terça-feira, agosto 17, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Prostituição de afectos

Vista da minha esplanada: Três alminhas penadas cruzam repetidamente a rua com cartazes prometendo abraços grátis, com a respectiva tradução em inglês (nestas coisas há que ser internacional). Já vi, por diversas vezes, estas ou outras criaturas oferecendo o gratuito amplexo e sempre essa ideia me deixa um íntimo amargor tal qual como quando me cruzo com a velhice e o ranço estampados em tantos rostos, quase sempre de olhares vazios, certamente muito precisando de um abraço não este, esbanjado por tolice e juventude, mas um que apertasse até ao fundo da alma e lavasse com ele o musgo das lágrimas.
(Apontamento: reler José Gomes Ferreira)

Relembro que um dia encontrei um blog – que suponho já esteja transformado em livro que é o que acaba por acontecer a todos os blogs descritivos do dia-a-dia particularmente se tiverem origem em experiencias, ainda que temporárias, de prostituição – em que um desempregado havia criado uma indústria florescente a vender, pasme-se, horas de amizade. O cavalheiro em causa não alugava a cama nem qualquer recreio libidinoso, alugava a amizade aos seus clientes. Pessoa a quem faltasse um amigo para o desabafo, para ajudar a escolher roupa nos saldos ou mesmo para acompanhar nas horas difíceis como a ida ao dentista, contratava os seus serviços et voilá um amigo ao dispor de vossência! – Prostituto de amizade, portanto.
Um dia observei um doente carcomido – o termo é literal – por um tumor que, aquando do diagnóstico, teria recusado prosseguir o estudo ou efectuar qualquer terapêutica. Quando me procurou tinha uma orelha em decomposição, com cartilagem corroída empapada em pus, apresentando-se pobremente vestido, com um casacão de malha velho muito pingão e emborbotado, contrastando com o bem-falar e gentileza do doente. Sabendo da sua sumária recusa em deixar-se tratar questionei-o sobre filhos, respondeu-me que não tinha, não sendo casado referiu vagamente que dividia a vida com uma mulher mais jovem mas sacudiu o assunto com um aceno que compreendi e não prossegui o interrogatório. O problema que o levara até mim era minor e foi ilusoriamente resolvido até novo achaque. No momento era o que trazia incomodado e o futuro daquele homem era o momento presente. Uma vez esse assunto resolvido, não tinha mais a oferecer-lhe.
Acompanhei-o à porta e, já a cruzar o umbral, voltou-se e disse-me “sabe doutora, só queria que ela viesse depressa”. Tive tanta vontade de o abraçar – prostituta de abraços.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Quando voltares

Quando voltares
talvez voltes poema,
um risco no céu de Primavera
ou o cantar primevo do pássaro nocturno
numa tarde de Inverno.

Quando voltares
poderás ser a rima
entrecortada no meio do verso,
um soneto inacabado
ou uma ode de esperança.

Quando voltares

e o mundo te devolver
a luz primeira
que antes havia
no teu olhar de criança.

domingo, agosto 15, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Tentativa de esgotar-me por dentro em viagem por caminhos dentro de mim.

Aprendi com Enrique Vila Matas, numa sua crónica em “Da cidade nervosa” que George Perec havia escrito “Tentativa de esgotar um lugar parisiense” tendo como lugar de observação o Café dela Mairie. Seguindo-lhe a ideia o próprio Vila Matas se apostou em repeti-lo, tentando “esgotar” a Praça Rovira em Barcelona. Procuravam descrever exaustivamente tudo o que, naqueles lugares já amplamente inventariados de estátuas, igrejas e monumentos, “se passa quando não se passa nada. Só o tempo, as pessoas, os carros, as ruas.”
Pareceu-me bem e foi a pensar nisto que dei por mim a “esgotar” não um lugar de onde me colocasse a observar o mundo mas os vários lugares por onde passei (escrevo o relato à posteriori) de um caminho antigo que percorri na vida umas mil vezes, ora de ida, ora de regresso, ora de passeio, ora de passagem e, ultimamente, cada vez menos.
Estar ainda de férias no meio de Agosto e no Porto pode ser visto como uma bênção. As horas parecem mais compridas e as ruas mais largas. Lojas fechadas dão à cidade um ar sépia fantasmagórico. São poucas as hipóteses de encontrar as pessoas do costume nos lugares usuais, é como se de repente fizéssemos um passeio à nossa cidade sem ser na nossa cidade, como numa viagem ao tempo, como regressar a um país deserto.
Desço a Rua António Carneyro como numa viagem a mim mesma, por dentro da memória, eis-me de novo, na rua de sempre, mas noutro tempo que não o antigo, que não o presente, num tempo imaginado. Aproveito a sombra, espreito o pequeno café que mudou de nome, vazio, defunto, fechado até novas aulas. É uma da tarde. O “Pires de Lima”, construção maciça e feia de cimento armado em vários blocos, fechadíssimo para férias, nem vivalma. Mais abaixo o “Raínha”, meu velho liceu. Olho-o do outro lado da rua. Deixou de ser escola, é DREN. Pergunto-me a serventia agora de um pavilhão com ginásio, com mais do que uma sala, balneários, os laboratórios e anfiteatros de física, química e biologia, que uso lhes estará destinado, uma escola construída de raiz para o ser… Talvez essas zonas sejam agora uma montureira de papéis, como o jardim o é de silvas? Haverá funcionários para esgotar tanto espaço, tanta sala de aulas? Ou será este edifício como um enorme navio fantasma de ventre inchado mas vazio? Nunca lá entrei. A porta envidraçada foi reformulada, tem ar de repartição modernaça. A estátua da Raínha Santa que centrava o átrio, com flores no regaço (e onde alguém por vezes depositava rosas verdadeiras numa pequena jarra) desapareceu. A Raínha tem como dia litúrgico o mesmo do meu aniversário, era uma coincidência que me divertia – são rosas, senhor, são rosas – e agora o que são? E onde estão as rosas? O que diria disto o Rei Poeta D. Deniz? Abaixo ainda o “Raínha velho” que agora é Comando da PSP, suponho que melhor serviria à Polícia o ginásio e o espaço aberto, enfim, mas ei-los no velho edifício por fora muito pintado. Por dentro não conheço agora, mas aposto que a velha escada ainda range e num certo degrau – clack. Há este aspecto romântico e português que faz lembrar cenário de filmes – a polícia numa velha casa de tipo senhorial com escadas em madeira que rangem.
Adiante. Atravesso para o Heroísmo. Na esquina a “Estrela”, fechada. Continuo na direcção do Largo Soares dos Reis. À esquerda a “Cozinha do Manel”, fechada até tantos de Agosto, férias. Sempre que ali passo recordo não as vezes que lá jantei, o que comi, com quem estava ou o que se disse mas antes uma noite de Outubro em que entrei e saí (coisa tipo filme de espionagem barato), nem passei do balcão, mas à saída transportava um tesouro mágico nas mãos, apertando-o contra o peito e que guardo até hoje na gaveta da memória, há coisas que nunca se esquecem. Em frente o “Nova Sintra” fechado. A antiga residência/escritório de um Amigo devidamente desactivado, possivelmente para sempre, mais uma casa fantasma. Os cortinados já cinza-tule corridos, as portadas fechadas por trás deles, numa janela inferior – terá cave aquilo? – um vidro partido, algum lixo enfiado entre o vidro e a grade. Tive vontade de lhe tocar ao batente, a ver se alguma alma penada me responderia do outro lado. Abaixo ainda a defunta oficina/stand da Renault, fechada e abandonada há anos sem fim. A loja de fotografia fechada. Um barbeiro à antiga, fechado. Adiante o STOP, fantasma de centro comercial apagado, agora pintado de cores garridas. Stop 1 e Stop 2 – a primeira matiné sozinha – Lobijovem com Michael J. Fox e a filmografia do Tom Cruise – Top Gun, A cor do dinheiro e o que mais houvesse. Diz que agora é um armazém de bandas de garagem, um alfobre de talentos – pois será – visto de fora, as luzes apagadas nas lojas desaparecidas é bem um fantasma. Uma velha de perna arcada, saia rodada e puxo na cabeça entra decidida e vai manquelitando os primeiros degraus – punk rock, penso. O “Rei dos lanches”, fechado. Na esquina seguinte o Museu Militar, antiga sede da Pide, quantos lá não terão sido torturados até chibar ou morrer? Lembrei o José Gomes Ferreira a engolir poemas em seco quando ali veio visitar o filho. A seguir o cemitério, tenho lá jazigo, para que nunca me falte a velha rua de sempre quando eu própria me for desta para melhor. Tenho lá o meu Pai, não bem o meu Pai mas o que lhe resta dos ossos, desarticulados, sem carne, sem vida – aquilo não é o meu Pai, o meu Pai é a fotografia dos olhos iguais aos meus só que castanhos e maiores, quando muito o Pai é também as flores cobrindo a lápide, vivas e inteiras como ele era, vivo e inteiro, não aquele armazém de ossos fora do lugar, encaixotados. Na verdade nesta volta toda esta rua me parece já um longo cemitério de afectos, eu própria várias vezes morta – primeiro eu-criança, depois eu-adolescente, depois eu-adulta, eu, enfim, várias vezes morta dentro de mim.
Adiante. Atravesso o largo e sento-me na confeitaria. Venho cá menos vezes agora, fica-me menos à mão. Não peço nada, o Sr. Luís ainda se lembra – é café com adoçante, curto. É daqui que escrevo estas tolices antes que me arrefeça o café e a memória. Talvez fique aqui a fazer rodopiar o troco de moedas sobre a mesa.

quarta-feira, agosto 11, 2010

"Já é tarde. Deixa ficar."

Gostei de ver-te Amigo velho, de velhas andanças. Reconhecer-te os traços na luz fria da noite, melhorar o que trazia de ti, de memória. Reconhecer-te a tez, a textura da pele, pormenores pequenos que havia perdido faz tanto tempo.
O tempo corrói-nos, carcomendo-nos as miudezas da memória e vamos perdendo a nitidez, o pormenor, em pouco tempo somos outros e mal nos reconhecemos.
Foi bom distinguir velhos sinais, imperfeições e rugas, por um momento tornaste a ser real ao invés de um espectro mental que muda de cor e textura conforme uma fotografia, ora mais cinzenta ora mais colorida, ora mais de perto, ora mais ao longe.
Distância perfeita aquela, cinco ou seis metros, talvez sete, entre nós, impedindo o toque, a intimidade, o diálogo, a fala, o cheiro e no entanto, ia jurar que naquele espaço os nossos silêncios se tocaram, como só dois silêncios sabem tocar-se, roçando-se discretos e íntimos, como dois velhos silêncios, habituados a estarem calados, traduzindo sem palavras tudo quanto não precisa ser dito.
À distância de cinco ou seis metros, talvez sete, reencontrei em ti mais do que procurava. Um sorriso apertado entre os dentes, um certo ondular no andar como uma dança incoerente, algumas palavras não para mim mas que eu conhecia como dantes, um certo olhar sem destino fixo, os gestos, sempre os mesmos, que eu já quase esquecera no fundo da ideia.
À distância de cinco, seis metros, talvez sete, não mais, achei-te um pouco mais magro, não se perde nada, ficas melhor mais seco de carnes, um tanto mais velho diria, é normal, o tempo é inexorável, não se perde fixo nas lembranças que guardamos.
Foi bom ver-te Amigo velho, à distância de cinco, seis metros, não mais que sete, assim de frente, viagem melancólica a quando te conheci e, de repente, como se um filme, esta e outra e ainda outra imagem percorrendo-me por dentro, avancei uns anos nas recordações, desde aquela imagem parada deste mesmo rio visto de outro lugar. Antes era de um lado o rio e de outro a multidão, agora era o rio de um lado e de outro o coração – em caso de dúvida escolher o coração. Lembra-me para que não me esqueça de que lado me bates por dentro.

sábado, julho 31, 2010

Qual de ti?

A quem buscas
no declive,
no vórtice,
na voragem
acutilante,
na verborreia,
na luz pálida
do inebriante néon
que te rodeia?

Um dia
ver-te-ás ao espelho,
olharás o fundo
dos teus olhos
com os mesmos olhos
que se reflectem.
Precipita-te
sobre a imagem – vê – eras
afinal tu
quem procuravas encontrar e
afinal estavas ali,
num lugar dentro de ti!
Ou estarás apenas
por trás do reflexo?
Haverá outro Tu
do lado de lá do espelho?
Serás Tu e Tu como
Tu e um seu Eu alheio?

Qual preferes?
Esse que sente
ou o do reflexo?
Qual deles é
e qual deles mente?
O que abraça?
Ou o que mora
reflectido por trás
da vidraça?

Serás tu
ou o teu eco
quem passa?


In “Circulação Transversa”

quarta-feira, junho 23, 2010

Sobre os anjos

Em memória de meu Pai
07/12/1931 - 24/06/1996

Sobre os anjos


Se os anjos partissem,
em silêncio,
e se do seu silêncio
se fizesse casa,
um refúgio,
um lugar de sombras pardas,
onde cada um de nós
se pudesse recolher

a horas tardas.


Se os anjos partissem,
em sossego,
e se desse sossego
se fizesse templo,
um regaço,
um lugar para além do frio,
onde cada um de nós
se pudesse proteger

deste vazio.

Se os anjos regressassem,
noite adentro,
em silêncio vigilantes,
como o vento,
beijando-nos no sono como um sonho,
suspensos já, seríamos no tempo,
e esta inundação de luz

por dentro.

quinta-feira, junho 17, 2010

Momento de Pub

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça"


Isto acontece no Stand A05 - Clube Literário do Porto (zona azul) já perto da estátua do D.Pedro IV.

domingo, junho 13, 2010

Poema da possessão




A manhã nascia anelada
nos teus cabelos,
eu abria os olhos,
de mansinho, só
para te ver dormir
antes que o Sol
embirrento
te viesse despertar e descobrir.

Enquanto dormisses
serias só meu,
por ninguém mais
te poder ver assim
despido de ti…


In "Circulação Transversa"

segunda-feira, junho 07, 2010

Momento de Pub


O "Luz Vertical" (imagem à esquerda) e o "Urgência das Palavras" (imagem inferior) ...



...estão neste momento a residir aqui...



Feira do Livro do Porto, Av. Aliados, stand A05 - Clube Literário do Porto

quinta-feira, maio 13, 2010

Uns mais perto e outros mais Longe


Ou ai que bonito que eu fico na Fnac!

domingo, maio 09, 2010

Pub - FNAC Stª Catarina


domingo, maio 02, 2010

Sombra

Hoje a minha sombra
vai-te perseguir,
vai andar contigo
onde tiveres de ir.

Podes ir para longe,
ou para qualquer lugar,
que hoje a minha sombra
não te vai largar,
como um fantasma,
uma assombração,
um crime perfeito
sem absolvição,
a ocupar-te o leito,
a fugir-te da mão,
hoje a minha sombra
vai ser o teu chão.

No calor das luzes,
no meio do caos,
quando és quem seduzes
ou se te são maus,
no topo do mundo
ou no fim, no buraco,
hás-de encontrar a sombra
na gola do casaco.

Se te sentires rei
ou um vão perdedor,
terás sempre a sombra
a amparar-te a dor.

quinta-feira, abril 29, 2010

Sobre a lua e outras maluquices


Escrevi isto em 2002, vejam só, 2002! Vejam lá para o que me havia de dar!

O luar


A lua era o quarto minguante
na rua que qual quimera
se apagou no teu semblante
e se fez fogo, espada, fera!

A lua era uma maga
de bruxedo triunfante
e é a lua quem te apaga
e te acende a cada instante.

A lua veio liberta
contar-me histórias banais
pôs-me a vida tão deserta
fez-me as horas tão iguais.

A lua não perguntou
nem quis ter hora marcada,
veio entrando e em mim entrou
deixou-me a alma penada.

A lua é uma vingança
que me deixa o teu olhar
que ao mirar-me adia a esperança
que eu tenho de te encontrar.

A lua já nem existe
estou eu só a imaginar
que qualquer luar é triste
se nele não te divisar.

segunda-feira, abril 19, 2010

Revista WE - Entrevista

Clicke sobre a foto para conseguir ler:


quinta-feira, abril 15, 2010

Não te vou levar

Não te vou levar,
vais ficar aqui,
hás-de pernoitar
só, dentro de ti.
Não te vou levar,
já não adianta,
perdeste o lugar,
já ninguém te canta.

E se amanhã
ainda te lembrares,
há-de ser depois
de quando acordares
e deres por ela
que o barco partiu,
que insuflou a vela,
e se ergueu nas pás,
que eu parti na sela
mas tu ainda cá estás.

quarta-feira, abril 14, 2010

Foste

O teu corpo vai pelas ruas,
ainda te vejo a afastar,
e eu tenho saudades tuas,
da pele nublada de luas,
no teu peito a respirar.

Tornas a curva da esquina,
mas permaneces aqui,
trocas as voltas à sina,
diz-me
- agora és feliz?

Não sei que tempo é o teu,
se ainda te perdes pelo céu,
se ainda me gritas o nome,
ou se já tudo se some
onde a alma se perdeu.

Tornas a curva do tempo,
mas permaneces em mim,
é teu este compasso lento,
diz-me
- chegamos ao fim?

quarta-feira, abril 07, 2010

Tudo sobre caixas-de-música

Este poema nunca ficou "direito", ando há anos a escrevê-lo mas não vai lá das pernas... estou prestes a desistir dele e, como tal, deixo-o aqui mesmo "perneta".
É, afinal, tudo sobre caixas-de-música, o encanto que despertam também em mim e as estórias doces de outras músicas feitas "sobre" as das caixas-de-música, máquinas de som.



A bailarina

Eu sei que dos teus olhos
saltava sempre a bailarina
da caixa de música

E os seus braços erguidos,
em arco, sobre a cabeça,
não eram senão os mesmos
que te abraçavam o sono

Sei que, nos teus olhos,
a bailarina em pontas,
rodopio infinito,
é uma mulher só tua,
perdida nos teus braços de menino
que se esqueceu de crescer

E o amor que achavas na ânsia
com que a noite te despia
era sempre a bailarina,
que na caixinha da infância,
em música te adormecia

Recordas ainda, nos teus olhos,
(tu o sabes e os escondes,
por pudor, que outros também)
a doce epifania
dos seus braços no teu peito,
a bailarina que inventada, rodopia
crescendo em ti um bailado perfeito

Em pontas
na ponta do teu desejo,
bailando-te pelos olhos
como um beijo,
do teu corpo vai fazendo a melodia,
com a língua molhada no teu solfejo.

segunda-feira, março 29, 2010

O miúdo que pregava pregos numa tábua

Li hoje, de uma assentada, o livro d’”O miúdo que pregava pregos numa tábua” e aprendi mais sobre literatura e música do que se tivesse lido uma enciclopédia sobre ambos os assuntos. Estou, como habitualmente, apaixonada por este Poeta. É um amor antigo que nasceu mais das prosas que dos poemas. Os seus poemas são quase sempre demasiado épicos, soube agora que pretendia continuar “Os Lusíadas”, acho que tem conseguido.
Não sei ainda se votarei nele para Presidente, provavelmente sim, já o fiz uma vez. É, aliás, uma desresponsabilização por saber que os Poetas nunca são Presidentes da República. Deve mesmo ser doloroso ao Poeta vestir-se de político, espartilhar-se à mentira e ao conformismo mesmo o seu que é, ainda assim, inconformado. Os Poetas, sabemos, andam sempre nus, e a pele do corpo é o Poema.
Nunca falei com Manuel Alegre, nem sei se gostaria de o fazer. Assim, sem o conhecer ou falar com ele posso continuar apaixonada pelo Poeta que escreve as mais belas prosas, mas gostava só de perguntar-lhe o porquê da ausência de vírgulas no correr do Poema, isso gostava.
Poemas para o tempo que não há.

domingo, março 28, 2010

Se eu escrevesse canções escrevia assim...

Distância

Fomos anjos do espanto,
dos desejos contidos,
conhecemo-nos tanto,
com todos os sentidos.

Tatuamos a pele
com silêncios e vento
mas o sol foi cruel
acordou-nos do tempo.

E é tão longe
o lugar onde fomos,
tão longe
para onde partimos,
é tão longe
a distância a que estamos,
tão longe
quando nos despedimos.

E na memória dos dias
e na das noites perdidas,
temos tantas relíquias,
de distâncias vencidas.

Há tanto espaço entre nós
e tanto tempo vertido,
que duvido que os nós
cegos façam sentido.

E é tão longe
o lugar onde fomos,
tão longe
para onde partimos,
é tão longe
a distância a que estamos,
tão longe
quando não nos sentimos.

sexta-feira, março 26, 2010

O que resta nos escombros do silêncio

Serás, amanhã, notícia no jornal
e isso que importa,
não estarei lá para ler
de ti a folha morta,
já não te acompanho no silêncio
das portadas,
já de nós não há memória
ao descermos estas escadas

fomos rio impetuoso
que esbarrou sem liberdade,
na barragem construída
entre rugas de saudade,
fomos vento que passou
tão leve e ledo,
que o amanhã tornou-se um ontem

feito medo.
Fomos alma, fomos cor,
ou coisa breve,
e fomos morrendo os dois
cheios de neve
nos meandros da memória
que nos serve esta liquefeita
angústia que se bebe

domingo, março 21, 2010

Bom dia da Poesia

Creio em um só Poema,
de luz alva, evidente
e fria,
um Poema raso,
de rima sombria,
poema escape, poema sinfonia.

Creio em um só Poema,
de luzes fixas, presas
na cidade,
um Poema de água lisa,
de água forte,
Poema promessa de liberdade.

Creio em um só Poema,
poema coisa que ainda há-de vir,
poema rasgo, poema de vestir,
poema soneto, poema souvenir.


Creio em um só poema
…e nos teus olhos que só eu sei despir.

sábado, março 13, 2010

Eros & Thanatos

Eu também gostaria de contar aqui, neste blog, como foi o debate sobre "Eros & Thanatos - o Amor e a Morte na Poesia" - no qual tive o gosto de participar, com o Rui Almeida como interlocutor e com a Celeste Pereira a moderar...
Mas sobre o dito debate, que aconteceu no dia 12 no Clube Literário do Porto, diz a Celeste muito melhor do que eu no seu blog http://www.donagataempontodecruz.com/ querem ver? Ora vejam lá AQUI!

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Sobre o que o tempo nos faz

Quando eu te conheci não usavas relógio

Quando eu te conheci não usavas relógio.
Rasgavas o tempo com as pontas dos dedos
como se rasgasses desejos,
ou murmúrios
ou medos…

Quando eu te conheci não usavas relógio.
O tempo adormecia-te nas mãos
e as mãos percorriam o marfim
no esteio de um tempo de todos os silêncios.

Quando eu te conheci
o tempo soprava-te no rosto,
a afagar-te as rugas e as imperfeições,
a beijar-te nos olhos a dor
de todos os cansaços,
o peso no peito
de todas as aflições.

Agora prende-se ao teu pulso
o burburinho das horas,
um ataque de ponteiros
na engrenagem dos segundos,
como se o teu tempo
coubesse fechado
no espaço redondo
de um vidro quadrado

Quando eu te conheci não usavas relógio.

Então agora diz-me…

Que horas são?
Na tua confusão de silêncios e demoras
que horas são em ti,
agora que é em ti
que se prendem as horas?

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Créditos devidos

Por incorrecção minha a imagem apresentada no post anterior não apresentava nem título nem autor. Aqui vai a correcta identificação com os meus pedidos de desculpa.

Girl before a mirror - P. R. Picasso

domingo, fevereiro 14, 2010

Happy Valentine

A propósito do dia de S. Valentim como propósito de falar sobre ele… o AMOR


Que pode uma criatura senão
entre outras criaturas AMAR?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre e até de olhos vidrados AMAR?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, fevereiro 13, 2010

Só à noite os gatos são pardos

“Só à noite os gatos são pardos” é uma antologia de textos inéditos de autores contemporâneos organizada por Jorge Velhote e Patrícia Pereira e prefaciado por Sara Canelhas. Este livro foi editado pelo "Cantinho do Tareco - Associação de Protecção Animal e pretende angariar fundos para acarinhar mais alguns tarecos.

Participam:

A.Dassilva O., Alexandra Malheiro, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Barbedo, António Ferra, António José Queirós, Aurelino Costa, Bruno Bréu, Carlos Lizán, Carlos Poças Falcão, Cristina Carvalho, Diogo Alcoforado, Fernando de Castro Branco, Fernando Eschevarría, Francisco Duarte Mangas, Gabriel Mário Dia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, João Manuel Ribeiro, Jorge Velhote, José Álvaro Afonso, José Emílio-Nelson, José Leon Machado, José Miguel Braga, José Viale Moutinho, Luís Filipe Cristóvão, Luísa Ribeiro, Maria do Carmo Serén, Mário Anacleto, Nuno Dempster, Renato Roque, Rosa Alice Branco, Rui Amaral Mendes, Rui Lage, Sara Canelhas, Soledade Santos, Tiago Worth Nicolau, Teresa Tudela, Vergílio Alberto Vieira, Victor Vicente, Vítor Oliveira Jorge.



A minha contribuição:


Um gato em Janeiro

Eras tu quem primeiro anunciava
o silêncio na casa,
levantavas o corpo, arqueando-o
e descias a escada,
acudindo ao sol, que te murchava no colo
seu derradeiro laivo insidioso.

Às vezes
confundia-se o gelo verde dos teus olhos
com a luz de um semáforo
aberto e livre
ao Invernoso cio da cidade.

domingo, fevereiro 07, 2010

Divina Música - Assístolia

Recebi hoje o livro Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música – edição comemorativa do 25º aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu Dr. José Azeredo Perdigão – selecção e organização da responsabilidade do Poeta Amadeu Baptista, a quem agradeço o convite para nela participar.

Desta antologia fazem parte poemas dos seguintes autores:

Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.



A minha contribuição …

Assístolia


Se encostasse o ouvido,
podia escutar o silêncio,
lentamente,
escorrendo pelas paredes .

Se parasse o ruidoso tropel
do coração (enquanto encostava o ouvido)
podia ouvir a música,
brotando dentro do silêncio.

Só era preciso suster a respiração…
e… parar,
subitamente,

o bater do coração.

domingo, janeiro 31, 2010

Os mortos vivos

Nunca fui grande adepta de vampiros, nunca estes exerceram sobre mim nenhuma especial sedução por forma a que me dedicasse a literatura ou cinefilia à volta desse tema. Sempre me pareceram um pouco pirosos estes avantesmas de caninos afiados, apesar das inúmeras estórias, desde os tempos áureos de Bela Lugosi, nunca me impressionaram por aí adiante, questões de gosto.
Eis senão quando estes se tornaram a moda, diria mesmo a coqueluche televisiva, cinematográfica e literária, como que possuídos pelas dentuças ferradas nos seus pescoços os responsáveis pelo fabrico de filmes e seriezecas de toda a espécie desataram a sugar o sangue dos espectadores gota a gota até à exaustão do tema (e da paciência).
Perante tal assoberbamento do tempo de antena pela vampiragem (da qual só me vem à ideia o “eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada” de boa memória e sempre actualizado com a política corrente) apeteceu-me divagar não sobre este mito sanguessuga mas sobre outro não menos tétrico e deprimente que é o dos mortos-vivos.
Dava-se-me agora ficar a dissertar sobre aqueles que, vivos, deixamos morrer dentro de nós ou mesmo quando somos nós que os outros deixam morrer sem avisar, sobre a forma como vamos perdendo espaço uns nos outros até sermos os mais reais zombies que a ficção não ousa imitar. Sobre isso poderia fazer o tema de uma crónica, qualquer coisa como um brinde aos zombies, aos mortos-vivos que eu deixei acontecer ou que deixaram que eu deixasse e assim por aí fora… Seria certamente um belo tema para a crónica mas, subitamente, uma voz em mim “mas tu não escreves crónicas!” – pois não, mas não me importaria!


quarta-feira, janeiro 27, 2010

Fame and fortune - Part II

Agora a sério:

Entrevista sobre "Luz Vertical" em País Positivo ---> Aqui

terça-feira, janeiro 26, 2010

Fame and fortune!

Na Visão de 21/01/2010:



Eu mais ele (o "Luz Vertical") na Visão em tanto destaque e tão grande estilo que as setas.... errr... são só para enganar!

sábado, janeiro 23, 2010

"Porque somos sempre sós, dentro de nós"

Há uns anos largos ofereci, pelo seu aniversário, este poema a uma Amiga. Foi uma maldade, uma coisa feia, oferecer assim um poema tão escuro a falar do tempo que passa e da solidão inerente a cada um de nós a alguém que fazia pouco mais que metade da minha própria idade. Hoje fica aqui por me andar a perseguir esta ideia… “porque somos sempre sós dentro de nós”.

Sós


Apagaram-se as velas
e a lua vem
finalmente
abraçar-te o corpo
em solidão.

Este é o poema
que lerás no fim
da festa dos teus anos
quando só
o silêncio te fizer
companhia junto
com as memórias
dos desenganos.

Porque somos sempre nós,
só nós
por dentro de apenas
nós,
pouco mais que
silêncio e solidão.

E é em nós,
por dentro sós,
tão sós,
que o tempo encontra
o chão onde pousar,
como um vento só
que sofre
sem ter onde soprar.

Porque somos nós,
só nós,
sim que somos
sempre sós dentro de nós,
apesar da multidão
é sempre dentro
de nós que o tempo
repousa no fim dos segundos,
os primeiros minutos,
os anos e as décadas.

Agora apagas as luzes
perfeitas da ilusão
e acendes dentro de ti
um sol de propulsão
que rasga o sorriso
pintado nos olhos
e dança na letra
de uma canção.
Abres a janela,
é só mais um ano,
marca-sentinela
de nada…
Risca o calendário
na data marcada
e volta-te ao contrário
e faz-te de novo
à estrada,
na busca,
na ânsia
de sei lá de quê…

quarta-feira, janeiro 13, 2010

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."

Lá está ele... o sacana!


Livraria Latina (R. Santa Catarina)


Uma Luz Vertical a romper a chuva.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Clube de Leitores - O que eu gostaria que fosse...



É já este domingo que irá decorrer a 3ª sessão do "Clube de Leitores Edita-Me/Clube Literário do Porto", no Piano Bar do Clube Literário do Porto, pelas 16:00.

Nesta sessão, as obras em destaque serão:

“Luz Vertical” de Alexandra Malheiro
“Poemas Suados a Negro” de Adrião Pereira da Cunha

O evento contará ainda com a participação musical de Pedro Lopes (ao piano) e Bianca Almeida (na voz) bem como das diseurs Celeste Pereira e Olga Oliveira.

Considerem-se desde já todos convidados.
Venham conhecer os autores e trocar com eles, as vossas próprias palavras.


Clube Literário Do Porto
www.clubeliterariodoporto.co.pt
R. da Alfândega 22


O que eu gostaria que fosse era um lugar de discussão à poesia, enfim... uma festa!

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Happy New Year

I can't stand losing you


Eu sei que pode paracer parvo (é parvo) mas em vez de glorificar o dia com uma música de época prefiro comemorar o Ano Novo com memórias de Anos Velhos.

Happy New Year to You!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

"Foi bonita a festa, pá!"

Dia 19, no Ateneu Comercial, no meio da barafunda da baixa e das compras de Natal,




uma mão cheia de Amigos encheram a Sala da Fonte



e fizeram dos meus poemas uma Festa.



A todos eles o meu Muito Obrigada.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Luz Vertical

(clique para aumentar a imagem)

Próximo Sábado, dia 19 de Dezembro, pelas 17H00, no Ateneu Comercial do Porto, será a sessão de lançamento do meu novo livro, “Luz Vertical”.
O livro, prefaciado por Pedro Abrunhosa, tem a chancela da Edita-Me e tem capa e ilustrações de Miguel Ministro.
No lançamento dir-se-á poemas e ouvir-se-á o piano de Pedro Lopes.
Gostava muito de o (a) ver por lá!


A minha página: http://www.alexandramalheiro.no.sapo.pt/

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Sobre a chuva

Divagações


I


Sonho com um luar
onde houvesse ainda anjos displicentes
que se deixassem afogar
em velhas mágoas.
Sonho um sol
de fúrias quentes,
onde o empréstimo dos dias
se soltasse na loucura...


II

Chove.
Nem posso acreditar
como chove a minha cidade,
chove em mim
e chove sobre todos...
nem posso acreditar
o quanto chove esta cidade...
Se ao menos chovesse anjos,
ou estrelas,
ou almas...
Mas nada.
Nada mais que a fria chuva
que me molha
e que molha a minha cidade
em que chove, chove, chove.
Nem posso acreditar
o quanto a minha cidade chove...


III


Hoje dei por mim
a escrever desesperadamente.
A escrever sobre os carros e as pessoas,
sobre as ruas,
sobre as cores,
até sobre ti -
que foste apenas
mais um café
tomado entre a pressa dos sabores.



In "Sombras de Noite"

terça-feira, dezembro 01, 2009

I love you/I don't love you

Há, no amor, tanta coisa que não se diz,
como o sabor a sal
no mar dos teus cabelos,
ou o dourado que o sol
deixou ao beijar-te a pele pelo Verão.

Há, no amor, tanta coisa que não se diz,
como a impavidez serena
de um outro alvor terreno,
um silêncio abstracto que dorme
junto com a sombra da noite
a rememoriar no sono a fluidez dos teus lábios.

Há, no amor, tanta coisa que não se diz,
por serem interditos às palavras
todos os fervores que só se podem sentir.

sábado, novembro 28, 2009

Algumas considerações sobre o Facebook.



O facebook é um lugar estranho... uns andam na máfia de bolso, apanham ossos de peru, trocam e vendem armas e matam uns indivíduos que ninguém nunca viu; a maioria anda a plantar hortaliças e periodicamente encontra gatos, ovelhas negras e frutas mirradas a precisar de fertilizante e há, claro, uns palermas como eu que o usam para anunciar coisas sem interesse nenhum - tais como que vou lançar um livro no dia 19 de Dezembro (sim, é poesia - poesia? que é isso? isso fertiliza?) e esperam que esta malta entre uma apanha da azeitona e dois tiros na lambreta lá apareça (lá é no Ateneu Comercial do Porto) para me dar um hallo e, já agora, comprar o livro (e entre uma regadela da hortaliça e uma troca de maços de notas) ainda consigam ler o livro e tudo!

terça-feira, novembro 24, 2009

Coisas sobre olhos e olhares

Tanta vez parados,
os teus olhos,
embriaguez de alma,
usura,
insolícita virtude
dos que só sabem amar
e adormecer em silêncio.

Tanta vez parados,
os teus olhos,
no movimento que, ausente,
se assenta no remoinhar
calado do ribeiro largo
onde me deixas a afogar

Tanta vez parados,
os teus olhos,
engrossam nuvens
sombreando a luz,
coalhada pelo tempo…

o tempo
que perdemos
…em silêncio

sexta-feira, novembro 20, 2009

Crónica inacabada do indigente que lia Kerouac

A meu lado na FNAC sentou-se um sem-abrigo, facilmente reconhecido pelo seu ar andrajoso e o cheiro sui generis a interromper-me a leitura. Uma longa e mal cuidada barba compunha o visual do meu companheiro de livraria. Sentou-se com um livro de Jack Kerouac que abriu pelo meio procurando a página onde antes, decerto, havia interrompido a leitura. Daria um bom assuntode crónica, pensei e comecei a escrever sobre este assunto. Subitamente estaquei - mas eu não escrevo crónicas! E deixei de escrever sobre isto. Mas não me importaria - pensei.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Divórcio

Acelera o passo,
divorcia-te dos poemas mais ingratos,
os mais difíceis de entender.

domingo, outubro 25, 2009

"Morning has broken"

Era manhã e não sabíamos
como juntos iríamos romper
as ténues águas do silêncio,
vencer o corpo contra o corpo,
atrito de pele atravessada pelo vento.

Avançaríamos em elipse,
derrubando a fronteira invisível,
horizontalizando o tempo,
sem querer saber se o vento
nos fustiga ou nos afaga.

Era manhã e não sabíamos
onde a noite nos iria encontrar.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Desert road

Tu virás
e me dirás dos dias
a cor mais sóbria.
O vento te trará
com o pó da estrada
como se foras deserto
ou paisagem
ou um beijo
que te pedi um dia
de passagem

sábado, outubro 17, 2009

The long and winding road


Vem dizer-me onde é a estrada...

sábado, outubro 10, 2009

Sim, eu acredito!


sexta-feira, outubro 09, 2009

É agora, Porto!

Voto Elisa Ferreira, já o perceberam, não o escondi, antes pelo contrário.

Sinto-me na obrigação de explicar aos que seguem este blog que foi criado para ser “de poesia” a razão pela qual interrompi o seu intuito lírico para torná-lo uma espécie de palanque político. A razão é apenas uma: salvar o Porto, a minha cidade!
Não sou militante de nenhum partido, já votei em diferentes eleições em diferentes partidos, limito-me a seguir o meu próprio ideário. Não costumo manifestar-me tão abertamente e desta feita apenas o faço por duas razões muito importantes:

1. É uma absoluta necessidade fazer alguma coisa para tirar o Porto deste fosso em que se encontra, esta estagnação, esta definhação o que, já se percebeu, só se consegue afastando Rui Rio e a sua equipa e não vale a pena tentar eleger vereadores bem intencionados que rapidamente se transformam em muleta do “chefe”.

2. Acredito, de facto, com convicção verdadeira no projecto de Elisa Ferreira. Elisa Ferreira tem PROJECTO e este agrada-me
É, por isso, bem mais do que apenas afastar quem tanto mal tem feito a esta cidade mas é pôr em seu lugar quem tem um projecto sustentável, dinâmico e credível para fazer desta periferia de Gaia numa grande cidade, a segunda do país, capital do Noroeste Peninsular.
Obrigada Drª Elisa Ferreira, seja qual for o resultado final, pela forma digna como se bateu nesta campanha e a melhor sorte para si, que é o mesmo que dizer, a melhor sorte para nós Portuenses.

Aos meus leitores agradeço a paciência (e se votarem no Porto também agradecia que pensassem muito bem sobre tudo isto e dessem uma vista de olhos aos últimos posts). A poesia segue dentro de momentos.

quinta-feira, outubro 08, 2009

"Porto: onde a incompetência é poder."

1. Há sete anos atrás a cidade do Porto meteu o travão de mão e engatou a marcha-atrás. Um percurso muito pouco digno para aquela que era a segunda maior cidade desta espécie de país. Se já era pouco, o Porto passou, volvidos estes anos, a ser nada. Esta é a cidade que ficará para a História como a antagonista suprema de si própria, num processo autofágico que a levou ao estado crónico de depressão visível em todas as frentes. Da economia à cultura, das indústrias ao comércio de proximidade, da habitação à demografia, o Porto fez tudo, mas tudo mal, perdendo competitividade, expressão, riqueza, voz, numa palavra: poder. Hoje somos a cidade que estorva a dinâmica de Gaia, a mobilidade de Matosinhos e que compete mano-a-mano na região com Gondomar, esse outro símbolo de inteligência suprema na gestão autárquica que temos de suportar. Eu gostava de evitar escrever o nome ‘Rui Rio’, porque simplesmente não acho que o senhor mereça constar em qualquer anal que não o da mais pura mediocridade. Mas como o dito é o Presidente da Câmara Municipal do Porto, não há como dissecar a doença sem falar do vírus. Nem sei por onde começar! Pelas estatísticas, que atiram a zona do grande Porto para patamares na contribuição do PIB nacional para os quais temos de recuar 15 anos? Pela desertificação do miolo da cidade que remete para uma realidade de que só há memória no década de 40? Para o envelhecimento da população, abandonada num centro histórico cujas fachadas revelam uma degradação que envergonharia qualquer vila de província? Pelo negar das mais-valias culturais, das referências históricas, pela repressão da sua massa crítica, pela perseguição aos opositores do regime camarário? Pela hostilização gratuita aos emblemas que tornaram em tempos o Porto numa quase-metrópole? Pelo facto de em todo o país ser aqui que há mais famílias carenciadas a recorrer ao Rendimento Mínimo Garantido, sendo a proporção de 1 em cada 17 agregados familiares a fazê-lo? Pelo silêncio constante e sistemático em relação ao poder central que atira agora para Lisboa o traçado do Metro? Pela falência dos programas de Reabilitação Urbana e de reinserção social? Pela demagogia? Pelas negociatas pseudo-urbanísticas que quase levaram à demolição de, por exemplo, o emblemático Mercado do Bolhão? Pela ausência de ambição? De sonho? Enfim, a lista seria interminável e não quero tirar o pódio aos políticos a quem compete a oposição. A verdade é que o Porto é hoje uma sombra de si próprio, sem opinião, sem carácter, desprovido de rosto, onde apenas alguns tem a coragem de confrontar o poder e quase todos se calam perante a boçalidade com que este presidente tem ocupado aquele que já foi um dos mais prestigiantes cargos da vida política nacional. Uma cidade é um ‘work in progress’, um espaço multifuncional onde tudo se debate, onde tudo acontece. Uma trama intertextual de processos e vivências que é preciso alimentar todos os dias. Porque a cidade são as pessoas. E são estas as que tem sido sistematicamente humilhadas pela total ausência de obra. Pior, ao não deixar nada realmente feito na trama urbana, o vírus assexuou a cidade, transformando-a num ser amorfo, distante e paralisado à sua triste imagem e dimensão. Ao não ter um projecto digno no presente, o sr. Rui Rio é desprovido de qualquer visão de futuro. E nada pode ser mais fatal para qualquer actividade humana, política sobretudo, sem este rasgo, esta visão que tanta falta faz aos que habitam o espaço urbano. A cidade agoniza lenta e dolorosamente para além do razoável. E se isto não fosse suficiente, este vírus, que, como todos, se multiplica, minou as estruturas basilares que sustentam a urbe. Do Rivoli, único espaço de experimentação e reinvenção antigamente permitidos a todos os quadrantes do tecido criativo, ao comércio tradicional envelhecido e cercado por uma miríade de grandes superfícies, da nomeação obscura de familiares para cargos para os quais não possuem declaradamente as competências necessárias, a uma total ausência de transparência nas contas da edilidade, tudo tresanda a um falso rigor e contenção serôdia que sufoca transversalmente todas as actividades que competem a uma Câmara Municipal. Alheado e distante dos munícipes, bem como da realidade mundana que emerge dos novos conceitos de cidadania que palpitam por toda a Europa, o sr. Rui Rio esventrou aquela que sempre foi a suprema mais-valia do Porto: a sua Alma. E uma cidade sem Alma é um corpo burocrático, autómato de nulidades, um conjunto de ruas com casas vazias a suportarem-lhe o estertor. O vírus não matou a cidade, mas atirou-a de forma impiedosa para o silêncio, esse espaço sinistro que nenhum lugarejo merece. Nunca um homem sozinho conseguiu em tão pouco tempo destruir tanto, tendo à sua mão tudo para construir muito.
2. Claro que as sucessivas mudanças de posição do autarca em relação a assuntos estruturais, tais como a regionalização, que agora defende mas contra a qual fez campanha, revelam também a sua infinita desonestidade política, só passando impune num país onde a oposição é cúmplice na omissão, e o aparelho do seu próprio partido, o PSD, tolera tais incongruências de acordo com a maré e a conveniência. E este é talvez o maior perigo que a democracia portuguesa terá que enfrentar num futuro próximo: os partidos que ciclicamente ocupam o poder são escolas desideologizadas, onde até a mentira vale desde que para manter debaixo da sua bandeira cargos, funções, autarquias, mordomias. É o vale-tudo pelas migalhas do poder. O sr. Rui Rio, esse sublime incompetente que à boca fechada alguns sectores do PSD não toleram e que hoje destrói o Porto, será o mesmo, para não dizer o único, que amanhã, perante o estado imberbe a que o seu partido chegou, se apresentará como salvador supremo do dito. Tendo como credencias a soberba, a arrogância e uma falsa moral de odores salazarentos que o fazem melífluo e silencioso, características que, aparentemente, colhem bons frutos em certos círculos do mesmo partido, o sr. Rui Rio leva atrás de si uma gestão ruinosa, também em termos económicos, da Câmara Municipal do Porto. A este exemplo, a nomeação da irmã do seu Vice, Álvaro Castelo Branco, para ‘gerir’ o Rivoli, auferindo um ordenado de 3790 euros mensais, é esclarecedora. Acresce que, uma vez delapidada a Culturporto, a autarquia possui gente capaz para tal posto sem necessitar recorrer a contratações externas e pouco transparentes. Ainda de salientar, a propósito da tão alardeada honestidade beatífica do autarca, que Manuel Teixeira, seu chefe de gabinete, tem um vencimento de 5159,15 euros mensais, acrescidos de 2082,89 de despesas de representação, e Poças Martins recebe 12500 euros por mês, dados que o presidente se recusa a apresentar oficialmente tal é a impunidade com que decide, manda e manipula. É com esta mentalidade que, uma vez desgastada a actual líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, e afastadas as hipóteses de Santana ou Menezes, o sr. Rio prepara, na obscuridade do silêncio e numa troca-tintas sistemática em relação às causas nacionais, o assalto à cidadela do partido. Este é o primeiro-ministro em potência se o PSD e os eleitores o permitirem. E esta é, supõe-se, a sua suprema ambição. Um retorno ao pior do cavaquismo. Um autismo e autoritarismo cujos frutos são bem visíveis na malfadada cidade que dirige. Estará Portugal disposto a suportar tão triste sina? Venham os indecisos e deambulem por esta Mui Nobre, Leal e, até agora, Invicta Cidade do Porto. Perante o vazio que encontrarem, decidam. Não antes. Mas venham depressa porque a Cidade chegou ao fundo do poço. E daqui só sairá com a honestidade e ambição dos que se apresentarem como alternativa já em 2009.


Texto de Pedro Abrunhosa, publicado na revista MAXMEN em Dezembro de 2008

Um Porto esmiuçado.

segunda-feira, outubro 05, 2009

O demagogo no seu labirinto

O problema de Rui Rio quando fala de cultura não é a sua ideia de cultura, é o que pensa sobre cultura não chegar a ser uma ideia. Versão tosca e pré-moderna do "homem sem qualidades", Rio não sabe o que seja isso de cultura e não sabe que não sabe.
Não foi, pois, por falta de pudor que disse o que disse à TSF sobre o assunto (dando como exemplo da "política cultural" da "sua" Câmara a edição de um livro sobre… os presidentes da autarquia), mas por ignorância.
Nem foi por descuido, mas por motivos mais grossos, que afirmou, ao mesmo tempo, que "comigo pode haver apoios, mas para o que tem potencial para ter público".
Ignoro que "público" (sei lá, se calhar milhões de portuenses correram a comprá-lo) terá tido o tal livro sobre os presidentes - e não vejo porque é que um livro, ou um espectáculo, "com público" precisará de apoios - mas, coerentemente com a sua noção demagógica de "cultura", Rio deveria ter editado antes o popularíssimo "Livro de S. Cipriano" ou o livro de mortalhas Zig Zag.
Certo é que, com gente como Rio, Camões nunca teria tido a tença nem teriam sido publicados "Os Lusíadas".
Manuel António Pina
in JN 5/10/2009

É a cultura, estúpido!

Não é cultura nem lazer, é apenas uma cidade a respirar...



Foi há 14 anos. De lá para cá a História vem-se repetindo.

domingo, outubro 04, 2009

Por um Porto melhor!

É agora, Porto!
"Fazer o que ainda não foi feito"

Por um Porto melhor!

É agora, Porto!

sexta-feira, outubro 02, 2009

Vale sempre a pena voltar a ler...

Uma cidade que se perdeu de si

Ouvir um candidato autárquico reconhecer o "carácter prioritário" da cultura só é surpreendente numa cidade, como o Porto, entregue há vários anos a gente sem qualquer visão estratégica e incapaz de ver além da Circunvalação.
Rui Rio é um exemplo extremo da tantas vezes repetida constatação de Wittgenstein de que "o 'meu' mundo se revela no facto de os limites da [minha] linguagem (…) significarem os limites do 'meu' mundo". A linguagem de Rio diz, com efeito, tudo o que há a dizer sobre a estreiteza do "seu" mundo (um pequeno e asfixiante mundo entre a despensa e a sala de jantar) e sobre a mediocridade da "sua" gestão. Cultura, para Rio, significa La Féria e corridas de carros e de aviões. É esse o "seu" mundo, o mundo que a sua linguagem lhe permite e, reduzido ao tamanho do mundo de Rui Rio, o Porto transformou-se numa pequena cidade, um bairro periférico de si mesmo e do seu passado. Que Elisa Ferreira se proponha, se eleita, assumir pessoalmente o pelouro da Cultura é apenas o reconhecimento da situação de emergência cultural, que é o mesmo que dizer de identidade, que o Porto hoje vive.
Manuel António Pina
in JN 2009-09-25

quinta-feira, outubro 01, 2009

Por um Porto melhor!

É agora, Porto!

quinta-feira, setembro 24, 2009

Talvez Setembro

Talvez Setembro
com pássaros e um lago
ao fundo,
espécie de memória de férias,
lugar de pacificação.

Talvez Setembro
esparzido aos teus olhos,
nostalgia,
manhã do princípio,
invenção dos dias

ou a viagem incoerente da poesia.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Momento de pausa para reflexão de âmbito pessoal

Regressei de um curto retiro espiritual. Não escolhi um lugar isolado, apenas um de moderada calma e suficientemente longe do meu habitat natural para me sentir retirada.
A busca da paz e de um eu mais interior tem-se mostrado um percurso longo, num trajecto nem sempre fácil, com obstáculos vários a transpôr. Acontece que me vejo assim enleada nos mais curiosos, abastractos, diria até abstrusos, pensamentos sobre as mais variadas coisas, vai daí foge-me a mão e desato a escrever pessoalidades tão desinteressantes como esta no blog que faz de conta que é poesia (coitado).

Durante o meu retiro não deixei de ler o jornal diário para me ligar ao mundo, apenas deixei de ver televisão, não deixei de ler os mails que me enviavam apenas não respondi a nenhum e nada mais consultei na net, também da mesma forma não deixei de atender telefonemas mas deixei de os fazer, foi uma forma diferente de olhar o mundo ainda que com os mesmos olhos, foi como fugir dele estando apenas noutro lugar.

No regresso tentei a pacificação e o reencontro com a minha cidade, tarefa difícil nestes oito anos de desalento na sua "desgovernação", a ver se agora a coisa muda (sim, eu ainda tenho esperança), descubro depois que na minha ausência algumas coisa mudaram, por exemplo a FNAC de Stª Catarina mudou o aspecto e os locais de algumas coisas - o que é sempre difícil para mim já que devo ter uma ou duas costelas de obsessiva.

E ao sentar-me ao café descubro ainda que o Amor (coisa de letra graúda, não confundir com paixonetas adolescentes de Verão ou coisas assim, digamos que é aquilo que alguns sentem pelo cão, pelo gato, geralmente pelo Pai, pela Mãe, pelos irmãos, isto só para que se perceba a ideia da maiuscularidade da letra, refiro-me pois a Amor) é provavelmente o mais intenso e cruel acto irreflectido. Dá-se esperando (ah o Roland Barthes é que explica isto tão bem!) receber, sem se esperar receber, como quem dá agora sem querer nada em troca, não agora mas mais adiante. E no entanto, tantas e tantas vezes espera gorada, não há nada em troca só o vazio e o vazio no Amor dói, dói, dói. Tanto como uma bofetada ou um murro enfiado na boca do estômago. Porém, o Amor, o tal, o da letra maiúscula fica. É como os planos do Manoel de Oliveira: "fica, fica, fica." Não seria muito mais racional pô-lo de lado? Pois se a resposta é um vazio silêncioso, quando não um barulhento revés no que esperavamos como resposta ao nosso Amor, porquê insistir nele? Porquê continuar? Que marcha mazoquista é esta em que insistimos? É isso mesmo - o Amor - porque não é racional quando é Amor. Esqueçam lá a ideia de o domesticar. Lá dizia o poeta (O'Neil): "O amor é o amor - e depois? Vamos ficar os dois a imaginar, a imaginar?"

Desenganem-se os que amam, foram feitos para sofrer e - ó martírio - continuar a amar, a amar, a amar...

sábado, setembro 12, 2009

Entre um e outro voo (ou a ver passar os eléctricos)

A minha cidade acordou hoje estremunhada de pássaros a motor. Aviões a brincar na acrobacia fantasiosa que a todos nos ocorre, vez em quando, de voar. O estrepitoso roncar das passarolas desarruma o usado voo das gaivotas que, loucas de espanto, se abandonam em rotas circulares assobiando gritos abafados.
Entre um e outro voo abro a janela e fico a espreitar o fumo dos Breitlings em séries de sete a imitar o vê dos bandos de aves em migração.
Esta tarde não seguirei o voo dos aviões, fugindo ao bulício do povo mergulhado no rio até aos joelhos, vou ficar em sossego a ver passar os eléctricos eles também de ronco profundo fazendo trepidar as cadeiras no café