
segunda-feira, janeiro 10, 2011
terça-feira, janeiro 04, 2011
Recuperações - Jardim de São Lázaro

Agora o "Jardim de São Lázaro" é assim...
O pólen,
as flores,
as estátuas,
os bancos,
os velhos,
o coreto,
as putas!
As mais doces e
indeléveis memórias
de infância,
coroas de folhas
como mantos de memórias inauditas.
Voam-me os pássaros
por sobre a caveira,
como se eu morresse ali
como a água primeira
das fontes que não há.
São estas memórias
que me lambem as feridas
e me fazem sentir ontem
no dia que hoje foi.
E se eu bramir ao vento
alguém me virá ouvir?
Decerto não, melhor é nem tentar,
mais vale desistir.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Recuperações - Rua de Santa Catarina
por entre a turba que vem descendo a rua
ali, além ou mais à frente.
Talvez nem sejas tu
mas apenas a tua sombra
ou um perfume de ti
ou talvez nem gente
ou talvez apenas o estéril desejo
de te ter assim etereamente.
segunda-feira, dezembro 27, 2010
segunda-feira, dezembro 20, 2010
domingo, dezembro 19, 2010
Recuperações - As razões do amor
Recuperações - O ínício (ou a cápsula do tempo reinventado)
quinta-feira, dezembro 09, 2010
Nenhuma memória
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta

O Sol a seu dono… dona!
Depois do senhor do adeus de Lisboa, que distribuía acenos e afecto aos passantes a troco de nada, a quem um grupo de cidadãos pretende erigir estátua acho que esta jurista espanhola merece igual encómio e espero que ao menos na sua terra natal, abençoada pelo sol, alguém tenha a ideia de o fazer.
Eu própria já estou a tratar dos papeis para colocar o ar em meu nome, tratarei logo a seguir de instituir um imposto, a pagar mensalmente, talvez junto das outras minudências que aparecem de brinde nas facturas da luz, a todos os que usem o ar, minha propriedade privada, quer seja para o respirar quer para o poluir e mais prometo também dar 90% aos pobrezinhos até porque é conveniente que esses possuam algum provento mais não seja que para fazer face ao mesmo imposto, admitindo que ainda respirem.
Parece-me pois um negócio justo e provavelmente dos mais lucrativos desde a invenção das infalíveis pulseiras do equilíbrio.
domingo, novembro 21, 2010
Silêncio, Paz e Solidão
sexta-feira, novembro 19, 2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
segunda-feira, outubro 18, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta
Às vezes acontece de, nesses momentos, ser importunada por um familiar ou um amigo e refiro-me aos amigos e familiares a quem amo, não aos chatos, às chagas que todos conhecemos, refiro-me mesmo às pessoas que mais amo, à família mais chegada e aos Amigos de á maiúsculo. Mas dizia, há vezes que uma (ou várias) dessas pessoas resolvem imiscuir-se nas minhas rotinas de solidão, in
sistem em acompanhar-me pela rua, em parar comigo nas mesmas montras, entrar comigo nas mesmas lojas, enfim – não me largam. Em férias, se fora de casa, o problema agrava-se. Quase sempre partilhando o hotel, o quarto, todas as refeições, a praia, a piscina, enfim, quase tudo – a privacidade fica reduzida a pequenos lampejos como seja um curto passeio a pé na redondeza, o momento em que se vai comprar o jornal ou os minutos de ir fazer xixi no quarto do hotel e, ainda assim, às vezes calha de alguém da pandilha ter a ideia abstrusa de nos acompanhar nessas idas por vontade semelhante seja a fisiológica seja a de comprar o jornal ou tomar café no bar em frente ao hotel.Pergunto-me, às vezes, sobre a melhor forma, a menos rude, de lhes escapar, enfim, de os enxotar. Como me livrar deles sem os magoar? Será que não entendem que preciso, urgentemente, de ficar a sós comigo mesma para pensar? E em que penso eu, quando estou só? Penso nos Amigos e na Família, penso precisamente naqueles que amo. Preciso em absoluto dessa solidão para ficar a amá-los, a pensar neles. Preciso disso para escrever sobre eles, para lhes fazer um poema ou um texto tão palerma como este (e a minha absoluta e absurda necessidade de solidão).
sexta-feira, outubro 01, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta
(eu costumava entrar devagar pela tua retaguarda)
É impossível pensar a música sem te pensar a ti, tu todo silêncios e pausas, quando eu te conheci, pausa, silêncio, paus
a, silêncio, pausa, mesmo quando falavas, mesmo quando te sentavas ao piano e interpretavas uma peça qualquer cujo nome e autor eu nunca sabia identificar(nunca fui muito boa a identificar peças, bastava-me identificar-te a ti ao piano, podias ser um entre mil, sempre te identificaria, as costas direitas, o corpo retesado, o peito aberto e aquele balançar pendular em ângulo de 20º)
É impossível pensar a música sem te pensar a ti, impossível! Ao pensar a música penso o mesmo que pensar-te, o piano no canto da sala, um ou dois violinos, uma viola, um violoncelo, nos dias bons um contra-baixo, um clarinete, um saxofone-alto, uma tuba
(lembras-te da tuba que inventaste naquela canção? Já não importa, ainda que não te lembres, a tuba apodreceu-te na ideia, ninguém a pôs em prática, mas eu registei, ficou em mim a tuba a tocar-me por dentro, aquele som gutural e fundo),
É impossível pensar a música sem te pensar a ti, impossível! Por isso não me peçam para pensar a música.
terça-feira, setembro 28, 2010
Pedras
segunda-feira, setembro 27, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta
O Gullar, José Ri
bamar Ferreira, traz-me à ideia um dos meus poetas de estimação, seu homónimo, o José Gomes Ferreira – poeta do espanto e da exclamação dos dias, sempre com olhos a arregalar-se de tanta espantação. Daí que, por gostar do Gullar, tenha ficado muito contente quando lhe atribuíram o prémio Camões deste ano e, desde então, à conta disso, tenho andado a ler uma ou outra entrevista que com ele vão saindo em jornais e revistas, como aconteceu hoje no mais recente número do Jornal de Letras.Conheci-o por acaso, quando numa livraria abri a sua obra, antologiada há uns anos pela Quasi. Não sabia quem era mas peguei no livro ao acaso, como gosto de fazer, e folheei-o também ao acaso. Desde então nunca mais esqueci o Gullar, presa que fiquei à sua poesia.
O homem é velho, muito magro, não é boni
to e tem um aspecto peculiar porque embora a idade e a magreza, feita de ossos compridos e estreitos, o rosto esquálido ornado de um cabelo quase pelos ombros de uma alvura imaculada, pudessem dar-lhe um ar frágil na verdade quando olho as suas fotografias comparo-o a uma velha árvore, de tronco longo e estreito, um negrilho como o do Torga, pelo Inverno e já sem folhas mas com um ar firme de resistir a todas as tempestades.Terminando a entrevista que lia no jornal, reparei que sobre a fotografia a preto e branco do Poeta caíra uma migalha, pousada sobre o seu lábio inferior. Sacudi a migalha do jornal. Percebi depois que acabara de sacudir uma migalha do velho Gullar, afectuosamente, como o faria a um Amigo que ali estivesse a lanchar comigo no café. E ficamos assim mais íntimos, eu e o Poeta, à luz da intimidade que a Poesia nos concede.
domingo, setembro 19, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta
O Nuno Abrunhosa, ex-director do defunto jornal Metro (não esse que agora por aí circula, mas o antigo, o original, aquele que havia no Porto bem antes da Micas perfuradora fazer os túneis por onde havia de embarcar o de superfície) colocou na internet algumas fotos recordando essa mesma publicação, conseguindo com isso que um bando de entusiastas – jornalistas, cartoonistas, cronistas e outros “artistas” se oferecerem para dar uma mãozinha assim o Nuno se abalançasse a relançar o projecto. Nesse embalo eu mesma lhe prometi escrever crónicas para uma cidade inventada alegando que esta já não inventa nada há mais de oito anos.
Tenho, porém, este problema com as palavras, apanham-me e depois perseguem-me, incomodam-me, dão comigo mesmo se me tento esconder delas e então… tenho de as matar, passá-las ao papel que é como quem diz anulá-las, conferir-lhes a necessária dignidade para depois as amachucar. Foi o que me aconteceu mal escrevi estas palavras mágicas “crónica para uma cidade inventada” – nunca mais esta frase deixou de me importunar e, por isso, vou ter de a matar aqui mesmo. E como nunca prometo o que não tenciono cumprir fica já aqui aquela que poderia muito bem ser a primeira “Crónica para uma cidade inventada” do número zero do Retro, ou Belzebu, ou Estafermo ou lá como o jornal se pudesse vir a intitular.
Crónica Para Uma Cidade Inventada
Nesta cidade não se inventa nada, nem os teus olhos, ou o seu lugar, pousado nas mesas do café, nos rabos das garotas que passam, nos sinos das torres ou nos telhados, nem os teus olhos. Nem outros olhos tão iguais aos teus que quase podiam ser eles – os teus olhos – ali, a olhar para mim. Mas não. Não há invenção nos dias desta cidade, os inventores fugiram todos para Marte (ou para a morte?) tomaram a carreira, o comboio, o avião! Como se foge para Marte? É de avião, não é? (E para a morte? De subterrâneo?)
Nesta cidade não se inventa nada, está tudo inventado, compra-se tudo feito, o produto acabado, mesmo que mal. Mal acabado, digo. Que digo eu, que não sei o que digo? É de foguetão – para Marte o foguetão! (E para a morte? O avião?).
Nesta cidade não se inventa nada, esta cidade já está inventada, só lhe resta a Torre, já perdeu a espada. Está feita uma Colombina meia aparvalhada, esta cidade que está sentada… na esplanada, está cansada. Cansada de esperar por ti, ou pelos teus olhos, ou por aqueles outros olhos que não sendo os teus olhos são tão como eles que bem podiam ser eles – os teus olhos – ali, a olhar por mim.
Nesta cidade não se inventa nada. Os teus olhos eram nela a última invenção e… não há invenção nos dias desta cidade. Os inventores fugiram todos para Marte (ou para a morte?). Uns foram para Marte de Vai-vem espacial (e outros para a morte de… funeral).
sexta-feira, setembro 03, 2010
Crónicas da Cidade Cinzenta
Está um homem com o tronco curvado sobre a mesa, na mesma mesa onde antes esperei por ti.Está um homem com o tronco curvado sobre a mesa onde repousam também vários papéis em seu redor. Ali na “praça da restauração” do centro comercial. A cabeça do homem toca uma das folhas, teria adormecido, é velho, usa um fato um pouco puído e junto à mão direita, também sobre a mesa, uma esferográfica que deve ter-se soltado de entre os dedos. O homem dorme, acho, curvado sobre as palavras, ou os números, sobre sabe-se lá que assunto. Talvez seja reformado – é velho – de volta das contas do imposto que alguém sem tempo confiou à sua sabedoria ou talvez trabalhe ainda, anos e anos e palavras ou números curvando-se sobre as folhas dispersas naquela ou noutras mesas e por isso se deixou adormecer, os anos pesando-lhe sobre o dorso, a caneta soltando-se-lhe dos dedos. Pago o meu café e sento-me na mesa em frente para o tomar. O homem dorme ainda, ou penso que dorme. As pessoas passam indiferentes, alguns olham-no outros nem isso. Os que o olham pensam como eu penso, que está a dormir, as outras não pensam no homem que se deixou adormecer, o dorso curvado sobre a mesa, a testa pousada no papel a esferográfica junto à mão direita, presa na mesa.
O homem dorme, ou penso que dorme. Talvez esteja morto e amanhã no jornal “Um homem morre enquanto organiza papeis” ou “Idoso encontrado morto na praça da restauração” e o velho será notícia e falarão sobre ele no dia seguinte, talvez até na televisão, o ar compungido do pivô do jornal “Um septuagenário, foi encontrado morto, ontem, no centro comercial”. Talvez expliquem dos papéis que o homem certamente antes retirara de dentro da velhíssima pasta de couro que está junto dele numa cadeira, uma pasta esboroada, castanha, muito gasta, o fecho aberto – tive uma pasta com um fecho assim nos meus tempos de escola e outra que em vez de um tinha dois, iguais e simétricos.
Talvez esteja morto, como também eu morri já várias vezes naquela mesma mesa do centro comercial, enquanto me sento e penso que tu, ou talvez já não tu mas a memória que guardo de ti ou tu como alguém muito parecido contigo mas não bem a mesma pessoa que guardo na memória, naquela mesma mesa, não morto mas vivo, olhando-me e sorrindo.
Tossiu, apalpou a mesa com ambas as mãos, o homem ergueu-se do seu torpor esfregando os olhos com a mão esquerda e com a direita apanhando da mesa a caneta. Recompôs a postura e endireitou os papéis. As pálpebras pesavam-lhe ainda, bem o percebi.
Suponho que eu e ele, o homem, havíamos de morrer ainda umas tantas vezes, ali mesmo naquela mesa onde antes esperei por ti.
segunda-feira, agosto 23, 2010
Poema para enrolar o mar
Provavelmente o mar resiste nos meus olhose talvez a cada vez que olhes o mar…,
não.
Provavelmente não.
Provavelmente o mar
há-de morar noutros olhos
e talvez a cada vez que olhes esses olhos onde mora o mar…,
não.
Provavelmente também não.
Provavelmente o mar
que guardas dentro de ti
é um mar mais longe,
um mais distante de nós,
e mesmo quando olhas
esses outros olhos onde mora o mar,
não há nesse mar lugar em que me possas deitar.







