo molde – “é a cara do Pai” – pois é. Ainda é, o Pai é que já não há.

Pim, pim, pim – que horas eram quando te foste Pai e nos fizeste vir pela madrugada, de táxi, a atravessar o Sâo João do Porto e chegar à nossa casa vazia de ti. Já estava vaia de ti há três semanas, não estranhamos mas estranhamos que agora para sempre. Agora tu nunca mais. Só as tuas coisas, os teus papeis, as tuas roupas, o teu cheiro, mas tu já não.

Pim, pim, pim – lá fora os martelos – pim, pim, pim – agora como dantes, pela madrugada, não sei a que horas – pim, pim, pim.


Mas alguém me cala o filho da puta do martelanço?

segunda-feira, maio 14, 2012

Crónica de Segunda - Aviões.

Não gosto do “Ídolos”, como aliás não gosto de nenhum dos seus congéneres, “Operações Triunfo”, “Vozes de Portugal” e quejandos festivais da otite, mas gosto ainda menos do “Ídolos” do que dos outros porque associa ao triste engodo de uma carreira de sucesso a um bando de impúberes sonhadores de luzes e estrelato, o extra da humilhação pública, ingrediente essencial para obter audiências. Um carcamano boçal (alegremo-nos, de início eram dois!), de talentos musicais desconhecidos, é pago, felizmente não do erário público, para amesquinhar adolescentes transidos, as futuras estrelas que nos hão-de encher os ecrãs e os ouvidos com indiscutíveis talentos de durabilidade entre 3 a 6 meses, mostrando-lhes, enfim, quem manda – faz-me sempre recordar um personagem de Lobo Antunes que se servia das criadas mas sempre sem tirar o chapéu para mostrar quem mandava.
Teve, porém, este programa a veleidade, pela mão de um dos seus imberbes concorrentes, já não sei qual – o programa não está feito para que nos lembremos deles – nem se foi aprovado para o distinto grupo que domingo após domingo há-de encher as “galas” do programa (eu ainda sou do tempo em que uma gala era um espectáculo de excelência onde eram convidados os mais talentosos cantores ou bandas, os mesmos que agora se sentam em casa a ver o seu lugar ocupado por estudantes de vedeta no desemprego), de trazer uma velha canção de 2009 que poucos conheciam para o topo dos airplays. Acho mesmo que o rapaz, terminadas as hostilidades idólicas, deveria ser medalhado pelos “Azeitonas” por os ter catapultado para festivais de verão e queimas de fitas.
Falo, claro, de “Anda comigo ver os aviões”. Conheço uma meia dúzia de músicas dos “azeitonas” mas também não conhecia esta e fiquei, como muitos, encantada pela sua melodia e lirismo adocicado. E vinha eu, por aqui abaixo, cheia de ganas de escrever crónica, não sobre os “Ídolos” nem sobre este interprete que já esqueci mas sim sobre esta música, ou melhor ainda sobre a ideia desta música e de transcender para além da história contada pela canção. A magnífica ilusão de ter alguém com quem ver aviões, os navios em leixões ou os foguetões. Uma impossível imagem de silêncio e paz em tempo de ruído como é o nosso. Que bom se alguém nos amparasse o silêncio e nos afagasse o cabelo enquanto connosco visse passar os aviões ou os pássaros em voo rasante e enquanto o mar ao longe fizesse a banda sonora, sem lugar a luzes nem ribalta. Só silêncio, paz, quase solidão.

sexta-feira, abril 13, 2012

Revista-me Nº 05

A ver se a coisa dá.
Aqui no link está a Revista-Me Nº 05, http://issuu.com/edita-me/docs/revistame05 com muita coisinha boa de se ler (e de borla, o que nos dias que correm é sempre bom), com prosa, poesia, contos e descontos, entrevistas, críticas, a sempre pertinente rúbrica da Ana Salgado com quem aprendemos mais e melhor português, a crítica literária da Celeste Pereira, desta feita sobre "Uma mentira mil vezes repetida", o mais recente do Manuel Jorge Marmelo, acompanhando-se de entrevista com o autor, etc, etc, etc (e não percam os etcéteras que são do melhor).
Lá está, como habitualmente, a minha Crónica do Interior, pela página 6 e mais lá adiante, na 53, uma entrevista onde falamos de tudo, literatura, vida, amor e morte.
Boas leituras :)

segunda-feira, abril 09, 2012

Crónica de Segunda - Crónica turbilhonante

Gosto de palavras e, o que é pior, suponho que elas gostam de mim. Há reciprocidade neste querer mútuo. Elas perseguem-me, bem as sinto a invadirem-me e eu, apanhando-as, reduzo-as à sua insignificância de serem apenas palavras, símbolos, dobro-as até me servirem e se isso não acontecer livro-me delas. Embora às vezes elas me persigam, nem me sempre me deixam a rédea solta.
Vem tudo isto a propósito de uma dessas palavrinhas que subitamente me assaltou, desta feita em Inglês, língua com a qual me imiscuí (vejam como é bela esta palavra, tão cheia de si, de intimidade, quase obscena – imiscuir!) pelos nove anos, coisa incomum à época e com a qual, além de simpatizar, tenho a familiaridade suficiente para que também na língua de Shakespeare (que de sua língua, aquela que ele falava e escrevia, é tão similar como o Português de hoje é com o de Camões ou de Gil Vicente) para que também em Inglês me sinta periodicamente perseguida por uma ou outra palavra.
“Turmoil” foi o termo que ficou a percutir-me a moleirinha, sabendo eu das suas inúmeras traduções, aquela que mais se assemelhava à palavra original na sua dicção e musicalidade, sem lhe tirar o sentido, seria tumulto. Não sendo, como disse, a única tradução possível, tumulto é uma bela palavra, com uma forte ideia de revolução, de convulsão, de redemoinho, tudo o que afinal a original continha apenas com um pouco mais de onomatopeia como é mais frequente nas palavras inglesas. “Turmoil” faz-me lembrar um redemoinho, como “Whirlpool” que quer também dizer isso mesmo.
E fiquei então digressando sobre isso dentro de mim e transformando “Turmoil”, tumulto, numa outra palavra que podia também servir de tradução - torvelinho, palavra tão bela, tão cheia de curvas e retorcidos que parece ela mesmo um caracol, um tumulto, um “turmoil”.
Assim, meus amigos, estimados e pacientes leitores, encho eu uma crónica enovelada com o tumulto, o torvelinho que esta palavra deu dentro de mim. Podia antes ter-vos falado do tumulto interior que me levou a ser assaltada pelo “turmoil” mas nunca gostei de diários pessoais transformados em crónicas, ou poemas ou mesmo romances. Por isso aqui fica esta tumultuosa crónica toda em torno das palavras (reparem na aliteração “toda em torno”, faltou dizer “toda em torno de um só termo” .
Despeço-me, com amizade, até que outra tumultuosa ideia me desate um torvelinho de palavras.

segunda-feira, março 12, 2012

Crónica de Segunda - Ode aos heróis desaparecidos (ou "nevermind" = deixa lá)

Em 94 ouvia-se boa música, aquela que se fazia então. Kurt Cobain punha termo à vida enquanto Abrunhosa enchia a transbordar os seus primeiros coliseus. La dentro gritávamos “talvez foder” como uma catarse de todos os nossos males, quase me atrevia a dizer que até Cobain, se lá estivesse, gritaria também e quiçá encontraria dentro de si mesmo um qualquer caminho que lhe obviasse o sofrimento.

Uma pessoa que me é próxima viajou para Seattle, pedi-lhe, por brincadeira, que me trouxesse um pin dos Nirvana. Não o tendo encontrado trouxe-me antes uma versão deluxe de aniversário do “Nevermind”. Vinha a ouvi-lo no carro e a pensar que bastava ouvi-lo, ao Kurt, mesmo que nada se entendesse de inglês, bastava ouvi-lo e prever-lhe o fim trágico, cantava como quem grita “ajudem-me, sinto-me à beira do abismo!”

Cobain, natural de Seattle, lugar meio lúgubre, começou por encontrar na música a única saída possível a quem não tinha nem horizonte nem futuro. A música era todo o horizonte que possuía. Só que junto com a música veio o futuro e o que antes era catarse tornou-se profissão, a profissão trouxe-lhe o estrelato e para isso o miúdo de Seattle não estava preparado. Depressa a música passou do lugar para onde fugir para o lugar de onde fugir e o horizonte que antes era tornou-se abismo de onde não havia por onde escapar, excepto da forma que ele encontrou.

É difícil o equilíbrio entre a arte, coisa intangível, dor do criador e a arte objecto de consumo que também serve para alimentar o criador. Conheci um músico que se recusava a ganhar um centavo com a música que escrevia e interpretava, tinha outra profissão, alegando que a música não se vende. Conheci quem fizesse poemas na rua a troco de umas moedas e um outro que vendia poemas também dessa maneira mas escritos, em folha impressa, de autores famosos. Florbela, agora glosada em filme, escolheu o aniversário para desistir quando desistiu de achar infinitos nos poemas. Sá Carneiro achou também a sua forma de “ir de burro” e tantos outros que não encontraram o equilíbrio entre o chão e transcendente.

Há os que escrevem para não enlouquecer e os que enlouquecem escrevendo. Eu publico uns versos sem verdadeira esperança que sejam lidos nem verdadeira certeza que valham um chavo. Nunca ganhei nada com eles e vivo bem com isso, mas não me importava. O meu último herói musical virou júri de um programa de venda de ilusões e fama fácil. Já não tenho heróis, é oficial! No peito cada um com as suas dores, as dores de parto também – a cada poema um ai, a cada nota sangue e lágrimas. A agonia do fim rasgada apenas pelas clareiras de luz que a arte permite.

Fico-me, só, na minha confusão de afectos.

Não sei se te abrace, Kurt, e afague a tua cabeça em sangue contra o meu peito, ou se te abrace, Pedro, feliz de não seres herói mas estares vivo e, como eu, teres de comer e filhos para criar e nada disso se compadecer com delírios de arte e infinito que não alimentam senão a alma faminta mas deixam o corpo morrer de inanição.

Na falta de melhor, e de heróis, abraço-me a mim mesma, fechando os braços em torno dos joelhos enquanto procuro no escuro um poema, a centelha de infinito que hoje me há-de fazer arder por dentro.