sexta-feira, novembro 19, 2010

segunda-feira, outubro 25, 2010

Crónicas, croniquetas e cronicões

Mais uma aqui:

Crónicas de Segunda (02) - Os Ídolos rastejantes

segunda-feira, outubro 18, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

E não os podemos enxotar?

Tenho vícios estranhos, admito, como aquele de precisar de estar só, a certas horas, em certos lugares, procedendo a certas actividades ou certas rotinas. Tenho uma absoluta necessidade de silêncio e solidão para me deixar ficar só a observar o mundo, mirado pela minha própria lente de aumento ou diminuição.
Às vezes acontece de, nesses momentos, ser importunada por um familiar ou um amigo e refiro-me aos amigos e familiares a quem amo, não aos chatos, às chagas que todos conhecemos, refiro-me mesmo às pessoas que mais amo, à família mais chegada e aos Amigos de á maiúsculo. Mas dizia, há vezes que uma (ou várias) dessas pessoas resolvem imiscuir-se nas minhas rotinas de solidão, insistem em acompanhar-me pela rua, em parar comigo nas mesmas montras, entrar comigo nas mesmas lojas, enfim – não me largam. Em férias, se fora de casa, o problema agrava-se. Quase sempre partilhando o hotel, o quarto, todas as refeições, a praia, a piscina, enfim, quase tudo – a privacidade fica reduzida a pequenos lampejos como seja um curto passeio a pé na redondeza, o momento em que se vai comprar o jornal ou os minutos de ir fazer xixi no quarto do hotel e, ainda assim, às vezes calha de alguém da pandilha ter a ideia abstrusa de nos acompanhar nessas idas por vontade semelhante seja a fisiológica seja a de comprar o jornal ou tomar café no bar em frente ao hotel.
Pergunto-me, às vezes, sobre a melhor forma, a menos rude, de lhes escapar, enfim, de os enxotar. Como me livrar deles sem os magoar? Será que não entendem que preciso, urgentemente, de ficar a sós comigo mesma para pensar? E em que penso eu, quando estou só? Penso nos Amigos e na Família, penso precisamente naqueles que amo. Preciso em absoluto dessa solidão para ficar a amá-los, a pensar neles. Preciso disso para escrever sobre eles, para lhes fazer um poema ou um texto tão palerma como este (e a minha absoluta e absurda necessidade de solidão).

Crónicas, croniquetas e cronicões

Mais uma, aqui:

Crónicas de Segunda (01): Alberto João, o grande humanista!

sexta-feira, outubro 01, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Dia Mundial da Música


É impossível pensar a música sem te pensar a ti, tu que eras todo música por dentro quando eu te conheci, um lume de música a arder-te nos braços, mesmo quando eras só silêncio. Às vezes dava contigo
(eu costumava entrar devagar pela tua retaguarda)
de braços erguidos, as mãos acima do nível dos ombros a conduzir uma orquestra imaginária, o horizonte
(o meu, que era o de quem entrava devagar pela tua retaguarda)
começava acima da linha larga desenhada pelos teus ombros e eu , a esse tempo, gostava que o meu horizonte começasse sobre a linha larga dos teus ombros. Era num ombro que te tocava, para acordar-te dessa viagem imaginária pela música da orquestra dentro de ti. Acordavas como resposta ao meu toque mas nos teus olhos a música continuava sempre, incessante e infinita, tudo dentro dos teus olhos.

É impossível pensar a música sem te pensar a ti, tu todo silêncios e pausas, quando eu te conheci, pausa, silêncio, paus
a, silêncio, pausa, mesmo quando falavas, mesmo quando te sentavas ao piano e interpretavas uma peça qualquer cujo nome e autor eu nunca sabia identificar
(nunca fui muito boa a identificar peças, bastava-me identificar-te a ti ao piano, podias ser um entre mil, sempre te identificaria, as costas direitas, o corpo retesado, o peito aberto e aquele balançar pendular em ângulo de 20º)
mesmo aí eras silêncios e pausas mais do que qualquer outro som percutido no piano.

É impossível pensar a música sem te pensar a ti, impossível! Ao pensar a música penso o mesmo que pensar-te, o piano no canto da sala, um ou dois violinos, uma viola, um violoncelo, nos dias bons um contra-baixo, um clarinete, um saxofone-alto, uma tuba
(lembras-te da tuba que inventaste naquela canção? Já não importa, ainda que não te lembres, a tuba apodreceu-te na ideia, ninguém a pôs em prática, mas eu registei, ficou em mim a tuba a tocar-me por dentro, aquele som gutural e fundo),
um xilofone, um espanta-espíritos a sacudir-se no vento como quando tu vinhas também a sacudir o vento dos meus dias.

É impossível pensar a música sem te pensar a ti, impossível! Por isso não me peçam para pensar a música.

terça-feira, setembro 28, 2010

Pedras

Do tempo sobram
as pedras,
sub-reptícias,
encontram leitos de água

doce
onde se vão deitar.

Do tempo sobram
pedras,
pedras de cinza
ou de cimento mas
pedras,
defuntas de vida,
lápides eternas.

Pedras.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

A migalha no lábio

Gosto de Ferreira Gullar, dos seus poemas, da forma como deixa o pó dos dias invadir-lhe a linguagem e deixa que esta nos invada, a forma como se permite o espanto para fazer dele poema e, por sua vez, nos espantar a nós – o poema como lugar de espanto! e o ponto de exclamação é disso mesmo o sinal – ideia mais caricata que transitou há algum tempo, de eliminar o exclamativo ponto da temível literatura que alguns iluminados diziam fazer! Cá está ele, mais uma vez, só para me fazer entender.
O Gullar, José Ri
bamar Ferreira, traz-me à ideia um dos meus poetas de estimação, seu homónimo, o José Gomes Ferreira – poeta do espanto e da exclamação dos dias, sempre com olhos a arregalar-se de tanta espantação. Daí que, por gostar do Gullar, tenha ficado muito contente quando lhe atribuíram o prémio Camões deste ano e, desde então, à conta disso, tenho andado a ler uma ou outra entrevista que com ele vão saindo em jornais e revistas, como aconteceu hoje no mais recente número do Jornal de Letras.
Conheci-o por acaso, quando numa livraria abri a sua obra, antologiada há uns anos pela Quasi. Não sabia quem era mas peguei no livro ao acaso, como gosto de fazer, e folheei-o também ao acaso. Desde então nunca mais esqueci o Gullar, presa que fiquei à sua poesia.
O homem é velho, muito magro, não é boni
to e tem um aspecto peculiar porque embora a idade e a magreza, feita de ossos compridos e estreitos, o rosto esquálido ornado de um cabelo quase pelos ombros de uma alvura imaculada, pudessem dar-lhe um ar frágil na verdade quando olho as suas fotografias comparo-o a uma velha árvore, de tronco longo e estreito, um negrilho como o do Torga, pelo Inverno e já sem folhas mas com um ar firme de resistir a todas as tempestades.
Terminando a entrevista que lia no jornal, reparei que sobre a fotografia a preto e branco do Poeta caíra uma migalha, pousada sobre o seu lábio inferior. Sacudi a migalha do jornal. Percebi depois que acabara de sacudir uma migalha do velho Gullar, afectuosamente, como o faria a um Amigo que ali estivesse a lanchar comigo no café. E ficamos assim mais íntimos, eu e o Poeta, à luz da intimidade que a Poesia nos concede.

domingo, setembro 19, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Uma explicação

O Nuno Abrunhosa, ex-director do defunto jornal Metro (não esse que agora por aí circula, mas o antigo, o original, aquele que havia no Porto bem antes da Micas perfuradora fazer os túneis por onde havia de embarcar o de superfície) colocou na internet algumas fotos recordando essa mesma publicação, conseguindo com isso que um bando de entusiastas – jornalistas, cartoonistas, cronistas e outros “artistas” se oferecerem para dar uma mãozinha assim o Nuno se abalançasse a relançar o projecto. Nesse embalo eu mesma lhe prometi escrever crónicas para uma cidade inventada alegando que esta já não inventa nada há mais de oito anos.
Tenho, porém, este problema com as palavras, apanham-me e depois perseguem-me, incomodam-me, dão comigo mesmo se me tento esconder delas e então… tenho de as matar, passá-las ao papel que é como quem diz anulá-las, conferir-lhes a necessária dignidade para depois as amachucar. Foi o que me aconteceu mal escrevi estas palavras mágicas “crónica para uma cidade inventada” – nunca mais esta frase deixou de me importunar e, por isso, vou ter de a matar aqui mesmo. E como nunca prometo o que não tenciono cumprir fica já aqui aquela que poderia muito bem ser a primeira “Crónica para uma cidade inventada” do número zero do Retro, ou Belzebu, ou Estafermo ou lá como o jornal se pudesse vir a intitular.

Crónica Para Uma Cidade Inventada



Nesta cidade não se inventa nada, nem os teus olhos, ou o seu lugar, pousado nas mesas do café, nos rabos das garotas que passam, nos sinos das torres ou nos telhados, nem os teus olhos. Nem outros olhos tão iguais aos teus que quase podiam ser eles – os teus olhos – ali, a olhar para mim. Mas não. Não há invenção nos dias desta cidade, os inventores fugiram todos para Marte (ou para a morte?) tomaram a carreira, o comboio, o avião! Como se foge para Marte? É de avião, não é? (E para a morte? De subterrâneo?)
Nesta cidade não se inventa nada, está tudo inventado, compra-se tudo feito, o produto acabado, mesmo que mal. Mal acabado, digo. Que digo eu, que não sei o que digo? É de foguetão – para Marte o foguetão! (E para a morte? O avião?).
Nesta cidade não se inventa nada, esta cidade já está inventada, só lhe resta a Torre, já perdeu a espada. Está feita uma Colombina meia aparvalhada, esta cidade que está sentada… na esplanada, está cansada. Cansada de esperar por ti, ou pelos teus olhos, ou por aqueles outros olhos que não sendo os teus olhos são tão como eles que bem podiam ser eles – os teus olhos – ali, a olhar por mim.
Nesta cidade não se inventa nada. Os teus olhos eram nela a última invenção e… não há invenção nos dias desta cidade. Os inventores fugiram todos para Marte (ou para a morte?). Uns foram para Marte de Vai-vem espacial (e outros para a morte de… funeral).

sexta-feira, setembro 03, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Hypnos

Está um homem com o tronco curvado sobre a mesa, na mesma mesa onde antes esperei por ti.
Está um homem com o tronco curvado sobre a mesa onde repousam também vários papéis em seu redor. Ali na “praça da restauração” do centro comercial. A cabeça do homem toca uma das folhas, teria adormecido, é velho, usa um fato um pouco puído e junto à mão direita, também sobre a mesa, uma esferográfica que deve ter-se soltado de entre os dedos. O homem dorme, acho, curvado sobre as palavras, ou os números, sobre sabe-se lá que assunto. Talvez seja reformado – é velho – de volta das contas do imposto que alguém sem tempo confiou à sua sabedoria ou talvez trabalhe ainda, anos e anos e palavras ou números curvando-se sobre as folhas dispersas naquela ou noutras mesas e por isso se deixou adormecer, os anos pesando-lhe sobre o dorso, a caneta soltando-se-lhe dos dedos. Pago o meu café e sento-me na mesa em frente para o tomar. O homem dorme ainda, ou penso que dorme. As pessoas passam indiferentes, alguns olham-no outros nem isso. Os que o olham pensam como eu penso, que está a dormir, as outras não pensam no homem que se deixou adormecer, o dorso curvado sobre a mesa, a testa pousada no papel a esferográfica junto à mão direita, presa na mesa.
O homem dorme, ou penso que dorme. Talvez esteja morto e amanhã no jornal “Um homem morre enquanto organiza papeis” ou “Idoso encontrado morto na praça da restauração” e o velho será notícia e falarão sobre ele no dia seguinte, talvez até na televisão, o ar compungido do pivô do jornal “Um septuagenário, foi encontrado morto, ontem, no centro comercial”. Talvez expliquem dos papéis que o homem certamente antes retirara de dentro da velhíssima pasta de couro que está junto dele numa cadeira, uma pasta esboroada, castanha, muito gasta, o fecho aberto – tive uma pasta com um fecho assim nos meus tempos de escola e outra que em vez de um tinha dois, iguais e simétricos.
Talvez esteja morto, como também eu morri já várias vezes naquela mesma mesa do centro comercial, enquanto me sento e penso que tu, ou talvez já não tu mas a memória que guardo de ti ou tu como alguém muito parecido contigo mas não bem a mesma pessoa que guardo na memória, naquela mesma mesa, não morto mas vivo, olhando-me e sorrindo.
Tossiu, apalpou a mesa com ambas as mãos, o homem ergueu-se do seu torpor esfregando os olhos com a mão esquerda e com a direita apanhando da mesa a caneta. Recompôs a postura e endireitou os papéis. As pálpebras pesavam-lhe ainda, bem o percebi.
Suponho que eu e ele, o homem, havíamos de morrer ainda umas tantas vezes, ali mesmo naquela mesa onde antes esperei por ti.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Poema para enrolar o mar

Provavelmente o mar resiste nos meus olhos
e talvez a cada vez que olhes o mar…,
não.
Provavelmente não.
Provavelmente o mar
há-de morar noutros olhos
e talvez a cada vez que olhes esses olhos onde mora o mar…,
não.
Provavelmente também não.

Provavelmente o mar
que guardas dentro de ti
é um mar mais longe,
um mais distante de nós,
e mesmo quando olhas
esses outros olhos onde mora o mar,
não há nesse mar lugar em que me possas deitar.

terça-feira, agosto 17, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Prostituição de afectos

Vista da minha esplanada: Três alminhas penadas cruzam repetidamente a rua com cartazes prometendo abraços grátis, com a respectiva tradução em inglês (nestas coisas há que ser internacional). Já vi, por diversas vezes, estas ou outras criaturas oferecendo o gratuito amplexo e sempre essa ideia me deixa um íntimo amargor tal qual como quando me cruzo com a velhice e o ranço estampados em tantos rostos, quase sempre de olhares vazios, certamente muito precisando de um abraço não este, esbanjado por tolice e juventude, mas um que apertasse até ao fundo da alma e lavasse com ele o musgo das lágrimas.
(Apontamento: reler José Gomes Ferreira)

Relembro que um dia encontrei um blog – que suponho já esteja transformado em livro que é o que acaba por acontecer a todos os blogs descritivos do dia-a-dia particularmente se tiverem origem em experiencias, ainda que temporárias, de prostituição – em que um desempregado havia criado uma indústria florescente a vender, pasme-se, horas de amizade. O cavalheiro em causa não alugava a cama nem qualquer recreio libidinoso, alugava a amizade aos seus clientes. Pessoa a quem faltasse um amigo para o desabafo, para ajudar a escolher roupa nos saldos ou mesmo para acompanhar nas horas difíceis como a ida ao dentista, contratava os seus serviços et voilá um amigo ao dispor de vossência! – Prostituto de amizade, portanto.
Um dia observei um doente carcomido – o termo é literal – por um tumor que, aquando do diagnóstico, teria recusado prosseguir o estudo ou efectuar qualquer terapêutica. Quando me procurou tinha uma orelha em decomposição, com cartilagem corroída empapada em pus, apresentando-se pobremente vestido, com um casacão de malha velho muito pingão e emborbotado, contrastando com o bem-falar e gentileza do doente. Sabendo da sua sumária recusa em deixar-se tratar questionei-o sobre filhos, respondeu-me que não tinha, não sendo casado referiu vagamente que dividia a vida com uma mulher mais jovem mas sacudiu o assunto com um aceno que compreendi e não prossegui o interrogatório. O problema que o levara até mim era minor e foi ilusoriamente resolvido até novo achaque. No momento era o que trazia incomodado e o futuro daquele homem era o momento presente. Uma vez esse assunto resolvido, não tinha mais a oferecer-lhe.
Acompanhei-o à porta e, já a cruzar o umbral, voltou-se e disse-me “sabe doutora, só queria que ela viesse depressa”. Tive tanta vontade de o abraçar – prostituta de abraços.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Quando voltares

Quando voltares
talvez voltes poema,
um risco no céu de Primavera
ou o cantar primevo do pássaro nocturno
numa tarde de Inverno.

Quando voltares
poderás ser a rima
entrecortada no meio do verso,
um soneto inacabado
ou uma ode de esperança.

Quando voltares

e o mundo te devolver
a luz primeira
que antes havia
no teu olhar de criança.

domingo, agosto 15, 2010

Crónicas da Cidade Cinzenta

Tentativa de esgotar-me por dentro em viagem por caminhos dentro de mim.

Aprendi com Enrique Vila Matas, numa sua crónica em “Da cidade nervosa” que George Perec havia escrito “Tentativa de esgotar um lugar parisiense” tendo como lugar de observação o Café dela Mairie. Seguindo-lhe a ideia o próprio Vila Matas se apostou em repeti-lo, tentando “esgotar” a Praça Rovira em Barcelona. Procuravam descrever exaustivamente tudo o que, naqueles lugares já amplamente inventariados de estátuas, igrejas e monumentos, “se passa quando não se passa nada. Só o tempo, as pessoas, os carros, as ruas.”
Pareceu-me bem e foi a pensar nisto que dei por mim a “esgotar” não um lugar de onde me colocasse a observar o mundo mas os vários lugares por onde passei (escrevo o relato à posteriori) de um caminho antigo que percorri na vida umas mil vezes, ora de ida, ora de regresso, ora de passeio, ora de passagem e, ultimamente, cada vez menos.
Estar ainda de férias no meio de Agosto e no Porto pode ser visto como uma bênção. As horas parecem mais compridas e as ruas mais largas. Lojas fechadas dão à cidade um ar sépia fantasmagórico. São poucas as hipóteses de encontrar as pessoas do costume nos lugares usuais, é como se de repente fizéssemos um passeio à nossa cidade sem ser na nossa cidade, como numa viagem ao tempo, como regressar a um país deserto.
Desço a Rua António Carneyro como numa viagem a mim mesma, por dentro da memória, eis-me de novo, na rua de sempre, mas noutro tempo que não o antigo, que não o presente, num tempo imaginado. Aproveito a sombra, espreito o pequeno café que mudou de nome, vazio, defunto, fechado até novas aulas. É uma da tarde. O “Pires de Lima”, construção maciça e feia de cimento armado em vários blocos, fechadíssimo para férias, nem vivalma. Mais abaixo o “Raínha”, meu velho liceu. Olho-o do outro lado da rua. Deixou de ser escola, é DREN. Pergunto-me a serventia agora de um pavilhão com ginásio, com mais do que uma sala, balneários, os laboratórios e anfiteatros de física, química e biologia, que uso lhes estará destinado, uma escola construída de raiz para o ser… Talvez essas zonas sejam agora uma montureira de papéis, como o jardim o é de silvas? Haverá funcionários para esgotar tanto espaço, tanta sala de aulas? Ou será este edifício como um enorme navio fantasma de ventre inchado mas vazio? Nunca lá entrei. A porta envidraçada foi reformulada, tem ar de repartição modernaça. A estátua da Raínha Santa que centrava o átrio, com flores no regaço (e onde alguém por vezes depositava rosas verdadeiras numa pequena jarra) desapareceu. A Raínha tem como dia litúrgico o mesmo do meu aniversário, era uma coincidência que me divertia – são rosas, senhor, são rosas – e agora o que são? E onde estão as rosas? O que diria disto o Rei Poeta D. Deniz? Abaixo ainda o “Raínha velho” que agora é Comando da PSP, suponho que melhor serviria à Polícia o ginásio e o espaço aberto, enfim, mas ei-los no velho edifício por fora muito pintado. Por dentro não conheço agora, mas aposto que a velha escada ainda range e num certo degrau – clack. Há este aspecto romântico e português que faz lembrar cenário de filmes – a polícia numa velha casa de tipo senhorial com escadas em madeira que rangem.
Adiante. Atravesso para o Heroísmo. Na esquina a “Estrela”, fechada. Continuo na direcção do Largo Soares dos Reis. À esquerda a “Cozinha do Manel”, fechada até tantos de Agosto, férias. Sempre que ali passo recordo não as vezes que lá jantei, o que comi, com quem estava ou o que se disse mas antes uma noite de Outubro em que entrei e saí (coisa tipo filme de espionagem barato), nem passei do balcão, mas à saída transportava um tesouro mágico nas mãos, apertando-o contra o peito e que guardo até hoje na gaveta da memória, há coisas que nunca se esquecem. Em frente o “Nova Sintra” fechado. A antiga residência/escritório de um Amigo devidamente desactivado, possivelmente para sempre, mais uma casa fantasma. Os cortinados já cinza-tule corridos, as portadas fechadas por trás deles, numa janela inferior – terá cave aquilo? – um vidro partido, algum lixo enfiado entre o vidro e a grade. Tive vontade de lhe tocar ao batente, a ver se alguma alma penada me responderia do outro lado. Abaixo ainda a defunta oficina/stand da Renault, fechada e abandonada há anos sem fim. A loja de fotografia fechada. Um barbeiro à antiga, fechado. Adiante o STOP, fantasma de centro comercial apagado, agora pintado de cores garridas. Stop 1 e Stop 2 – a primeira matiné sozinha – Lobijovem com Michael J. Fox e a filmografia do Tom Cruise – Top Gun, A cor do dinheiro e o que mais houvesse. Diz que agora é um armazém de bandas de garagem, um alfobre de talentos – pois será – visto de fora, as luzes apagadas nas lojas desaparecidas é bem um fantasma. Uma velha de perna arcada, saia rodada e puxo na cabeça entra decidida e vai manquelitando os primeiros degraus – punk rock, penso. O “Rei dos lanches”, fechado. Na esquina seguinte o Museu Militar, antiga sede da Pide, quantos lá não terão sido torturados até chibar ou morrer? Lembrei o José Gomes Ferreira a engolir poemas em seco quando ali veio visitar o filho. A seguir o cemitério, tenho lá jazigo, para que nunca me falte a velha rua de sempre quando eu própria me for desta para melhor. Tenho lá o meu Pai, não bem o meu Pai mas o que lhe resta dos ossos, desarticulados, sem carne, sem vida – aquilo não é o meu Pai, o meu Pai é a fotografia dos olhos iguais aos meus só que castanhos e maiores, quando muito o Pai é também as flores cobrindo a lápide, vivas e inteiras como ele era, vivo e inteiro, não aquele armazém de ossos fora do lugar, encaixotados. Na verdade nesta volta toda esta rua me parece já um longo cemitério de afectos, eu própria várias vezes morta – primeiro eu-criança, depois eu-adolescente, depois eu-adulta, eu, enfim, várias vezes morta dentro de mim.
Adiante. Atravesso o largo e sento-me na confeitaria. Venho cá menos vezes agora, fica-me menos à mão. Não peço nada, o Sr. Luís ainda se lembra – é café com adoçante, curto. É daqui que escrevo estas tolices antes que me arrefeça o café e a memória. Talvez fique aqui a fazer rodopiar o troco de moedas sobre a mesa.

quarta-feira, agosto 11, 2010

"Já é tarde. Deixa ficar."

Gostei de ver-te Amigo velho, de velhas andanças. Reconhecer-te os traços na luz fria da noite, melhorar o que trazia de ti, de memória. Reconhecer-te a tez, a textura da pele, pormenores pequenos que havia perdido faz tanto tempo.
O tempo corrói-nos, carcomendo-nos as miudezas da memória e vamos perdendo a nitidez, o pormenor, em pouco tempo somos outros e mal nos reconhecemos.
Foi bom distinguir velhos sinais, imperfeições e rugas, por um momento tornaste a ser real ao invés de um espectro mental que muda de cor e textura conforme uma fotografia, ora mais cinzenta ora mais colorida, ora mais de perto, ora mais ao longe.
Distância perfeita aquela, cinco ou seis metros, talvez sete, entre nós, impedindo o toque, a intimidade, o diálogo, a fala, o cheiro e no entanto, ia jurar que naquele espaço os nossos silêncios se tocaram, como só dois silêncios sabem tocar-se, roçando-se discretos e íntimos, como dois velhos silêncios, habituados a estarem calados, traduzindo sem palavras tudo quanto não precisa ser dito.
À distância de cinco ou seis metros, talvez sete, reencontrei em ti mais do que procurava. Um sorriso apertado entre os dentes, um certo ondular no andar como uma dança incoerente, algumas palavras não para mim mas que eu conhecia como dantes, um certo olhar sem destino fixo, os gestos, sempre os mesmos, que eu já quase esquecera no fundo da ideia.
À distância de cinco, seis metros, talvez sete, não mais, achei-te um pouco mais magro, não se perde nada, ficas melhor mais seco de carnes, um tanto mais velho diria, é normal, o tempo é inexorável, não se perde fixo nas lembranças que guardamos.
Foi bom ver-te Amigo velho, à distância de cinco, seis metros, não mais que sete, assim de frente, viagem melancólica a quando te conheci e, de repente, como se um filme, esta e outra e ainda outra imagem percorrendo-me por dentro, avancei uns anos nas recordações, desde aquela imagem parada deste mesmo rio visto de outro lugar. Antes era de um lado o rio e de outro a multidão, agora era o rio de um lado e de outro o coração – em caso de dúvida escolher o coração. Lembra-me para que não me esqueça de que lado me bates por dentro.

sábado, julho 31, 2010

Qual de ti?

A quem buscas
no declive,
no vórtice,
na voragem
acutilante,
na verborreia,
na luz pálida
do inebriante néon
que te rodeia?

Um dia
ver-te-ás ao espelho,
olharás o fundo
dos teus olhos
com os mesmos olhos
que se reflectem.
Precipita-te
sobre a imagem – vê – eras
afinal tu
quem procuravas encontrar e
afinal estavas ali,
num lugar dentro de ti!
Ou estarás apenas
por trás do reflexo?
Haverá outro Tu
do lado de lá do espelho?
Serás Tu e Tu como
Tu e um seu Eu alheio?

Qual preferes?
Esse que sente
ou o do reflexo?
Qual deles é
e qual deles mente?
O que abraça?
Ou o que mora
reflectido por trás
da vidraça?

Serás tu
ou o teu eco
quem passa?


In “Circulação Transversa”

quarta-feira, junho 23, 2010

Sobre os anjos

Em memória de meu Pai
07/12/1931 - 24/06/1996

Sobre os anjos


Se os anjos partissem,
em silêncio,
e se do seu silêncio
se fizesse casa,
um refúgio,
um lugar de sombras pardas,
onde cada um de nós
se pudesse recolher

a horas tardas.


Se os anjos partissem,
em sossego,
e se desse sossego
se fizesse templo,
um regaço,
um lugar para além do frio,
onde cada um de nós
se pudesse proteger

deste vazio.

Se os anjos regressassem,
noite adentro,
em silêncio vigilantes,
como o vento,
beijando-nos no sono como um sonho,
suspensos já, seríamos no tempo,
e esta inundação de luz

por dentro.

quinta-feira, junho 17, 2010

Momento de Pub

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça"


Isto acontece no Stand A05 - Clube Literário do Porto (zona azul) já perto da estátua do D.Pedro IV.

domingo, junho 13, 2010

Poema da possessão




A manhã nascia anelada
nos teus cabelos,
eu abria os olhos,
de mansinho, só
para te ver dormir
antes que o Sol
embirrento
te viesse despertar e descobrir.

Enquanto dormisses
serias só meu,
por ninguém mais
te poder ver assim
despido de ti…


In "Circulação Transversa"

segunda-feira, junho 07, 2010

Momento de Pub


O "Luz Vertical" (imagem à esquerda) e o "Urgência das Palavras" (imagem inferior) ...



...estão neste momento a residir aqui...



Feira do Livro do Porto, Av. Aliados, stand A05 - Clube Literário do Porto

quinta-feira, maio 13, 2010

Uns mais perto e outros mais Longe


Ou ai que bonito que eu fico na Fnac!