domingo, agosto 02, 2009

Diário de bordo de férias

Dia 8

Curta fuga, em solidão, para o quarto. Sento-me na varanda a comer bolachas, pés apoiados no varão aproveitando uma nesga de sol sobre as pernas, mantendo o restante corpo à sombra. Ainda não tinha parado ali o tempo suficiente para perceber quão agradável é um fim de tarde num 9º andar, a ver o mar lamber a praia e os barcos erguendo à sua passagem uma fiada de espuma. Duas lanchas e um pequeno veleiro alcançam a costa, o veleiro parece em apuros com o seu pequeno tamanho, maltratado pelas ondas erigidas pelas lanchas. Era só impressão minha, tudo corre bem com as três embarcações, sou apenas eu a imaginar o meu enjoo caso estivesse a bordo da barcaça.

São 18H30. O telemóvel transformou-se num instrumento útil para ver as horas. Em todo o período de férias apenas duas pessoas me ligaram – uma amiga a querer saber de mim e das minhas férias e dando-me conta das suas que terminavam e uma outra, esta mais por uma aflição que compreendo do que propriamente por saudades minhas. Noutros anos era mais animado e ruidoso, penso que devo estar a perder amigos ou talvez eles se estejam a perder de mim. Dantes acreditava que voltavam sempre, agora não tenho tanta segurança. É um dos óbices de não se “pertencer à manada”, toleram-me mas não me amam, logo não me sentem a falta!

Diário de bordo de férias

Dia 7

Quem faz férias em família num hotel incorre em sérios problemas de privacidade, intimidade e silêncio. O tempo passa a ser de comunidade, um infinita partilha – o quarto partilhado, as refeições partilhadas, as brincadeiras aquáticas partilhadas, etc. Hoje resolvi encetar uma busca pela intimidade perdida e fugi sozinha, à socapa, para a piscina.
Quem, como eu, nada apenas de bruços e faz tentativas probrezinhas de crawl tentando sempre manter ao abrigo de água o nariz, os olhos e os ouvidos, incapaz de mergulhar é uma carta fora do baralho, nunca é “parte do grupo”. Enquanto os outros se entregam ao mergulho, a levantar ondas e espuma que eu, discretamente evito. Sou capaz de nadar distâncias razoáveis mas totalmente incapaz de mergulhar. Os do grupo, como em tudo, não me amam, mas toleram-me, não sou um deles mas ainda assim posso participar, sou tolerada. Acontece-me isso em quase tudo, não pertenço à manada mas sou tolerada o que, teoricamente, dá alguma segurança. Verdade seja dita, não me incomoda assim tanto, tenho mesmo alguma (muita) aversão a grupos lembrando sempre uma frase de Sting: “men go crazy in congregations, they only get better one by one”. Um dia convidaram-me para fazer parte de um clube de fãs – um daqueles onde um bando de maluquinhos ululando à volta do seu herói são oficialmente ungidos como Os fãs oficiais. Respondi ao próprio herói – que era quem me fez o convite –“deves estar tolinho!” Depois arrependi-me por ter ficado a achar que talvez o tivesse ofendido ao recusar dessa forma a distinção, sem contudo me conseguir imaginar entre a turba que cola posteres e selos e tece loas ao invencível herói. Julgo que, entretanto, o clube de fãs feneceu (ou pelo menos nunca mais ouvi falar de semelhante instituição), eu continuo tão fã quanto antes, admirando a genialidade do artista, mas antes como agora não conseguia conceber o carinho e admiração que sinto a tresmalhar-se ante o elogio bajulador e acrítico que tende a acometer as massas em êxtase. Os meus êxtases vivo-os sozinha!
Entretanto mais dois elementos do meu “clã” se barbataneiam na água, junto à escada, acenando-me e um 3º elemento aponta-me a objectiva da máquina obrigando-me a adeuzes sorridentes para a posteridade – uma pasta a que hei-de chamar “Algarve – férias – 2009” com toda a certeza.
Na política de não-inscrição em que ando empenhada estes momentos de introspecção são, na verdade, a evitar.
“’Bora lá mergulhar!” (quer dizer… nadar, nadar!).

sábado, agosto 01, 2009

Diário de bordo de férias

Dia 6

Um música chata, muito chata, perpetua-se na noite dificultando o sono. Há uma festa lá em baixo que explica o ruído. Guardassois brancos, canapés e padiolas com almofadinhas brancas, tudo branco e o dress code: branco e vermelho a dizer com as luzinhas a criar ambiente. Vejo tudo da minha janela mas pior do que isso – ouço – a música chata, chata, hoje mais alta que nas restantes noites por ser noite de aniversário do recinto.
Paro, por um momento, a olhar a garrafa na prateleira do quarto, garrafa de estilista a custar oito euros, pus-me a imaginar-lhe o sabor, talvez salobinha como a evian que um dia tive o desprazer de provar em Berlim (rapo uma sede fora de Portugal, santo Deus!) mas aperaltada numa garrafa estilizada. Imaginei uma garrafa de luso com um lacinho ao pescoço – digo gargalo – que bem me saberia!
Percebo que a música chata lá fora era, afinal, ao vivo, uma sujeita de voz jazzy dá as boas vindas aos camones “C’mon you beach people!” e a beach-people rejubila!
zZZZzzzzzzzZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzz

sexta-feira, julho 31, 2009

Diario de bordo de férias

Dia 5

Sabem a melhor maneira de apanhar um escaldão e ficar perto de sucumbir dentro de água? É ter dois putos à solta, basicamente, mergulhados na água o tempo todo!

quinta-feira, julho 30, 2009

Diario de bordo de férias

Dia 4

A vida é pouco mais que uma sequência de absurdos. Acatamos o que temos sem questionar grande coisa e pensamos com isso alcançar a felicidade. Por sua vez a felicidade que ambicionamos é nada mais do que uma ilusão de paz que nos entretém e nos evita o questionar a vida que levamos, entediante, feita de um dia atrás do outro em infernais rotinas de prazer e abjecção caminhando tão juntas que não são já distinguíveis, tudo miscigenado, todas as dores, toda a espécie de infelicidade mascarada por prazeres de efemeridades, todo o pequeno desprazer imediatamente compensado com o fogo de artifício que cada um sabe encontrar de forma a não ter de se enfrentar, de olhar para dentro. Tudo serve de divertimento e enfeite para a dor, tudo serve para a não-introspecção e subsequente não inscrição dos nossos processos interiores, o que importa é o exterior, o que sevê, o que os outros vêm. Para quê ser infeliz se há tanta felicidade à espreita à nossa volta – ainda que esta possa ser de plástico, isso que interessa?
Sobre isto me deitei a pensar no dia 4 de férias.
Vilamoura é um lugar excessivamente barulhento para continuar esta meditação. Máscara perfeita de sol, mar, marina, hotel de muitas estrelas a compensar aqueloutra falta de luz que me persegue – “who cares”? quando há saúde, sol, jacuzzi, música a estourar até às tantas – haja saúde de dinheiro prós gastos! Interessa inscrever apenas o que fica na fotografia.

Ainda assim trago em mim uma memória de outro tempo, cheio de estrelas que iluminavam o silêncio, as rãs coachando no pequeno lago entre os nenúfares floridos e os grilos e os bezouros adormeciam a noite.

terça-feira, julho 21, 2009

Tão triste

"mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém"

Al-berto


Tão triste como
conhecer-te do corpo as imperfeições,
seguir com as pontas dos dedos
os sinais que tens,
cada lugar mais escuro,
cada impureza.

Tão triste como
visitar-te os olhos sentir-te em silêncio,
percorrer-te os trilhos
dentro do cinzento,
cada noite em claro,
cada incêndio.

Tão triste como
morreres-me por dentro
e crescer no meu peito
uma lápide ao centro

quinta-feira, julho 09, 2009

Luz & Sombra

Disseram-me que se adormecesse na tua luz ficaria para sempre na tua sombra mas só com o tempo me fui habituando a viver na escuridão.

terça-feira, julho 07, 2009

"No teu deserto"

Também a mim me dói a boca de silêncio,
a língua um pedaço de carne a arder
anunciando as estrelas no céu da boca.
Também a mim me dói a ausência dos teus olhos,
a fímbria matizada do poema
roçando-me na pele um fogo a arder-te.

quinta-feira, julho 02, 2009

Corpo

Socorrer-me do teu corpo
como se o mundo acabasse
na curva que o vento faz
junto ao teu peito
e ardesses em mim
como o silêncio nas árvores.


Foto by Johannes
Museu Berardo - Escultura de Ron Hueck

quarta-feira, julho 01, 2009

Sir Elton

Pois... de facto não foi um concerto no Pavilhão Atlântico do Tony Carreira, não foi. Talvez por isso a TV perdeu com ele pouco tempo.
Temos pena... mas não foi MESMO um concerto do Tony.
Long live Elton John!






Music Magic tinha ele escrito nas costas da jaqueta. Concordo. E só por causa disso este post é todo escrito em cor a dizer com a camisa dele, do Nigel Olsen e da bateria!

terça-feira, junho 30, 2009

CLP - novo blog!



Está aqui o novo blog do Clube Literário do Porto:

http://clubeliterariodoporto.wordpress.com/

domingo, junho 28, 2009

R.I.P. Jacko

Depois tanto alarido, a minha singelíssima homenagem a Michael Jackson que é lembrar uma velha música para a qual eu tenho mood e citar um artigo bem feito do ipsilon do Público para ler aqui .

Eu tinha 10 anos e a escolha seria "Beat It".


Que descanse em paz.



"One day in your life

you'll remember a place

Someone's touching your face

You'll come back and

you'll look around you

One day in your life

You'll remember the love

you found here

You'll remember me somehow

Though you don't need me now

I will stay in your heart

And when things fall apart

You'll remember one day..."

quarta-feira, junho 24, 2009

Crónica de S. João



"Deus e o meu Pai morreram no mesmo dia"

João Luís Barreto Guimarães

in

"A parte pelo todo"

sábado, junho 20, 2009

Pensam-me, logo existo!

[…]

A uma hora dessas

por onde andará seu pensamento


Dará voltas na Terra


ou no estacionamento?





Onde longe Londres Lisboa


ou na minha cama?

[…] *



Este pensamento persegue-me.
Os mortos só morrem verdadeiramente quando deixam de ser lembrados, pensados. Com os vivos passa-se o mesmo, enquanto pessoas não existimos se aqueles que nos conhecem não nos lembram.
Às vezes, como agora, dou por mim a pensar em quem pensará em mim e do que se lembrará de mim, tanto agora como quando eu partir. Dou por mim a pensar que marca deixo nos outros (se a deixo). Que lembraça será, a dos olhares partilhados, das pequenas piadas, frases ditas, pensamentos profundos ou apenas parvos, “estórias” de batalhas travadas ou de pura diversão. Inquieta-me este pensamento. Da mesma forma que a distância dos que fazem parte de mim sempre me inquietou, a distância real, física, dos que partem para outro lugar e aquela ainda mais difícil de quebrar, aquela que vamos deixando interpor-se, dos muros de distância que vamos construído.

[…]

A uma hora dessas

por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

[…] *


Se eu morresse hoje, que poemas fariam a minha mortalha? Haveria poemas? Que poemas me dedicariam?
Natália Correia escreveu " Os que nunca inspiraram um poema/são as únicas pessoas sós."
Que poema inspiraria eu aos meus amigos?


* Adriana Calcanhoto

domingo, junho 14, 2009

Às vezes...


Às vezes procurava na terra as palavras,
escavava-a
tentanto achá-las.
Às vezes encontrava
não palavras mas os teus olhos
e com eles
pedaços do teu silêncio.

sábado, junho 13, 2009

Eugénio

Faz hoje 4 anos que morreu José Fontinhas - Eugénio de Andrade.


Vá, sejam participativos e encham-me a caixa de comentários com poemas de (ou para) Eugénio!
Comemoremos a morte do Poeta como deve ser comemorada, com Poesia.


Adenda ao post:
Comemorar (diccionário Porto Editora):
v. tr.
1. Lembrar.
2. Trazer à memória.
3. Solenizar, recordando.

quinta-feira, junho 11, 2009

Pub - O Apetitoso...


Passei hoje no Stand C - I - 02, do Clube Literário do Porto, na Feira do Livro do Porto, ali bem juntinho ao "supermercado" da Leya e ao D. Pedro. Passei lá e estavam lá estes malandros assim empoleirados, apetitosos, quase me apeteceu comprar um! O "Circulação Transversa" também lá estava mas como estava mais discretinho não me saltou à vista como este, assim... apetitoso!

quarta-feira, junho 10, 2009

Um eléctrico chamado Poesia


Homenagem a Daniel Faria, pelos 10 anos da sua morte, no dia 9 de Junho, onde numa noite de chuva um eléctrico se encheu de Poesia.






Viagem mágica





com o colectivo Quartas Mal-ditas e convidados.

Ver melhor aqui, aqui e aqui

domingo, junho 07, 2009