segunda-feira, setembro 24, 2012

Crónica de Segunda - Heroísmo


Permiti-me hoje percorrer a pé, desde lá de trás, a rua do Heroísmo. Há muito tempo que não o fazia, faz-me sempre pena. Pena ou melancolia, nunca sei bem, creio que padeço disso desde o tempo em que deixei o liceu e com isso aquela mesma zona como âncora. Mas o tempo fez enriquecer a sensação. A mistura de tudo o que desapareceu e de tudo o que sobrou. O que desapareceu e deixa saudade e o que sobrou quase tudo decrépito, cinzento e bafiento, uma rua que tem laivos de cidade fantasma dentro da cidade, casas ao abandono, lugares cheios de vazio.

O palacete onde em tempos estudei tinha sempre o portão fechado, acho que havia uma tabela de basquete pendurada nele e, se bem me lembro, ninguém lá jogava nada, no meu tempo, pelo menos. Agora os portões estão abertos, as marcações do chão desapareceram e lá dentro um carro de polícia. É da polícia aquilo agora. Questiono-me, será que as escadas que levam ao último piso ainda rangem ameaçando ruir? Será que quando as portas se fecham um ou dois agentes tentam a sorte na tabela de basquete? Será que os corredores ainda se lembram dos beijos, das estórias, da história, da geografia, da biologia e do inglês? Avanço mais e desvio o olhar para Nova Sintra, de novo me parece ouvir o comboio ao longe e sentir o vento embiocado nas folhas das árvores nas Águas. Os furos das aulas – feriados, chamávamos-lhes – serviam também para o, já à época melancólico, tour ao espreita comboios – pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra lá vinham eles de não sei de onde, lembrando-me o Verão, que a mim era o que me lembravam. “Está a dar entrada na linha número dois o comboio regional com destino a Coimbra. Este comboio tem paragem em todas as estações e apeadeiros”.  

Estugo o passo, os cafés onde parei, talvez comprasse ali o jornal mas é domingo, está fechado. Tudo é agora diferente e igualmente parado. Uma sensação de abandono, de orfandade, um vidro partido dá de esguelha para uma cave e engrandece o cheiro a vazio, ups - bafio. O fotógrafo, o barbeiro, o horto, adiante o STOP já morto e enterrado várias vezes, onde eu comprava discos – havia discos no meu tempo, sou tão antiga! – e ia ao cinema e outras tantas coisas de que mal me lembra já.

Na esquina o museu que antes foi sede da PIDE, embora sabendo que o nome deriva das lutas liberais do D. Pedro contra o D. Miguel, penso que Heroísmo assenta bem ao nome da rua por ali terem estado prisioneiros os heróis que lutavam pela liberdade. Era ali que o Gomes Ferreira vinha visitar o filho preso e dali partiu para alguns poemas. A Virgínia de Moura em estátua para que não esqueçamos o cravo de pedra. Conheço um PIDE, quer dizer, um ex-PIDE. Dizem que o foi por pouco tempo, que não se via a torturar e que quis saír, ainda assim não nutro por ele qualquer simpatia. Há dias diz-me minha Mãe – repara que ele agora anda sempre de máquina fotográfica, achas que andará a espiar o povo? – disparate, anda agora! Um reformado a entreter-se com fotografias, eu mesma que trago quase sempre uma digital. Pelo sim, pelo não, passo por largo, bem largo.

Frente ao cemitério um homem conduz pela trela, melhor seria dizer que era ele o conduzido, dois cães de grande porte – um lavrador e um outro ainda maior, de raça incerta, provável cruzamento com serra da estrela. Apesar do tamanho tinham um ar pacífico. Um gato cinzento, listado, esgueira-se sob uma barraca de flores, não vá o diabo tecê-las… heroísmo.

Heroísmo, heroísmo o tanas! Enquanto me lembrar da dor que me dá não voltarei a passar aqui tão cedo! Esgueiro-me sob uma barraca de flores ou outra coisa qualquer onde lograr caber para me esconder.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Crónica de Segunda - Uma derradeira crónica de Verão


Que ainda agora era Agosto e está calor e há quem esteja de férias e não lhe apeteça pensar. Sobretudo há quem não queira, frente a uma paisagem idílica de mar ao fundo, ser lembrado dos impostos, dos subsídios que não há, dos cortes nos ordenados, dos malefícios da troika, do desemprego que aumenta e do país que se afunda, condenado que está ao fracasso económico e social, sucumbindo em silêncio qual doente terminal, respirando ruidosamente, com dificuldade acrescida até ao suspiro final. Há que respeitar, pois, estes momentos finais de sossego e paz, amanhã será outro dia e a vida real há-de inundar-nos até, também nós, não conseguirmos mais respirar.

Há que dar balanço à cronica e oferecer alguma paz de fim-de-verão aos leitores que esperam ainda pelas esplanadas os raios últimos da ilusão estival.  Avanço então pela crónica como pelo mar, dando a cada braçada de palavras uma rajada de azul, como se as gaivotas que esbracejam aqui , junto de onde estou, fossem de facto gaivotas de maresia e não estas aves infectas, rapinares, que cobrem de dejectos os monumentos e as ruas e se alimentam do lixo que, displicentes, espalhamos pela cidade.

Tento então amordaçar a crónica, não bem a crónica, mas a realidade que esperneia dentro dela. Há que anestesia-la, metê-la a correntes, não a deixar passar, até que o estio se desencontre e deixe que o frio nos envolva e nos devolva o Outono e a vida real.

Pouso a caneta, olhos no mar, pausa, retomo a escrita, sinto o vazio, torno a olhar o mar… ou a memória dos teus olhos a olhar o mar dentro de mim.  

segunda-feira, agosto 20, 2012

Crónica de Segunda - Uma crónica parva. Parva, parva, parva!


Meio de Agosto, o melhor tempo da silly season, a estação parva. Se lhe chamam assim alguma razão hão-de ter, tudo porque está calor e meio mundo vai de férias esquecendo os assuntos sérios e mantendo o neurónio adormecido.

Eu, que não estou de férias, e, pelo contrário, regresso das minhas com a gana de me agarrar à crónica mas sem saber o que pôr nela em tal época de alta estival e baixa intelectual, dou por mim a perceber que coisas parvas, a dizer com a estação, para descrever na crónica é o que mais há por aí. Assola-me até, de repente, a vontade de transformar as minhas Crónicas de Segunda em Crónicas Parvas.

É preciso muito pouco para encontrar a temática, um simples passeio na baixa da minha cidade chega para ocupar toda a crónica. Começo numa livraria – “As setes chaves da cura” – nem abri o livro, apenas lhe apreciei o título e a autora – Cristina Candeias – e penso “ah, a silly season no seu melhor!”, a cura tem chaves e são sete, felizmente há uma bruxa que as conhece e, generosamente, partilha em livro. Pobre de mim a arrastar-me seis anos, seis, de cadeiras infindáveis e sem equivalências automáticas, arrancadas uma a uma com o queimor neuronal, mais dois anos de estágio, mais cinco de especialidade e mais uns poucos de prática depois de tudo isso e ainda não dei com o estupor das chaves – faltou-me este manual! Vou por na lista das compras.

Saio da livraria e caminho pela rua, um mendigo cego, com a sua bengala agachava-se no chão, aflito, tacteando o chão com a mão à procura de uma moeda pequena que lhe havia caído. Solícito, um velhote, coloca-lhe a mão no ombro apontando com o indicador na direcção da moeda caída “está ali, está ali!”, estou certa que foi muito útil. O cego, pelo menos, ia agradecendo enquanto continuava às apalpadelas.

Último episódio – sento-me no cabeleireiro esperando vez e não resisto a folhear um exemplar da dita imprensa cor-de-rosa mas logo me assalta uma forte impressão de cinzento. Um título “irresistível” salta-me à vista “Como se livrar dele depois das férias. Termine uma relação sem remorsos.” Não resisti a ler as tão preciosas instruções para nos livrarmos de alguém que goste de nós como se de um empecilho mal cheiroso se tratasse, um pechisbeque comprado em saldo que queremos ofececer a alguém de quem não gostemos. Que melhor literatura estival senão aquela que nos ensina coisas tão uteis?! Os truques infalíveis passavam por marcar jantares românticos aos quais se falta, não responder às mensagens e depois dar como desculpa o esquecimento; enxovalhos públicos com confissões de falsas intimidades menos abonatórias e humilhações frente aos amigos. Tudo muito fácil e, afinal, demasiado óbvio, digo eu. Dá-me ideia que manuais para instruir a humilhar o próximo são desnecessários, qualquer um de nós, vasculhando no pior de si, certamente conseguiria encontrar sem mestre, mesmo na mais parva das estações, a melhor maneira de ser rude e imbecil no final de uma relação, afinal gente rude e imbecil, e não só no final de relações, é o que mais há para servir de modelo. Começo a pensar que se calhar são os habituais leitores destes pasquins. O que eu ando a perder por não o ser! Um destes dias ainda vou querer acabar uma relação e acabo aos abraços ou assim! Que parva eu sou, ainda pior que a estação!

segunda-feira, julho 02, 2012

Crónica de Segunda - Do desapego e do desamparo


Ando há séculos para escrever esta crónica. Não esta exactamente porque é sempre outra a crónica que vou pensando e a que consigo depois verter no papel (sim, é no papel que escrevo e só depois “computo”).

O que me leva à crónica é o seu título, parto dele muitas vezes e desta feita assim foi. A  aliteração, candente, adocicada, do título levar-me-á ao território dos afectos onde pretendo chegar. “Do desapego e do desamparo”, não posso deixar de lembrar Jane Austeen cujas traduções dos títulos de algumas das suas obras mais sonantes lhes fazem tão pouca justiça. Se “orgulho e preconceito" ou "sensibilidade e bom senso” são boas traduções literais, nada dizem sobre a fonética aliterante,  a poesia, que há em “pride and prejudice” ou “sense and sensibility”, títulos não escolhidos por acaso pela sua autora.

O mesmo faço eu, quer dizer, tento fazer, para atingir o leitor no centro do peito com este “do desapego e do desamparo”. Dengosamente, delicadamente, desalinhando o destino, dilacerando a crónica.

Todos nos desamparamos e às vezes nos desapegamos, não necessariamente por esta ordem. A imagem morta do antigo amante que antes nos queimava o peito hoje a desfazer-se – o desapego, o abraço que antes nos tolhia de tão forte, hoje desmembrado, deixa-nos à solta, pernas bambas face ao mundo – o desamparo.

Sozinhos no mundo desde a nascença, somo todos um pouco assim, frutos do desapego, filhos do desamparo.

Se ainda me amas, não quero saber, de ti me desapego. Que farás de mim e da memória do teu desamparo?

segunda-feira, junho 25, 2012

Crónica de Segunda - Crónica de São João (mais uma)

Pim, pim, pim – os martelinhos, martelando-me – gosto desta toada gerúndica, quase brasileira na velocidade da escrita, sinto que me perfuma a crónica, adocica-ma (e ela precisa).

Pim, pim, pim – vai ser assim toda a noite (ou terá sido, quando lerem esta crónica).

Pim, pim, pim – ano após ano, nada de diferente, pouco se modifica. É normal, é São João, há sardinhas, manjericos, alhos porros, erva cidreira, balões que sobem livres atiçados pela alegria simples do povo. Irreprimível nesta noite, mesmo agora, mesmo abafado, contraído, contrariado, o povo há-de saber soltar-se no São João.

Pim, pim, pim – sempre adorei esta festa da comunhão de pobres e ricos, uma noite tão invulgar. E que infeliz ficava se tinha de lhe faltar, como quando tive o acidente e não me permitiram a martelada no crânio ainda mal recomposto, ou quando um ano ficaste doente Pai, lembras-te? Uma outra vez tinha um exame qualquer mesmo em cima da data. Mas foram poucas as vezes que não fui saudar o santo nas ruas.

Pim, pim, pim – o cheiro a sardinhas vai entranhar-se em casa se não fechar já a janela, agora o foguetório,  pum, patapum, patum, pum, pum, o fogo de artifício, barulho, mais barulho, tanto barulho.

Pim, pim, pim – alguém me apaga a luz? O som? Por favor devolvam-me o silêncio. Tenho direito ao meu silêncio, preciso de silêncio já! Que horas são? Que horas eram quando morreste Pai? Que horas eram quando abracei a Mãe e lhe disse “agora somos só nós”. Que horas eram da madrugada, Pai? Ah mas umas sardinhas é que era, disseste e com uma pinguinha para empurrar, que bom seria. Não te dei sardinhas mas dei-te a comida à boca, o leite creme, como a um bébé, e reprimendas, “não te portes mal, não tires a máscara do oxigénio, vá!”, como a um bébé.

A mulher da cintigrafia “dê os óculos, a carteira e tudo o que tiver nos bolsos à mãe”  - eu a rir-me, tu a piscares-me o olho. “Ah! Desculpe, à filha!” e pouco depois lá tornava “Agora a Mãe vai blá, blá, blá” eu a encolher os ombros e tu a sorrires sob o bigode.

Iguais, tu e eu, o mesmo molde – “é a cara do Pai” – pois é. Ainda é, o Pai é que já não há.

Pim, pim, pim – que horas eram quando te foste Pai e nos fizeste vir pela madrugada, de táxi, a atravessar o Sâo João do Porto e chegar à nossa casa vazia de ti. Já estava vaia de ti há três semanas, não estranhamos mas estranhamos que agora para sempre. Agora tu nunca mais. Só as tuas coisas, os teus papeis, as tuas roupas, o teu cheiro, mas tu já não.

Pim, pim, pim – lá fora os martelos – pim, pim, pim – agora como dantes, pela madrugada, não sei a que horas – pim, pim, pim.


Mas alguém me cala o filho da puta do martelanço?

segunda-feira, maio 14, 2012

Crónica de Segunda - Aviões.

Não gosto do “Ídolos”, como aliás não gosto de nenhum dos seus congéneres, “Operações Triunfo”, “Vozes de Portugal” e quejandos festivais da otite, mas gosto ainda menos do “Ídolos” do que dos outros porque associa ao triste engodo de uma carreira de sucesso a um bando de impúberes sonhadores de luzes e estrelato, o extra da humilhação pública, ingrediente essencial para obter audiências. Um carcamano boçal (alegremo-nos, de início eram dois!), de talentos musicais desconhecidos, é pago, felizmente não do erário público, para amesquinhar adolescentes transidos, as futuras estrelas que nos hão-de encher os ecrãs e os ouvidos com indiscutíveis talentos de durabilidade entre 3 a 6 meses, mostrando-lhes, enfim, quem manda – faz-me sempre recordar um personagem de Lobo Antunes que se servia das criadas mas sempre sem tirar o chapéu para mostrar quem mandava.
Teve, porém, este programa a veleidade, pela mão de um dos seus imberbes concorrentes, já não sei qual – o programa não está feito para que nos lembremos deles – nem se foi aprovado para o distinto grupo que domingo após domingo há-de encher as “galas” do programa (eu ainda sou do tempo em que uma gala era um espectáculo de excelência onde eram convidados os mais talentosos cantores ou bandas, os mesmos que agora se sentam em casa a ver o seu lugar ocupado por estudantes de vedeta no desemprego), de trazer uma velha canção de 2009 que poucos conheciam para o topo dos airplays. Acho mesmo que o rapaz, terminadas as hostilidades idólicas, deveria ser medalhado pelos “Azeitonas” por os ter catapultado para festivais de verão e queimas de fitas.
Falo, claro, de “Anda comigo ver os aviões”. Conheço uma meia dúzia de músicas dos “azeitonas” mas também não conhecia esta e fiquei, como muitos, encantada pela sua melodia e lirismo adocicado. E vinha eu, por aqui abaixo, cheia de ganas de escrever crónica, não sobre os “Ídolos” nem sobre este interprete que já esqueci mas sim sobre esta música, ou melhor ainda sobre a ideia desta música e de transcender para além da história contada pela canção. A magnífica ilusão de ter alguém com quem ver aviões, os navios em leixões ou os foguetões. Uma impossível imagem de silêncio e paz em tempo de ruído como é o nosso. Que bom se alguém nos amparasse o silêncio e nos afagasse o cabelo enquanto connosco visse passar os aviões ou os pássaros em voo rasante e enquanto o mar ao longe fizesse a banda sonora, sem lugar a luzes nem ribalta. Só silêncio, paz, quase solidão.

sexta-feira, abril 13, 2012

Revista-me Nº 05

A ver se a coisa dá.
Aqui no link está a Revista-Me Nº 05, http://issuu.com/edita-me/docs/revistame05 com muita coisinha boa de se ler (e de borla, o que nos dias que correm é sempre bom), com prosa, poesia, contos e descontos, entrevistas, críticas, a sempre pertinente rúbrica da Ana Salgado com quem aprendemos mais e melhor português, a crítica literária da Celeste Pereira, desta feita sobre "Uma mentira mil vezes repetida", o mais recente do Manuel Jorge Marmelo, acompanhando-se de entrevista com o autor, etc, etc, etc (e não percam os etcéteras que são do melhor).
Lá está, como habitualmente, a minha Crónica do Interior, pela página 6 e mais lá adiante, na 53, uma entrevista onde falamos de tudo, literatura, vida, amor e morte.
Boas leituras :)

segunda-feira, abril 09, 2012

Crónica de Segunda - Crónica turbilhonante

Gosto de palavras e, o que é pior, suponho que elas gostam de mim. Há reciprocidade neste querer mútuo. Elas perseguem-me, bem as sinto a invadirem-me e eu, apanhando-as, reduzo-as à sua insignificância de serem apenas palavras, símbolos, dobro-as até me servirem e se isso não acontecer livro-me delas. Embora às vezes elas me persigam, nem me sempre me deixam a rédea solta.
Vem tudo isto a propósito de uma dessas palavrinhas que subitamente me assaltou, desta feita em Inglês, língua com a qual me imiscuí (vejam como é bela esta palavra, tão cheia de si, de intimidade, quase obscena – imiscuir!) pelos nove anos, coisa incomum à época e com a qual, além de simpatizar, tenho a familiaridade suficiente para que também na língua de Shakespeare (que de sua língua, aquela que ele falava e escrevia, é tão similar como o Português de hoje é com o de Camões ou de Gil Vicente) para que também em Inglês me sinta periodicamente perseguida por uma ou outra palavra.
“Turmoil” foi o termo que ficou a percutir-me a moleirinha, sabendo eu das suas inúmeras traduções, aquela que mais se assemelhava à palavra original na sua dicção e musicalidade, sem lhe tirar o sentido, seria tumulto. Não sendo, como disse, a única tradução possível, tumulto é uma bela palavra, com uma forte ideia de revolução, de convulsão, de redemoinho, tudo o que afinal a original continha apenas com um pouco mais de onomatopeia como é mais frequente nas palavras inglesas. “Turmoil” faz-me lembrar um redemoinho, como “Whirlpool” que quer também dizer isso mesmo.
E fiquei então digressando sobre isso dentro de mim e transformando “Turmoil”, tumulto, numa outra palavra que podia também servir de tradução - torvelinho, palavra tão bela, tão cheia de curvas e retorcidos que parece ela mesmo um caracol, um tumulto, um “turmoil”.
Assim, meus amigos, estimados e pacientes leitores, encho eu uma crónica enovelada com o tumulto, o torvelinho que esta palavra deu dentro de mim. Podia antes ter-vos falado do tumulto interior que me levou a ser assaltada pelo “turmoil” mas nunca gostei de diários pessoais transformados em crónicas, ou poemas ou mesmo romances. Por isso aqui fica esta tumultuosa crónica toda em torno das palavras (reparem na aliteração “toda em torno”, faltou dizer “toda em torno de um só termo” .
Despeço-me, com amizade, até que outra tumultuosa ideia me desate um torvelinho de palavras.

segunda-feira, março 12, 2012

Crónica de Segunda - Ode aos heróis desaparecidos (ou "nevermind" = deixa lá)

Em 94 ouvia-se boa música, aquela que se fazia então. Kurt Cobain punha termo à vida enquanto Abrunhosa enchia a transbordar os seus primeiros coliseus. La dentro gritávamos “talvez foder” como uma catarse de todos os nossos males, quase me atrevia a dizer que até Cobain, se lá estivesse, gritaria também e quiçá encontraria dentro de si mesmo um qualquer caminho que lhe obviasse o sofrimento.

Uma pessoa que me é próxima viajou para Seattle, pedi-lhe, por brincadeira, que me trouxesse um pin dos Nirvana. Não o tendo encontrado trouxe-me antes uma versão deluxe de aniversário do “Nevermind”. Vinha a ouvi-lo no carro e a pensar que bastava ouvi-lo, ao Kurt, mesmo que nada se entendesse de inglês, bastava ouvi-lo e prever-lhe o fim trágico, cantava como quem grita “ajudem-me, sinto-me à beira do abismo!”

Cobain, natural de Seattle, lugar meio lúgubre, começou por encontrar na música a única saída possível a quem não tinha nem horizonte nem futuro. A música era todo o horizonte que possuía. Só que junto com a música veio o futuro e o que antes era catarse tornou-se profissão, a profissão trouxe-lhe o estrelato e para isso o miúdo de Seattle não estava preparado. Depressa a música passou do lugar para onde fugir para o lugar de onde fugir e o horizonte que antes era tornou-se abismo de onde não havia por onde escapar, excepto da forma que ele encontrou.

É difícil o equilíbrio entre a arte, coisa intangível, dor do criador e a arte objecto de consumo que também serve para alimentar o criador. Conheci um músico que se recusava a ganhar um centavo com a música que escrevia e interpretava, tinha outra profissão, alegando que a música não se vende. Conheci quem fizesse poemas na rua a troco de umas moedas e um outro que vendia poemas também dessa maneira mas escritos, em folha impressa, de autores famosos. Florbela, agora glosada em filme, escolheu o aniversário para desistir quando desistiu de achar infinitos nos poemas. Sá Carneiro achou também a sua forma de “ir de burro” e tantos outros que não encontraram o equilíbrio entre o chão e transcendente.

Há os que escrevem para não enlouquecer e os que enlouquecem escrevendo. Eu publico uns versos sem verdadeira esperança que sejam lidos nem verdadeira certeza que valham um chavo. Nunca ganhei nada com eles e vivo bem com isso, mas não me importava. O meu último herói musical virou júri de um programa de venda de ilusões e fama fácil. Já não tenho heróis, é oficial! No peito cada um com as suas dores, as dores de parto também – a cada poema um ai, a cada nota sangue e lágrimas. A agonia do fim rasgada apenas pelas clareiras de luz que a arte permite.

Fico-me, só, na minha confusão de afectos.

Não sei se te abrace, Kurt, e afague a tua cabeça em sangue contra o meu peito, ou se te abrace, Pedro, feliz de não seres herói mas estares vivo e, como eu, teres de comer e filhos para criar e nada disso se compadecer com delírios de arte e infinito que não alimentam senão a alma faminta mas deixam o corpo morrer de inanição.

Na falta de melhor, e de heróis, abraço-me a mim mesma, fechando os braços em torno dos joelhos enquanto procuro no escuro um poema, a centelha de infinito que hoje me há-de fazer arder por dentro.

segunda-feira, março 05, 2012

Crónica de Segunda - Para sempre.

“Nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."


As palavras são de Miguel Sousa Tavares e creio que foram escritas a propósito do falecimento de Sophia, sua Mãe. A mim chegaram-me pela mão da minha amiga Susana, no meu aniversário há cerca de 3 anos, inscritas no verso da belíssima fotografia, de sua autoria, que ilustra a crónica, onde juntou palavras suas com os votos habituais e onde acrescentava que tinha gostado muito de me conhecer e esperando poder contar ainda com a minha companhia. Ofereceu-me, nessa altura, um livro que conjugava três afectos que tínhamos em comum, a fotografia, a poesia e o silêncio. Lembrou-se ela que eu gostaria de receber tal prenda pelo aniversário e acertou, claro. Era assim a Susana, generosa, sensível e discreta. É assim que tem de ser, a sensibilidade não é coisa que se atire ao nariz dos outros como cartão de visita de primeira amostra. A sensibilidade é, também ela, uma coisa discreta que se sente no convívio, quando conseguimos na nossa vida insana parar para saírmos de nós e sentirmos o outro, o que é coisa rara nos dias que correm.

Trabalhamos juntas talvez um ano, e foi bom, não sei se te cheguei a dizer, Susana. Não me lembro se te disse, talvez não tenha dito – sou tão má nessa coisa de dizer sentimentos – que também eu gostei de te conhecer, de trabalhar contigo, de partilhar noites de sono, suor e inquietações e riso e pândega e piadas parvas e poemas e fotografias e silêncios e cansaço. Não me lembro se te disse que não me custou nada, nem quando tentava adormecer pela madrugada a ouvir-te nas teclas do computador click, clack, click, clack, como um relógio que fosse queimando o tempo que ainda nos restava. O que custa é agora, saber que não vais estar mais lá para captar estas águas barrentas de Douro, o barco à deriva perdido que podia muito bem ser eu e afinal eras tu. É isso que custa, é isso que dói. E saber que as palavras são frouxas, dizem tão pouco e servem para rigorosamente nada. E saber que a vida é injusta. Mesmo quando somos nós que encontramos o caminho do fim, não é menos injusta por isso. Espero que onde quer que estejas tenhas encontrado uma qualquer luz que te faltava, nós por cá não te esqueceremos. Na memória tudo pode ser nosso para sempre.
Até sempre, Amiga.

Crónica de Segunda - Para sempre.

“Nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

As palavras são de Miguel Sousa Tavares e creio que foram escritas a propósito do falecimento de Sophia, sua Mãe. A mim chegaram-me pela mão da minha amiga Susana, no meu aniversário há cerca de 3 anos, inscritas no verso da belíssima fotografia, de sua autoria, que ilustra a crónica, onde juntou palavras suas com os votos habituais e onde acrescentava que tinha gostado muito de me conhecer e esperando poder contar ainda com a minha companhia. Ofereceu-me, nessa altura, um livro que conjugava três afectos que tínhamos em comum, a fotografia, a poesia e o silêncio. Lembrou-se ela que eu gostaria de receber tal prenda pelo aniversário e acertou, claro. Era assim a Susana, generosa, sensível e discreta. É assim que tem de ser, a sensibilidade não é coisa que se atire ao nariz dos outros como cartão de visita de primeira amostra. A sensibilidade é, também ela, uma coisa discreta que se sente no convívio, quando conseguimos na nossa vida insana parar para saírmos de nós e sentirmos o outro, o que é coisa rara nos dias que correm.
Trabalhámos juntas talvez um ano, e foi bom, não sei se te cheguei a dizer, Susana. Não me lembro se te disse, talvez não tenha dito – sou tão má nessa coisa de dizer sentimentos – que também eu gostei de te conhecer, de trabalhar contigo, de partilhar noites de sono, suor e inquietações e riso e pândega e piadas parvas e poemas e fotografias e silêncios e cansaço. Não me lembro se te disse que não me custou nada, nem quando tentava adormecer pela madrugada a ouvir-te nas teclas do computador click, clack, click, clack, como um relógio que fosse queimando o tempo que ainda nos restava. O que custa é agora, saber que não vais estar mais lá para captar estas águas barrentas de Douro, o barco à deriva perdido que podia muito bem ser eu e afinal eras tu. É isso que custa, é isso que dói. E saber que as palavras são frouxas, dizem tão pouco e servem para rigorosamente nada. E saber que a vida é injusta. Mesmo quando somos nós que encontramos o caminho do fim, não é menos injusta por isso. Espero que onde quer que estejas tenhas encontrado uma qualquer luz que te faltava, nós por cá não te esqueceremos. Na memória tudo pode ser nosso para sempre.
Até sempre, Amiga.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Crónica de Segunda - O chão e a glória.

No dia em que escrevo esta crónica acordei com a notícia da trágica morte de Whitney Houston. Conhecida pela sua voz imensa, nos últimos anos Whitney, era mais vezes notícia pelas más razões, a dependência do álcool e de drogas à mistura com cenas de violência doméstica por parte do seu ex-marido Chris Brown, eram mais das vezes a razão das luzes sobre a cantora soul.
Quem acompanhou este seu titubeante percurso, não na música mas na vida, talvez não estranhasse este trágico final, tão trágico como antes foram, recentemente, os de Amy Whinehouse ou Michael Jackson e os de tantos outros ao longo do tempo. Desde Elvis Presley, Marilyn Monroe, Jimmy Hendrix, Kurt Cobain e a interminável lista continuaria e, suponho, continuará pelo futuro também.
Em comum estas figuras têm o estrelato, o talento ainda que diverso entre elas, e uma forma trágica de morte em directa relação com dependências e estas parecendo cosidas às angústias de cada uma delas.
Esta nefasta lista devolve-me à memória um pensamento recorrente sobre estes “palhaços” que nós, público embevecido, aplaudimos sem saber – geralmente mesmo sem pretender saber – se por trás da máscara risonha, o palhaço chora. Quantas vezes face a um palco nos teremos questionado sobre que angústias, que tragédias, que dores, transportam em si os que estão do lado de lá, do lado das luzes, os que nos encantam cantando-nos o seu talento? Muito poucas, certamente.
Lembro-me ainda da descrição, muito a propósito, da glória literária de Cesariny, dizia ele: “Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa.”
Pergunto-me então, quando se apagam as luzes da ribalta, quando se despem as lantejoulas e se limpam as pinturas, quando se fecham as portas do teatro e lentamente o carro se afasta levando o artista para longe da louca adrenalina do espectáculo e a magia da música fica para trás, quantos silêncios ficam por preencher, quantas angústias por resolver? Quem, depois de caír o pano, ficará para limpar as lágrimas que sobrarem, enquanto o público inebriado abandona a sala levando para casa o coração cheio de magia e música que iluminará por algum tempo mais a banalidade dos seus próprios dias fará apagar as suas angústias e incertezas?
Quem depois das feéricas luzes ficará para depositar o corpo exaurido do artista no leito de repouso e lhe há-de abraçar as angústias e calar as lágrimas? Quem não o deixará ir sozinho para casa depois das palmas e da descida do pedestal?

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Crónica de Segunda - "Crónica a uma folha em branco"

Tenho esta coisa com as páginas em branco. Olho-as e elas começam a bulir comigo e eu a bulir com elas. Depois é um desatar de palavras a escorregar pelo papel fora e a folha a ficar escrita, riscada a preto, feia, com a minha letra feia, e assim de ar sujo. Se ao menos eu tivesse uma caligrafia bonita, redondinha e pura, com pontinhos nos is iguaizinhos a bolinhas bonitinhas, engraçadinhas, a imitar corações. Mas nada disso, é feia, meia oblíqua e incerta, toda escrita às pressas, como quem foge ou não quer ser percebida.
Depois é todo um avolumar de signos e sentidos, de estórias e histórias, ideias e objectos, planos e pensamentos, coisas que eu não saberia arrumar sem as palavras. Fico então pasmada a perceber para que servem. Servem sobretudo para encher páginas – como esta – e servem para nos iludir que o abstracto que há em nós pode ser objectivado com estes conjuntos de letras. E eu às vezes a querer ver-me livre delas, e das coisas objectivas e ser só coisas vagas, indefinidas, às vezes mesmo sem sentido (para o que serve o sentido mesmo?). Eu a querer fugir e pensar, sei lá, música em vez de palavras, sentir perfumes em vez das palavras que tantas vezes picam, como cactos, agulhas, coisas irritantes que não nos deixam descansar o raio das palavras. E eu a vê-las a crescer na folha antes em branco, tão purinha, tão capaz de ser ainda qualquer coisa, antes de eu a pisar com as minhas palavras e a minha letra feia, escrita a preto, ainda por cima – era a caneta que tinha – se ao menos fosse a azul, sempre ficava mais bonitinha. Menos feia, quero eu dizer, quase se afiguraria a uma pintura abstracta, um desenho mais propriamente. Gosto das bic cristal azuis e parkers, deslizam bem, ajudam-me a sujar a folha com estilo, sem me emperrar as ideias.
Santo Deus, olha tantas! Tantas palavras já aqui plasmadas. Tanto papel sujo, podia ter sido uma folha tão bonita, com desenhos, por exemplo, se eu soubesse desenhar, ou notas de música, uma pauta, se eu percebesse alguma coisa de música, até podia ter sido um belo objecto literário, ter-lhe nascido no seu interior um romance, um conto, um poema, um previsível prémio nobel da Literatura. Ou, pelo menos, uma carta de amor, mesmo que desastrada, uma que dissesse “amo-te” a tremer na linha, de letras embargadas, mesmo que fosse ridícula, como as que Ofélia recebia do Fernando. Ridícula como toda a carta de amor deve ser, como todo o Amor o é, também.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Crónica de Segunda - "Um clássico da literatura"

Nada melhor no regresso das crónicas do que dissertar sobre os clássicos da literatura. Vem isto a propósito de não ter tema sobre o qual falar e pretender servir-me de uma conversa que ouvi por acidente num daqueles cafés em que as mesas são tão próximas que é difícil não ficarmos por dentro da conversa dos vizinhos do lado. Calhou que na mesa junto à minha duas jovens conversavam sobre as suas vidinhas e embora em tom discreto veio parar ao meio da minha leitura de jornal a seguinte pérola “só gostava de ter um dom que me fizesse perceber o que ele sente, ou o que fez de tudo o que antes sentia”. É claro que depressa me desliguei da conversa entre as duas que pouco ou nada me interessava para pôr o neurónio a viajar nas ondas da parvoíce. Pus-me a imaginar o mais velho e batido clássico da literatura, do indivíduo que sai para comprar tabaco e nunca mais regressa deixando a angústia do regresso em quem fica. Tudo isso seguido de imagens fílmicas de alguém que desce uma rua, mesmo diante dos nossos olhos e no primeiro cruzamento desvia o percurso numa esquina e assim desaparece, do nosso olhar e da nossa mente, depressa substituída a sua imagem por outra qualquer que melhor nos distraia. Assim vamos fazendo o nosso percurso tornando-nos, face aos outros, quantas vezes o mesmo clássico da literatura, desaparecendo quando íamos comprar tabaco ainda que, ou sobretudo se, não formos fumadores. São inúmeros os poderes da invisibilidade, cómodos, simpáticos, muito uteis para a sobrevivência longe dos tão difíceis afectos. Então não é melhor sermos nuvens, coisas etéreas que desaparecem nas esquinas, um não-sei-quê de poético e ao mesmo tempo trágico, do que ficar a matutar tristemente no que o outro há-de ter ficado a pensar ou a sentir? Foi antes ou depois do maço de tabaco? O amor eterno (enquanto dura) é maior ou menor, tem mais ou menos eternidade quando nos afastamos? É ou não verdade que para sempre só é real quando tudo acaba? Pensem nisso, entretanto vou ali comprar tabaco. Volto já.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Crónica de Segunda - Grandes títulos

Como leitora sei bem da importância do título de um livro para despertar a atenção do leitor. Isso e as primeiras frases dos capítulos, sobretudo a primeira de todas, para leitores que, como eu, gostam de foçar nos livros que vão percorrendo nos escaparates, abrindo-os à toa quando o título desperta alguma luz.
Vem isto a propósito de as minhas penúltima e última crónicas terem deturpado títulos conhecidos de outros autores, sendo a última “Que farei quando tudo seca” obviamente derivada do belo título de Lobo Antunes “Que farei quando tudo arde”. Lobo Antunes é, aliás, exímio para espantosos títulos capazes de me porem a flutuar, sendo que na sua maioria a relação directa entre estes o assunto do livro é ténue ou inexistente. Foi precisamente ao tentar achar assunto para a crónica que me fiquei a pensar sobre estes assuntos e a relembrar quão belo é este título e um outro do mesmo autor “Não entres tão depressa nessa noite escura”. Qualquer um dos dois, títulos de romances, daria o de um belo poema, aliás, mais concretamente qualquer um dos dois títulos é em si mesmo um poema, atravessados que são de sentidos múltiplos a apelar ao sensitivo, a libertar a imaginação, a fazer-nos desagarrar do chão como convém a um poema. E dei por mim a emperrar de novo no primeiro “Que farei quando tudo arde?” A questionar-me interiormente sobre isso mesmo, o que fazer quando em nós uma estopa nos queima por dentro e nos ensandece, quando à volta tudo parece apagar os caminhos de regresso a nós, quando as labaredas nos impedem de partir e de chegar e subitamente nos achamos sós e sem rumo num labirinto de chamas e quando a cinza fica, depois, no lugar de tudo o que antes houvera. Latifúndios de antracite, um universo de vazio, de destroços, que farei quando nada sobra no rescaldo? E foi ainda a matutar nos títulos de Lobo Antunes que me lembrei de como termina o outro romance de cujo título aqui falei “Não entres tão depressa nessa noite escura”, prometendo que já chega e não me alongo sobre tudo quanto esta frase me faz laborar mentalmente, cito, embora de memória e com isso mais sujeita ao erro, a frase de encerramento desse romance, ela própria outro poema, Maria Clara, a personagem diz/pensa – “Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor, toco-me com o dedo no vidro.”

segunda-feira, outubro 31, 2011

Crónica de Segunda - "Que farei quando tudo seca?"

É dia de crónica, as horas passam, está chuva lá fora e já não posso usar as nuvens em Paris como metáfora para o cinzento que vai cá dentro ou noutro sítio qualquer. É que agora há nuvens mesmo aqui ao pé, não preciso imaginar outro país, outro lugar, corta-me esse prazer. O sol cedeu vez ao Outono carregadinho de nuvens e elas carregadinhas de chuva. Acontece que a chuva me deprime e embrutece, com a chuva não há crónica que se aguente face à minha sisudez de humores. Sobre o que escrever então?
Começa logo por me faltar imaginação para a crónica e para a literatura, aqui mais perto já ao ouvido lhe confesso, estimado leitor (eu às vezes acho que alguém me lê), para a vida também já vai faltando a paciência e a imaginação, creio que a isso chamam envelhecimento – os mais sagazes chamam-lhe amadurecimento para não se verem ao espelho com rugas e cãs.
Vai daí que tenha apenas uma frase que inventei por inventar e nem sequer é totalmente original – há alguém original, afinal? – já que é uma deturpação de um genial título de Lobo Antunes – “Que farei quando tudo seca?” Viria a questão a propósito do que fazer em nós quando nos deixamos secar? Secar ao ponto de as lágrimas não correrem e em vez delas um esgar, ou pior, em vez delas nada, um olhar vazio, seco por dentro, uma expressão inexpressiva, a expressão de não expressar nada, de não sentir nada. Secar por dentro é deixar de sentir ou sentir mas não notar, ou é um não notar de sentir pouco, quase nada, já passou, já não dói! Já não – enfim.
“Que farei quando tudo seca?” – que mais coisas podemos deixar secar dentro de nós além das lágrimas? A ternura? O beijo lançado no vento que nunca chegou a pousar? A memória antes tão viva e agora uma sombra apenas, um nevoeiro sobre os olhos – “Lembras-te? – Acho que não me recordo bem.” Tudo tão vago como se apenas sonhado. E nem uma ideia para esta crónica, tudo seco.
Chuva nos telhados, vento a empurrar as nuvens para mais perto. Dantes gostava de nuvens, quando achava que também eu nuvem, não cinzenta, branquinha, assim de ar virginal, não a ameaçar chuva mas antes a proteger do mal. Mas era tudo invenção, tolice, metáfora bem tosca, tudo tão irreal.
Tudo seco. Que farei quando tudo seca e nem lágrimas? Molhada a face de chuva apenas. Só esta chuva para inundar o chão tão seco, tão inóspito, desértico, a abrir fendas de secura, um cacto também ele em risco de perecer. Só a chuva a fingir lágrimas do céu para nos molhar.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Crónica de Segunda - A Crónica dos Bons Malucos

O título da crónica foi ostensivamente deturpado do famoso livro de Mário Zambujal. Talvez me tenha vindo à ideia por agora o mesmo livro, que ainda não li e do qual não vi a versão cinematográfica, ter sido transformado 30 anos depois em musical. Certo é que me lembrei deste título como um bom corolário a uma sucessão de acontecimentos fortuitos numa tarde avulsa de um dia qualquer – como o de hoje.
Num elevador sou puxada para cima apesar de pretender descer. Atingindo o último andar do prédio o elevador abre as portas e um rapaz, que o esperava, antes de entrar questiona: “vai descer?”. Respondo-lhe que sim, acrescento “não tem mais por onde subir!”. Trocamos sorrisos, nada mais. Ele continua a responder a mensagens no telemóvel e eu continuo a pensar numa conversa de ontem – sobre a impossibilidade de termos um GPS interior, que nos mostrasse os mapas dentro de nós por onde temos de nos orientar.
Adiante numa montra de relógios caros um sem-abrigo, provavelmente drogado, certamente maluco, comenta para ele próprio mas em voz audível, os preços dos relógios, entremeando as frases com vernáculo “Este ainda é mais caro que aquele, F****-se!” sem se perceber se é presumível comprador, eventual assaltante ou apenas um apreciador de mecanismos e engrenagens nos intervalos permitidos pelo consumo de ácidos. Onde o levaria o GPS interior? Tic-tac, tic-tac, tic-tac, onde iria parar?
Num centro comercial, sentada a uma mesa com um copo de cerveja uma velha fala sozinha, como se ao seu lado se encontrasse uma amiga imaginária a quem contar os desmandos da vida, peripécias dos filhos ou dos netos, coisas de mulher viúva, mas só, gesticulando para a amiga, esperando a sua anuência “estás a ver?”. Não sei se amiga viu. Levantou-se pouco depois, sacudindo a saia roçada e um pouco amarfanhada, caminhando titubeante com o copo de cerveja na mão. O GPS levá-la-ia a que lugar?
Num café da cidade uns olhos que não são bem os teus mas são tão parecidos que eu quase que acreditei seres tu. Um perfume que não sendo o teu ficaria igual preso nas pontas dos meus dedos, eu sei. Deixa-me tocar-te os olhos como dantes, não agora não, não agora que o meu GPS interior deu a volta, enganou-se, ficou tonto, enlouqueceu “faça inversão de marcha assim que possível” – não sei se vai ser – “faça inversão de marcha assim que possível” – não sei se consigo – “faça inversão de marcha assim que possível”.
Ainda queria ter tempo de perguntar-te porque estão tristes os teus olhos mas… “faça inversão de marcha assim que possível” – nunca se deve desobedecer ao GPS, sob pena de nos perdermos e nunca mais nos conseguirmos encontrar!

segunda-feira, outubro 17, 2011

Crónica de Segunda - Os amigos dos médicos

Esta Crónica de Segunda de hoje não é bem uma crónica mas antes um preito à solidão. Não me entendam mal – gosto de estar só. Costumo dizer, e acredito no que digo, que me agrada tanto a solidão como uma boa companhia. Não que conseguisse prevalecer em solidão mas também não sobreviveria sem longos momentos dela, gratos momentos de silêncio e interioridade onde me sento e escrevo coisas como esta.
Vem esta crónica a propósito de uma classe que conheço bem por inerência à minha vida particular – os médicos. Não falarei sobre eles mas sobre os seus amigos.
Dividem-se em duas distintas classes os amigos dos médicos – outros médicos e os outros, os não médicos. Os primeiros surgem pelas contingências próprias do exercício da profissão – uns apanhados nos bancos da faculdade e outros tantos pela via do trabalho, colegas de serviço, de hospital, de centro de saúde, etc. São uma seita de difícil digestão, se em volta de uma mesa é certinha a conversa sobre doenças e doentes, seus mandos e desmandos, antibióticos e clisteres, quando não são conversas ainda mais avessas por versarem escalas de urgência, noites perdidas, todo um rosário de maleitas concernentes a uma vida sem rumo ou rotinas de volta da dor, das feridas, da miséria e do nojo dos outros. Amámo-los mas fugimos deles, ninguém tem paciência para se ouvir em eco e se ver ao espelho todo o dia.
Há, depois, os não médicos. Desde colegas da escola perdidos no tempo ao vizinho do andar de cima com quem se fez amizade, as suas proveniências são as mais diversas. Com todos eles partilhamos segredos e ternuras, gargalhadas e lágrimas, como é natural. Têm estes amigos um traço comum, os amigos dos médicos não ligam para dizer “tenho saudades tuas” nem para dizer “sinto-te a falta” ou uma coisa mais comezinha tal como “Como estás? Tenho pensado em ti.” Os amigos dos médicos ligam para dizer “dói-me a cabeça” ou “dói-me a barriga”. Há que perceber isto como uma vantagem anti-pieguice, os amigos dos médicos quando os encontram na rua não lhes pedem abraços, pedem receitas e se vêm com saúde atestados de robustez. Claro que entre uma dor e outra nos desabam contra o peito e, amigos que somos, serenámo-los no afago do colo – e é tão bom isso! – quando a dor se acalma levantam voo como um pássaro ferido a quem tivéssemos remendado a asa e é bonito o seu voo que ficamos a vigiar de longe, sabendo sempre que hão-de voltar. Reconhecerão o lugar e a ele voltarão quando a próxima gripe lhes pegar. Abençoado seja o micróbio que os ataca.
E se estou aqui sozinha neste café não é porque os amigos que tenho não me sintam a falta – que tolice! É apenas porque os tratei bem, vacinados e vitaminados nada lhes dói. Graças a Deus!

segunda-feira, outubro 10, 2011

Crónica de Segunda - As nuvens no céu de Paris

Aviso prévio: A Crónica de Segunda de hoje sai fortemente prejudicada pelas nuvens no céu – estão aqui a sussurrar-me que o céu do Porto não está nublado e as temperaturas de Verão não permitem sequer pensar que o Outono já tomou conta do calendário – pois que seja, que me interessa lá isso – a Crónica de Segunda de hoje sai fortemente prejudicada pelas nuvens no céu de Paris (como espero não ter leitores em Paris e como o Inverno costuma chegar lá primeiro do que cá espero que não me venha bater no ombro, despertando-me para a dolorosa realidade de não estar Paris coberta de nuvens, como convém à minha crónica de hoje).
São certamente essas nuvens, não pode ser outra coisa, que me trazem à memória, como aos velhinhos, imagens fugazes, como frames de um filme a sépia (que liga muito bem com as nuvens e nestas coisas da literatura, mesmo a mais croniqueira, devemos ter atenção à estética, ao estilo), coisas antigas de antigos abraços, piadas tontas de amigos entretanto perdidos, intimidades, contradições, sorrisos que se estendiam nos lábios e ameaçavam prolongar-se nos olhares, sorrateiras cumplicidades que ganhavam vida como um segredo, duas mãos que se apertassem fingindo um abraço inteiro que ninguém mais vê.
De repente, sob o efeito dos céus cinzentos… de Paris, os cafés do Porto, velhos, antigos, que eu percorro por vício, são subitamente lugares vazios, bafientos, incómodos, povoados de memórias boas mas distantes, como sombras que tentamos em vão agarrar com as pontas dos dedos, fantasmas evanescentes, coisas que parecem existir apenas na nossa imaginação ou por trás, muito por trás das nuvens que cobrem os céus… de Paris. Um perfume que fica muito para lá do corpo, já na sua ausência, serve de memória e enquanto o olfacto nos deixar não nos sentimos sós, somos a mesma realidade ficcionada, um ralenti da cena passada, o actor sai de cena mas deixa o seu lastro sob a forma de perfume e é como se ainda ali estivesse, um holograma, uma imagem apenas imaginada, mas ali, enquanto o perfume permanecer. Tudo isso a ser levado e lavado pelo vento, o mesmo que há-de empurrar as nuvens dos céus de Paris, de Londres, Nova Iorque, Xangai, que sei eu! Sei que olho o céu que me cobre, límpido, sem nuvens, tiro o casaco, aqui é Verão, e penso que a brisa que acabou de me percorrer talvez chegue tão longe como Paris, Londres, Xangai… e leve as nuvens que tanto prejudicaram esta crónica que podia muito bem acabar com um sorriso!

domingo, outubro 09, 2011

Os escombros (uma reposição)

Há uns anos, escrevi este poema ao descer as escadas da Casa da Música. Ontem estive lá outra vez e lembrei-me (como poderia não me lembrar...) deste já velho poema. Partilho-o (em reposição do meu meu defunto blog o "era de noite chovia" para quem ainda se lembrar dele)


Foto de Luís Lobo Henriques








O que resta nos escombros do silêncio

Serás, amanhã, notícia no jornal
e isso que importa,
não estarei lá para ler
de ti a folha morta,
já não te acompanho no silêncio
das portadas,
já de nós não há memória
ao descermos estas escadas

fomos rio impetuoso
que esbarrou sem liberdade,
na barragem construída
entre rugas de saudade,
fomos vento que passou
tão leve e ledo,
que o amanhã tornou-se um ontem
feito medo.
Fomos alma, fomos cor,
ou coisa breve,
e fomos morrendo os dois
cheios de neve
nos meandros da memória
que nos serve

esta liquefeita
angústia que se bebe