terça-feira, julho 03, 2007

Avessas

Agarro-te a cintura,
enquanto te rasgo a pele –
primeiro por onde se soltam,
se separam,
os olhos do negro que a noite
havia pousado em ti.
Quero dizer-te que te amo
mas a voz deixa-me sempre ausente,
em falta para com o mundo
que se fecha, que me fecha,
nos teus braços.
Estar contigo é uma lembrança
que és ainda o gosto verde
da liberdade nos meus dentes
e tua é a saliva com que juntos
prendemos o desejo.

terça-feira, junho 26, 2007

A casa na noite

by Loren Klein


Esta noite o silêncio sobrevoou a casa.
Foi nos seus passos pequeninos
que encontrei a noite
para que nela me pudesse aconchegar
e adormecer numa esteira de lágrimas.

Este noite recordei-te a textura da pele
e o desamparo do olhar,
num sulco mais fundo
que te atravessa a fronte
depositei-te um beijo imaginário,

um que levasses contigo,
junto ao peito,
como memória minha depois
da minha ausência.

segunda-feira, junho 25, 2007

Veneno


[...]
Recordo vagamente
a tua voz rente ao precipício
onde se inclina o inferno de nós.
Tudo manso e regular,
dislates líricos, pedras
nuas deste cais.

Nada tem importância e
se tinha não faz mal – dorme
levemente – amanhã já nem te lembrarás mais.

domingo, junho 24, 2007

Em Junho morrem os Poetas














Em Junho morrem os Poetas,
indiferentes ao Verão
e às cerejas que despertam.

De novo tornam
as manhãs cinzentas.

Deixam que as sombras
se sentem, por sua vez,
em todos os lugares da casa.

Em Junho morrem os Poetas
e o frio regressa aos regaços
como um Inverno inesperado…

quarta-feira, junho 20, 2007

Desejo


Do desejo
fiz um verso
que me ocupou todo o dia

sexta-feira, junho 15, 2007

Sempre a bombar!


Weeee... Eu gosto é da mangueira!

A Quelára na Fenáque!


Ups! Afinal não é na Fenáque!



É na Lello & Irmom!

Medo

SMS:


Há sol na cidade, a baixa fervilha de gente em tons garridos de um quase-Verão que se insinua mas tarda a aparecer. Espero por ti no café de sempre. Há lugar na esplanada (se quiseres arriscar o vento empurrando o ruído e o pó das obras mesmo ao lado). Estou só e tenho medo.



-----------------------------Sem Resposta---------------------------------



Tenho medo de enlouquecer entre a música e o silêncio, entre o gesto e o acto, prisioneira de afectos onde não sei sobreviver sem ir morrendo por dentro.
Tenho medo de parar e me morrer cosida a um tempo de perfídia e ausência.
.
Tenho medo…
de (me) perder.

quarta-feira, junho 13, 2007

Canção de Despedida


Devagar…

rasgas o silêncio,
mordes-me por dentro,
abraças-me a dor

Devagar…
fazes-me dormir,
fazes-me sentir,
amparas-me o chão

Devagar…
como uma ilusão,
perdes-me no escuro
e achas-me no muro
que alguém te pintou

Passou tanto tempo,
fez-se tanto vento,
achas que acabou?

Devagar…
é Junho ou Setembro
no abraço lento
de quem tanto amou?

terça-feira, junho 05, 2007

Tempo...

Mesmo assim
há um estreitar de tempo
entre os teus dedos
e os meus.

segunda-feira, junho 04, 2007

Temporalidades


Temporalidades


Talvez seja este o tempo
de tornar a encontrar a voz
dentro do poema,
de o dobrar, pequeno,
como a uma folha seca
sepultada no interior de um caderno

Talvez seja este o tempo
de tornar as minhas mãos
de volta ao corpo
como se o teu um corpo de vento,
sereno, assobiando, azul
sobre a paisagem.

Talvez seja este o tempo
em que cheguemos a tempo!

sábado, maio 12, 2007

C*A*O*S



"Mais vale o CAOS que os MAUS"




Paulo Abrunhosa

sexta-feira, abril 20, 2007

Coisas íntimas


E agora? Que vamos dizer
para que nos digam
da volta secreta das palavras
que trocamos?
Ficaremos os dois
como se nunca nos tivéssemos
servido um do outro,
como se os teus olhos
nunca antes tivessem sido meus.

Não fossemos nós e
ter-nos-íamos amado eternamente,
no vão de um sorriso,
as mãos postas sobre o mundo.

Ficaríamos acesos até que se apagasse o mundo.

quinta-feira, abril 19, 2007

Lamber as feridas



Às vezes sento-me e penso “ a música é a primeira de todas as coisas”. Depois deixo que as lágrimas me queimem a face… ou que a própria música me lamba e abrace.



“A minha pátria é a minha língua”

Fernando Pessoa



... A tua língua é a minha música.

quarta-feira, abril 18, 2007

A reabertura do Tasco


Este blog esteve suspenso por manifesta falta de inspiração (e suspiração).
Reinicia agora actividades… ainda com a “música” como “pano de fundo”


Agradecidos pela paciência,


A gerência .

quinta-feira, abril 05, 2007

"Entre o alvo e a seta"

Exmos. Srs.: Interrompemos este blog para falar de…

Música

Definição: Música = A mais perfeita forma de Poesia.

Abrunhosa, sem óculos (como sempre…)

Quatro anos depois de “Momento”, Abrunhosa regressa para o seu quinto álbum de originais, com edição prevista para o final de Maio e título ainda desconhecido do público.




“Quem me leva os meus fantasmas” é o single de apresentação cuja estreia mundial se deu no passado dia 2 deste mês. Na sua página oficial Abrunhosa prometia um disco mais maduro, menos pop, menos superficial. A julgar pela amostra conseguiu-o.
“Quem me leva os meus fantasmas” é um tema que passa para além da pele, capaz de abanar estruturas, de nos fustigar, questionando-nos sobre o nosso eu, os fantasmas que guardamos e dos quais buscamos a libertação. Um poema soberbo numa música com o cunho bem forte de Abrunhosa, numa magnífica interpretação cheia da força orgânica e melódica a que o músico desde sempre nos habituou, tornando as suas interpretações únicas apesar da limitação a uma só oitava.



















Se por si só, a música, não fosse suficiente para nos tocar, vem equipada com um vídeo-clip que transforma os fantasmas íntimos em fantasmas sociais. Filmado quase todo nas ruas do Porto o clip é habitado por um conjunto de olhares inquisidores, não de actores, mas de alguns dos sem-abrigo que povoam a Invicta, caras que conhecemos senão dali de qualquer outra parte. Olhares que nos fixam e em que nos fixamos – é impossível não ficar colado ao ecrã tal é a força dos olhares que vão passando – olhares de dor, de revolta, de indiferença ou de ausência. Quando passamos por eles na rua tendemos a afastar o olhar dos olhos de quem nos estende a mão, nos “arruma” o carro ou apenas vagueia num seu mundo de andrajos e ausências, seja por vergonha, por pudor, por medo ou simplesmente por pura indiferença. Abrunhosa dá-nos, neste clip, essa oportunidade; mais concretamente obriga-nos a olhá-los, a olhar o que de mais profundo e intimo há em cada um destes “fantasmas” – os olhos – eles próprios repletos dos fantasmas de cada um e onde, afinal, se reflectem os nossos próprios fantasmas, os que escondemos e com os quais, a espaços, lutamos.






Conhecido pela imagem de marca de nunca mostrar os olhos, Abrunhosa brinda-nos com uma sucessão de olhares. São estes os olhos de Abrunhosa – sempre bem à vista, aliás, nas músicas que compõe. É este o seu olhar sobre o que o rodeia, são estes os olhos que os seus óculos reflectem.

A música podem ouvi-la aqui:

http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=383952

sábado, março 31, 2007

Olhares cumplices















Vamos, então, amanhã,
despir novamente o corpo
entraremos de bruços pela ternura
fingindo meter o silêncio dentro da boca.
Vamos dobrá-lo sozinho com a língua
e partir, depois,
para onde um Verão inventado
nos transforme

domingo, março 18, 2007

Se eu fosse...


Aqui e ali denuncia-se o amor
com salvas de sangue.








Espero os teus olhos
como se espera o fogo
nas noites de Inverno.
Até lá fico desenhando
círculos no vidro
onde o nosso bafo
fez a condensação
da noite,
que a ebulição dos
corpos não vem
antes da madrugada
que fazemos adormecendo
na tarde buliçosa.

sábado, março 17, 2007

Abstémia


Não bebo álcool. Não gosto.

Subitamente... apetecia-me um Martini...
hmmm... porque será?

sexta-feira, março 09, 2007

Magnólia

Fala-me da mulher
que jaz nua
sob a magnólia branca.

Fala-me dos seus olhos
cor de vento
que esperam os teus
pelos declives do Inverno.

Fala-me da mulher
cujo corpo repousa
entre os teus dedos

diz-me da nudez dos
seus seios, da palidez
da sua pele, diz-me do cheiro
à magnólia que, como a ela,
vais despetalando
pela noite dentro enquanto
a lua se abre plena
para enlaçar solícita
os amantes abraçados.


terça-feira, março 06, 2007

Vazio


Assim que dos teus olhos
se apagava a luz do abandono
ficávamos a olhar, os dois,
o vazio do corpo
depois de usado.

sexta-feira, março 02, 2007

Árvores

Socorrer-me do teu corpo
como se o mundo acabasse
na curva que o vento faz
junto ao teu peito
e ardesses em mim
como o silêncio nas árvores.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mors ultima spes

(Título plagiado de uma lápide no "Prado do Repouso")

Maremoto ou poesia,
este pedaço de vento
dominado pelas pausas
das coisas que não entendo.





Hoje perco-me,
amanhã, talvez já morta,
o meu cadáver dirá
das sombras que
o tempo depôs sobre o meu peito.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Suicídio

Morre-se de noite enquanto os dias
se embriagam de flores azuis




Lá fora o mar estremece de espuma e de cio sobre as rochas.

Se eu abrisse a portada talvez alguém mastigasse o
sofrimento com dentes de fogo
e eu amachucasse, no interior das minhas mãos,
o terrível som do silêncio.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Fatalidades



“[…] no coração que é o sítio ideal
para quem mata a paixão,
que amar é faltal.”
Pedro Abrunhosa


A tua pele dói-me
nos redondos afagos onde
o beijo falha
a presença

dos dias
inúmeros
correm como fontes mortas
no insucesso da paisagem
agrafada ao interior do
meu corpo

de sempre

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Vertigem


Chego ao teu corpo para conciliar o silêncio com a noite
e te deixar a paz nos braços para que possas adormecer

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Certos céus que não tive



My funny valentine


Vem a minha casa.
Ouvirás canções
que nos prometem a certos céus que não tive.

Alargarás os braços e abraçar-me-ás.
Uma asa, a que és afinal, golpeará a ordem do mundo
essa ordem de celofane que repudiámos.

E para lá do vidro, a dor apagar-se-á,
e juntos assistiremos
ao seu irado crepúsculo.

Domínios no escuro, dir-me-ás.
Sim, estamos cegos, dir-te-ei,
isto é, arrebatados, transportados

para o temível lugar onde a exasperação
é de outros, e a tristeza põe o rabo entre as pernas
e foge, e tropeça, e cai

em direcção ao ígneo centro.
Mas nada disto tem o sentido que se presume existir
(fátua ontologia)
em magias menores, alumbramentos e metamorfoses,

actos rituais e fogos de artifício nos longes da alma.
Tu estás somente dedicada
ao próximo alinhamento de canções

que nos prometem a certos céus que não tive.
Comprei hoje o Johnny Hartmann.
Vem ouvi-lo a minha casa, my funny valentine.

Luís Quintais


Belo Poema de Luís Quintais, consta do seu novo “Canto Onde” – muito recomendável, belíssimo livro.
Hoje apeteceu-me este, a dizer com o dia…, para acompanhar com música e a lembrar “certos céus que não tive”

domingo, fevereiro 11, 2007

Chávena vazia



















Insistiram em levar-me a chávena,
embora eu goste de a manter
vazia
sob os olhos e sob o olfacto.

Entrar na chávena vazia
como quem entra
na vida (vazia)
e ficar imaginando sonhos
na espuma que seca em seu redor.

Um dia impeço-os
de me levarem a chávena (vazia)
e guardo-me dentro dela
como a memória dos meus dias (vazios).

terça-feira, fevereiro 06, 2007

"uma sombra de rio"

Limitas-me o gesto,
sempre,
acuso-te do desgaste
das palavras.
Não tenho outras,
são estas
as mesmas que
fervem sob o sangue e
sobre a pele,
são as mesmas que te beijam
e te deixam,

dentes que rompem
a roupa ou a pele,
unhas que
arranham por dentro
do peito
como se o vento fosse nosso,
nos pertencesse,
ou o silêncio se apagasse
sobre o cinzeiro.

Entre nós e a cidade
apenas este espaço de tempo,
uma sombra de rio
que teima em abraçar-nos por dentro.
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sexta-feira, janeiro 26, 2007

I don't keep track of time

Sabes que gosto de te entrar
pelo interior das roupas,
por onde apenas o vento
tem o costume de entrar em ti

e essas ideias malucas
a que teimas em chamar de
liberdade!
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terça-feira, janeiro 16, 2007

Cantos de Hotel


Gostava de perceber o teu corpo
de música
de hábitos
gostava de coligir os teus lábios
de versos
de ácidos cabelos soletrando
nos olhos
o verde aberto dos campos.

Eu gosto de partir ficando
sempre junto do corpo
isento das cidades.
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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Um Leme

No início das coisas há um rumo a traçar. Traço o rumo simples do diário do lápis que se atravessa na folha a contar memórias de pele, que só a pele tem verdadeira memória das coisas que sentimos.

Se este lápis, travesso, pequeno, já rombo, soubesse contar de mim apenas as coisas mais pequenas, como as rugas na textura das tuas mãos que partiram, deixando-me a braços com o perfume que a ausência sublinha na cadeira vazia ao meu lado.

Mesmo assim o mar … como um abraço imenso, como os teus olhos que me faltam sorrindo, mesmo assim o mar…
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sexta-feira, janeiro 05, 2007

Tempo

Faz tempo

Faz tempo nos perdemos
um do outro.

Vigilantes, as mãos,
procuram ainda no silêncio
algo que me lembre o calor do teu corpo.
Uma lâmina de saliva
rente aos teus lábios,
ainda quentes, ainda roçando-me
a pele.

Faz tempo nos perdemos...
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"Quando uma nuvem começa"

Começar…

…tem de ser pelo princípio.


Seja o princípio do mundo ou o princípio das nuvens…